A expansão do crime organizado na Amazônia deixou de ser apenas um problema de segurança pública. A infiltração nas instituições locais faz imperar a governança do crime, impulsionada pelo peso do narcotráfico na economia. A cocaína ocupou o sexto lugar entre as mercadorias mais importantes da região em 2024, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Considerando apenas a droga apreendida, movimentou US$ 703,7 milhões. Tomando como base a projeção (otimista) de que isso representa 10% do total, o FBSP calcula que transitaram pela Amazônia carregamentos de cocaína no valor de US$ 7 bilhões. A soja movimentou US$ 20,34 bilhões no mesmo período. A cocaína ainda está à frente de cereais e farinhas, carnes, fibras e têxteis, além do ouro.
As organizações criminosas têm à disposição a imensa malha de rios, áreas ermas para abrir pistas clandestinas e estradas pouco vigiadas para escoar a cocaína importada dos vizinhos Colômbia, Peru e Bolívia, maiores produtores mundiais da droga. O lucro do tráfico financia garimpo ilegal, grilagem de terra e extração clandestina de madeira. Pelo menos 17 facções criminosas atuam na Amazônia, entre elas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), em alianças com grupos locais. O estudo conclui que, dos 772 municípios da região, 170 — onde vive 23% da população local— estão sob “extrema exposição” ao crime organizado. São cidades como as capitais Macapá (AP) e Boa Vista (RR), dependentes de dinheiro público e cercadas de garimpos onde atuam facções criminosas. O estudo estima que 51,5% do PIB da Amazônia esteja em municípios com “alta” ou “extrema” exposição ao crime organizado.
Dois fatos ocorridos em 2016 ampliaram o garimpo ilegal na Amazônia e a conversão da região em rota fundamental do narcotráfico, diz outro estudo, de 2023. O primeiro foi o acordo de paz assinado pela Colômbia com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias colombianas (Farc). Nem todos os 13 mil combatentes aderiram ao acordo. Muitos continuaram na floresta, no controle de áreas de cultivo de coca, atuando no tráfico e em garimpos.
Naquele mesmo ano, a Venezuela, sob a ditadura de Nicolás Maduro, abriu 112 mil km² à exploração mineral. Organizações criminosas aproveitaram para se infiltrar no Arco de Mineração do Orinoco. No lado colombiano da fronteira, os dissidentes das Farc e outros grupos de guerrilha, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), aumentaram a presença criminosa.
Tal quadro justifica uma política de Estado ampla e integrada para proteger a Amazônia do crime organizado, com participação efetiva de países vizinhos. O Brasil não tem como enfrentar o problema sem pelo menos trocar informações com Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela. A pressão americana ao passar a tratar CV e PCC como organizações terroristas cria uma oportunidade para ampliar essa colaboração.

