Fabi Bang belisca uma cocadinha enquanto Myra Ruiz se entretém com um pacote de biscoito de chocolate.
No camarim do Teatro Renault, em São Paulo, onde as protagonistas do musical Wicked: a História Não Contada das Bruxas de Oz receberam a reportagem de VEJA RIO, no fim de junho, as guloseimas presenteadas pelos fãs dividem espaço com outros mimos de admiradores, como bordados, desenhos, colagens e quadros.
Elas ainda estavam em cartaz com Shrek: o Musical, no qual se revezam como Fiona, mas a conversa inevitavelmente desaguou no assunto que as acompanha há uma década — Wicked, o maior fenômeno do teatro musical, enfim vai estrear na cena carioca.
“A gente conseguiu esse feito na raça e na cara de pau”, brinca Fabi Bang. “Acho que queríamos tanto isso que aconteceu”, arremata Myra Ruiz, já com o biquíni separado para ir à praia assim que puser os pés na cidade. O produtor Cleto Baccic ri e acrescenta: “Elas fizeram pressão psicológica durante dez anos”.
A partir desta quarta (15), a superprodução, estrelada pela dupla e vista por mais de 1 milhão de espectadores em palcos paulistanos, ocupa a Cidade das Artes Bibi Ferreira, na Barra, com ingressos quase esgotados para a temporada que vai até 6 de setembro.
Com orçamento estimado em 8 milhões de reais, dezenas de patrocinadores e uma logística comparável à de um mega-show internacional, a montagem atende a um desejo antigo do público carioca.
A longa espera tem razão de ser. Wicked faz girar uma máquina vultosa: são mais de 150 figurinos, 130 perucas e 35 cenários, além de 35 atores em ação.
“Importamos três sistemas de voo de Las Vegas. A nossa Elphaba (uma das protagonistas do show) voa a 12 metros de altura, de um jeito que Nova York nunca viu”, orgulha-se Baccic, sócio da produtora Atelier de Cultura, responsável pela mais recente montagem brasileira do espetáculo.
Para dar uma ideia, as 38 toneladas de estrutura lotaram dezesseis caminhões que cruzaram a Via Dutra rumo à Cidade das Artes, escolhida justamente por ser capaz de abrigar uma superprodução como essa.
“Colocamos o Rio em pé de igualdade com os maiores palcos do mundo”, garante Isabel Werneck, presidente do espaço, que já recebeu produções grandiosas como A Noviça Rebelde e Beetlejuice.
Cerca de vinte atores baseados na capital fluminense, como Jonatas Faro e a ex-Rouge Karin Hils, se somam ao elenco vindo de São Paulo.
Na Broadway, o espetáculo, concebido pelo compositor Stephen Schwartz com base no livro de Gregory Maguire, faz sucesso há 23 anos.
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Mas a versão made in Brazil não é uma réplica pura e simples da original. Há cenografia, figurinos e efeitos próprios, além de improvisos para adicionar aquela graça local — Fabi Bang, por exemplo, incorpora com frequência memes às falas de Glinda, a outra icônica bruxa da trama, levando a plateia ao delírio.
Por trás da magia, há uma rotina digna de atleta. Fabi leva uma hora e meia para se transformar na Bruxa Boa do Norte. Já Myra precisa de três etapas de limpeza ao fim da sessão para se livrar da tinta verde no corpo de Elphaba.
Para dar conta das três horas de entrega e cantoria no palco (aos sábados e domingos, a sessão é dupla), as atrizes capricham na preparação física e redobram o cuidado com a alimentação, tentando resistir aos doces enviados pelos fãs (como vimos, nem sempre conseguem), dormem bem e contam até com massagem regenerativa no fim das apresentações.
“É como correr uma maratona de quarta a domingo”, compara Myra. “Já preparei a minha filha, Isabel, que tem 7 anos, para ter bem menos atenção da mamãe durante essa temporada”, relata Fabi, carioca radicada em São Paulo.
Todo o esforço vale a pena, garantem as artistas. A história do musical se desenrola antes dos acontecimentos de O Mágico de Oz e fala com quem já se sentiu fora do lugar. “Cresci me sentindo deslocada e convivi com distúrbio alimentar”, diz Myra. “No espetáculo, quando Elphaba voa, o público pensa ‘eu também posso voar’.”
A chegada de Wicked ao Rio coroa um novo momento de efervescência dos musicais na cidade. E engana-se quem pensa que o gênero foi importado dos Estados Unidos.
No final do século XIX e começo do XX, o que lotava os teatros da Praça Tiradentes eram as operetas, com obras de Artur Azevedo (1855-1908) e Luiz Peixoto (1889- 1973).
“Existe a falsa ideia de que o teatro musical foi inventado na Broadway e chegou ao Brasil há uns vinte anos, mas não. Ele nasceu praticamente ao mesmo tempo nos dois países, com a diferença de que lá houve investimento contínuo e aqui não”, ressalta o pesquisador, diretor e autor Gustavo Gasparani.
Até meados do século passado, a tradição do teatro de revista, carregado de críticas ao moralismo, revelou nomes como Carmen Miranda (1909- 1955) e Dercy Gonçalves (1907-2008). Sua decadência se deu com o crescimento da televisão, mas a memória daqueles tempos nunca desapareceu.
“O carioca tem uma relação visceral com o musical, a canção entra no corpo das pessoas de um jeito diferente. Por isso, é um gênero que alcança tanta gente e faz tanto sucesso”, diz Gasparani.
Na ditadura militar, os de autoria de Chico Buarque, como Gota d’Água e Roda Viva, questionavam o autoritarismo e chegaram a ser alvo da censura. A virada começou nos anos 1990, quando uma nova geração de artistas reconstruiu praticamente do zero a cadeia produtiva do teatro musical.
“O que se vê hoje é resultado de décadas de insistência e paixão. Quando começamos, parecia impossível pensar em plateia cheia nos musicais brasileiros”, observa Claudio Botelho, que, ao lado de Charles Möeller, é responsável por arrasa-quarteirões como Beatles num Céu de Diamantes e as versões nacionais de Avenida Q e O Despertar da Primavera.
Prestes a fazer duas sessões no Theatro Municipal de Tarsila, a Brasileira, nos dias 1º e 2 de agosto, Claudia Raia estreou no ramo aos 16 anos, em A Chorus Line, e se tornou, além de estrela, produtora e força motriz do gênero.


