A morte de Juca de Oliveira encerrou uma das trajetórias mais completas do teatro brasileiro. Poucos artistas reuniram, com a mesma excelência, o ator e o dramaturgo. O intérprete de um memorável Ricardo III também dominava como poucos a arquitetura da comédia, revelando um olhar agudo sobre os costumes nacionais.
Em “Baixa Sociedade”, um de seus textos mais conhecidos, transforma a obsessão pela ascensão social em uma divertida e inteligente sátira sobre um país que insiste em acreditar que sempre existe um atalho para o sucesso.
A trama acompanha Otávio (Luiz Fernando Guimarães), homem movido pela ambição e pelo desejo permanente de reconhecimento, dinheiro e status. Ao lado do filho, Otavinho (Paulo Mathias Jr.), inventa estratégias, cria situações improváveis e sustenta uma imagem de prosperidade que existe muito mais na aparência do que na realidade.
A sucessão de mentiras, improvisos e quiproquós faz avançar uma narrativa que expõe, com humor, um traço profundamente brasileiro: a crença de que esperteza e improviso podem substituir trabalho, mérito e planejamento.
Escrita na década de 1970, a peça impressiona pela atualidade. O Brasil mudou, mas o desejo de parecer mais do que se é, de ocupar um lugar social a qualquer preço e de transformar aparência em patrimônio continua presente. É justamente nessa observação dos comportamentos que reside a força da dramaturgia de Juca de Oliveira. Seu humor nunca foi gratuito. O riso surge do reconhecimento de personagens que continuam circulando pelas ruas, pelos escritórios e pelas famílias brasileiras.

Luiz Fernando Guimarães conduz o protagonista com a experiência de quem domina o gênero. Ao seu lado, Paulo Mathias Jr. encontra em Otavinho um personagem que lhe permite demonstrar segurança, boa presença cênica e um apurado domínio do tempo da comédia, destacando-se em diversos momentos da montagem. Isabella Santoni e Bruna Trindade completam a engrenagem dos quiproquós que movimentam a história, contribuindo para o ritmo das situações criadas pelo autor.

Mais do que revisitar um clássico da comédia brasileira, Baixa Sociedade reafirma a permanência de um dos grandes legados de Juca de Oliveira: fazer o público rir enquanto reconhece, por trás de cada situação absurda, um retrato incômodo da sociedade brasileira. Talvez seja justamente por isso que seus textos resistam tão bem ao tempo. Mudam as épocas, mudam os atores, mas permanecem intactos a inteligência, a ironia e a extraordinária capacidade de transformar costumes em teatro.

Paulo Mathias Jr. iniciou a carreira artística ainda criança, aos nove anos, como dublador. Com mais de 30 anos de trajetória no teatro, no cinema e na televisão, o ator falou sobre “Baixa Sociedade”, os próximos trabalhos e o que ainda sonha viver na carreira.
1 – O texto de Juca de Oliveira continua muito atual. Na sua opinião, o que faz essa mensagem ainda conversar tanto com o público de hoje?
A ascensão social é algo que muita gente deseja. Ficar rico da noite para o dia, mudar de vida… esses assuntos fazem parte do cotidiano, e a plateia acaba se colocando no lugar do Otávio e, de certa forma, torcendo por ele.
2 – Teve alguma parte desse texto que mais chamou a sua atenção ou fez você refletir? Por quê?
O Otavinho, personagem que interpreto, é um cara extremamente justo e correto. Teve uma educação rígida, baseada em valores. Só que, em determinado momento da história, ele se corrompe. Quando li essa parte do texto fiquei em choque: “Como assim? O ícone da honestidade também se mostra vulnerável ao sistema?”. Isso faz a gente refletir que, na vida real, muitas vezes só conhecemos a verdadeira índole de uma pessoa quando ela recebe poder.
3 – Existe algum personagem que você ainda sonha em interpretar na televisão, no teatro ou no cinema?
O galã. Nunca ninguém me escalou para fazer esse personagem. (Risos)
4 – Quais projetos você está desenvolvendo neste momento? Tem alguma novidade que já pode compartilhar?
Em agosto estreia a segunda temporada da série “Volte Sempre”, no Multishow. Faço o Valentim, um hater de internet. E sigo com a turnê de “Baixa Sociedade” pelo Brasil até o fim de outubro.
5 – Depois de tantos anos de carreira, o que ainda faz seus olhos brilharem quando surge um novo convite para atuar?
Minha formação é no teatro, então o grupo conta muito para mim. As pessoas e os profissionais que fazem parte do projeto me interessam mais do que qualquer outra coisa. Quando o grupo é bom, o trabalho será maravilhoso. Coxia feliz é certeza de que o público vai sair satisfeito.
Serviço:
Teatro Clara Nunes (Shopping da Gávea)
Sextas e sábados, às 20h
Domingos, às 19h


