Quando uma ressaca se aproxima do litoral, moradores de Itaipuaçu, Barra de Maricá, Cordeirinho, Guaratiba, Ponta Negra e Jaconé costumam acompanhar o avanço das ondas com preocupação. Em eventos mais intensos, a água ultrapassa a faixa de areia, atinge avenidas e ameaça imóveis, quiosques e outras estruturas próximas ao mar.
A frequência desses episódios está diretamente ligada à geografia da cidade. Maricá possui uma extensa orla aberta para o Oceano Atlântico, sem a proteção oferecida por uma grande baía. Isso deixa vários trechos expostos à energia das ondas de tempestade e das ondulações geradas por sistemas meteorológicos no oceano.
Ressaca: entenda o fenômeno
A ressaca ocorre quando ondas mais altas e energéticas chegam ao litoral durante um período prolongado. Essas ondas podem estar associadas à passagem de frentes frias, ciclones extratropicais, ventos persistentes e áreas de baixa pressão sobre o oceano.
Quando a ondulação forte coincide com maré mais alta, o alcance da água aumenta. A condição da própria praia também interfere: uma faixa de areia estreita, inclinada ou já desgastada por eventos anteriores oferece menos espaço para dissipar a energia das ondas.
Maricá tem histórico de danos
Um estudo sobre a erosão costeira no município analisou fortes ondulações registradas em 1995, 1996 e 2001. Os eventos causaram danos graves em construções e geraram prejuízos estimados, na época, em aproximadamente R$ 3 milhões, considerando destruições, desvalorização de imóveis e obras de recuperação.
A pesquisa identificou predominância de trechos com risco elevado ou muito elevado ao longo do arco praial. Entre os fatores estavam a exposição às tempestades, a baixa resistência física de determinados setores e a presença de casas e quiosques construídos muito próximos à praia.
Em 2022, o Plano Municipal de Contingência informou que a Defesa Civil havia mapeado oito pontos de erosão costeira, com destaque para áreas da Barra de Maricá, Cordeirinho e Ponta Negra.
Dinâmica da praia e urbanização
Durante a ressaca, parte da areia pode ser retirada da faixa visível e levada para áreas submersas. A praia fica mais estreita, surgem degraus, escarpas, valas e trechos com pedras e conchas expostas.

Depois, em períodos de mar mais calmo, parte desse material pode retornar. Por isso, uma praia não permanece com o mesmo desenho durante todo o ano. Ela está em transformação constante.
O problema aumenta quando a urbanização ocupa o espaço que naturalmente seria utilizado pela praia durante eventos extremos. A avenida, o muro ou o imóvel não impedem a dinâmica do mar; apenas passam a estar no caminho dela.
Soluções: restinga e planejamento urbano
A vegetação de restinga, as dunas e a faixa de areia funcionam como áreas naturais de amortecimento. Quando esses ambientes são preservados, ajudam a absorver parte da energia das ondas e permitem que a linha de costa se ajuste.
Já a retirada da vegetação, o tráfego de veículos e a ocupação muito próxima ao oceano aumentam a vulnerabilidade. Obras de contenção podem ser necessárias em determinados pontos, mas precisam ser planejadas a partir de estudos, porque uma intervenção pode alterar o transporte de areia e transferir o problema para outro trecho.
Em Maricá, conviver com o mar significa reconhecer que a orla não é uma linha imóvel. É um ambiente dinâmico que precisa de monitoramento, preservação e planejamento urbano permanente.