“Não havia escola de teatro musical, mercado ou um modelo. Fui criando elenco, músicos, técnicos e tecnologia junto com o público. Aprendemos fazendo”, lembra. Foi nesse ambiente em expansão que produtoras como a Aventura ajudaram a elevar o patamar dos espetáculos.
Fundada por Aniela Jordan e Luiz Calainho, a empresa fez acontecer superproduções como Elis, A Musical, Hair e Mamma Mia!. “O ator brasileiro passou a ter a certeza de que é possível viver de arte”, afirma Aniela, revelando que, em seus musicais, um artista que integra o coro costuma ganhar 7 000 reais por mês.
Os musicais biográficos, aliás, têm mexido com a memória afetiva brasileira nos últimos tempos e se convertido em bilheteria. Djavan: Vidas pra Contar já rodou onze capitais, atraindo 85 000 espectadores, enquanto Cássia Eller — O Musical ficou uma década em cartaz.


“O público da música que talvez não fosse ao teatro é capturado por essas peças”, observa Gustavo Nunes, CEO da Turbilhão de Ideias, produtora de tais montagens. “Decidi me dedicar aos musicais pela oportunidade de contar a história de grandes artistas brasileiros que mereciam ter suas trajetórias propagadas”, resume Nelson Motta, que escreveu, entre outros, Tim Maia — Vale Tudo e Tom Jobim Musical.
A talentosa Laila Garin já tinha longa estrada na área quando foi escolhida para interpretar Elis Regina no espetáculo que estreou no Teatro Casa Grande em 2013. E não deu outra: imediatamente foi alçada ao estrelato. “Deixei de ser invisível com esse musical”, reconhece a atriz, na preparação para viver a protagonista de Piaf — Eu Não Me Arrependo, produção da Aventura que chega em outubro ao Riachuelo, no Centro.
Preparando-se para encarnar Dalva de Oliveira (1917-1972) em Minha Estrela Dalva, com estreia prevista para 31 de julho no Teatro Claro Mais, a veterana Soraya Ravenle faz um alerta: “Ainda há um desequilíbrio. Os grandes patrocínios privilegiam franquias de fora”, diz.
Miguel Colker, produtor e diretor-geral de Anunciação — O Musical de Alceu Valença, no Carlos Gomes a partir de 23 de julho, concorda: “Estou fazendo na raça e no amor, com apoiadores, mas sem patrocínio master” Hoje o gênero vive uma ebulição criativa em solo brasileiro.
Há espaço para homenagens a ídolos populares, releituras de clássicos, adaptações literárias e até paródias de sucessos do cinema. A temporada 2026 sintetiza bem tamanha diversidade.
Em cartaz no Teatro Multiplan, na Barra, Meu Filho É um Musical faz um tributo a Paulo Gustavo (1978-2021), com a participação de Déa Lúcia em algumas sessões.
“É um Paulo que muita gente não conhece, antes do fenômeno”, diz o diretor João Fonseca, que já orquestrou sucessos em homenagem a Tim Maia, Cássia Eller e Cazuza.
Em 6 de agosto, Ópera do Malandro ganha uma versão com José Loreto como o pilantra Max Overseas, e Valéria Barcellos, primeira atriz trans a viver Geni no teatro. “O malandro quer ascender a qualquer custo, é semelhante a muita gente conhecida”, reflete Loreto, estreante em musicais.
Em outubro, também chega Titaníque, sátira do laureado filme de 1997, com os tarimbados Marcos Veras e Alessandra Maestrini no elenco. Até Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, terá uma versão embalada pelo talento de Heloisa Périssé, Bruno Garcia e Hugo Bonèmer. “A mensagem tem que ser vocalizada para o maior número de pessoas”, aplaude o escritor.
Se não faz muito tempo que o musical cavava seu espaço na cena nacional, hoje é o público que disputa lugar na plateia. Ponto para a cultura.
Um Estouro
Os impressionantes números de Wicked
3 Sistemas de voos importados dos EUA para as cenas aéreas
2 Quilômetros de fitas de LED integradas ao cenário
+ 130 Perucas
+ 1 Milhão de espectadores + 130 em São Paulo
+ 1800 empregos indiretos gerados na temporada carioca
16 caminhões cruzaram a Via Dutra com a estrutura do musical
38 toneladas é o peso total da produção
304 pessoas envolvidas diretamente na montagem
180 Minutos de duração do espetáculo


DNA Brasileiro
Os musicais através da história
Final do século XiX. Operetas de Artur Azevedo e Luiz Peixoto lotavam os teatros da Praça Tiradentes, no Centro, como o João Caetano.

Anos 1920 e 1930. Unindo teatro, música e dança, o teatro de revista atinge o auge, com nomes como Carmen Miranda e Dercy Gonçalves em destaque.

Anos 1950. Com a chegada da televisão, o gênero entra em decadência.
Anos 1960 e 1970. Uma nova corrente brasileira começa a ganhar os palcos, desde Morte e Vida Severina, baseado no texto de João Cabral de Melo Neto e musicado por Chico Buarque, a espetáculos criados por Chico, como Gota d’Água, Roda Viva e Ópera do Malandro.
Final dos anos 1990 e 2000. A paixão e admiração pelas superproduções da Broadway são a centelha para a criação de um mercado nacional. Charles Möeller e Claudio Botelho brilhariam com originais como Beatles num Céu de Diamantes e versões de clássicos estrangeiros como Avenida Q.

Anos 2010. Começa a hegemonia das biografias musicais, com os arrasaquarteirões Tim Maia — Vale Tudo; Cássia Eller e Cazuza — Pro Dia Nascer Feliz, O Musical. Grandes produtoras, como a Aventura, entram no circuito.

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Próximas estreias em solo carioca
Minha Estrela Dalva. Soraya Ravenle vive Dalva de Oliveira em um encontro imaginário com o ator Renato Borghi. Em vez de uma biografia convencional, a montagem mistura memória, fantasia e música. Estreia em 31 de julho, no Teatro Claro Mais, em Copacabana.
Feliz Ano Velho. Baseado no livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, o espetáculo narra a vida do escritor após o acidente que o deixou tetraplégico. Heloisa Périssé, Bruno Garcia e Hugo Bonèmer já aquecem os vocais. Estreia em 14 de janeiro, no Teatro Riachuelo, no Centro.

Anunciação — o Musical de Alceu Valença. Em comemoração aos 80 anos do músico pernambucano, a montagem transforma o universo poético do artista em experiência sensorial e leva ao palco 35 de suas canções. “Tenho certeza de que vai ser maravilhoso”, diz Alceu. Estreia em 23
de julho, no Teatro Carlos Gomes, no Centro.

Tarsila, a Brasileira. A história de uma das maiores artistas do país, responsável por construir uma nova identidade para a arte brasileira, ganha os palcos com Claudia Raia como protagonista e produtora, ao lado de Jarbas Homem de Mello, que interpreta Oswald de Andrade. 1º e 2 de agosto no Theatro Municipal, no Centro.

Ópera do Malandro. Jorge Farjalla revisita o clássico de Chico Buarque com José Loreto, Totia Meireles e Amaury Lorenzo. “A obra original foi escrita há 300 anos e nada mudou”, constata o diretor. Estreia em 6 de agosto, no Teatro Multiplan, na Barra.
Piaf — Eu não me arrependo. Depois de Elis Regina, Laila Garin interpreta Édith Piaf (1915-1963) na superprodução da Aventura. Os altos e baixos vividos pela cantora francesa são contados ao som de La Vie en Rose e Non, Je Ne Regrette Rien. Estreia em 10 de outubro, no Teatro Riachuelo, no Centro

Titaníque. O fenômeno Off-Broadway transforma o filme de James Cameron em uma comédia delirante narrada por Céline Dion. A montagem brasileira reúne no elenco nomes como Alessandra Maestrini, Marcos Veras, Luis Lobianco e George Sauma. Estreia em 10 de outubro, no Teatro Claro, em Copacabana.

