Uma mala de viagem sobre a mesa do plenário resumiu o tom da audiência pública da Saúde realizada na última sexta-feira (29) na Câmara de Vereadores de Maricá. Repleta de denúncias e reclamações de usuários do SUS municipal, ela foi levada pelo vereador Chiquinho (PL), membro da Comissão de Saúde, que transformou os dados oficiais apresentados pela Prefeitura em pano de fundo para uma cobrança direta. “É a população pedindo socorro”, afirmou.
O parlamentar disse ter reunido mais de mil registros de problemas no atendimento. “Isso aqui tudo é denúncia, tudo com prova”, declarou, ao apontar a mala diante do secretário de Saúde, Marcelo Velho, e dos demais presentes.
As cobranças
No centro das críticas, a falta de medicamentos. Chiquinho citou a ausência de dipirona em unidade hospitalar, a carência de cerca de 22 tipos de remédios nos postos de saúde e a falta de insulina e fitas para pacientes diabéticos. “Como pode a mesma empresa, aonde falta remédio no posto de saúde, continuar prestando serviço?”, questionou, ao criticar a continuidade da Cempes, organização social responsável pela gestão dos serviços.
O vereador também cobrou agilidade nos agendamentos e melhor tratamento ao público nas unidades, relatando episódios que classificou como falta de acolhimento. “A saúde de Maricá não está ruim não. A saúde de Maricá está péssima”, disse. “Uma cidade que tem um orçamento milionário não pode deixar a população nesse sofrimento.”
Durante a fala, moradores presentes reforçaram as queixas, relatando falta de insulina nos postos e de medicamentos no hospital.
O contraponto dos números
As denúncias contrastaram com o balanço apresentado pela gestão. Segundo o relatório quadrimestral — exigido pela Lei Complementar nº 141/2012 e referente ao período de 1º de janeiro a 30 de abril de 2026 —, o município aplicou 29,02% da receita própria em saúde, quase o dobro do mínimo constitucional de 15%. O orçamento da pasta para o ano é de R$ 1,08 bilhão.
O presidente da Comissão de Saúde, vereador Felipe Auni, que conduziu a audiência, comemorou o índice como “recorde dentro do nosso município”.
A resposta da Secretaria
O secretário Marcelo Velho reconheceu desafios, mas afirmou que muitas das faltas têm explicação técnica ou são de responsabilidade de outras esferas. No caso da dipirona, disse ter havido falha de fornecedor, com substitutos disponíveis como paracetamol e ibuprofeno. Sobre a insulina, afirmou que cerca de 120 pacientes teriam direito a recebê-la diretamente do Estado, pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF).
Velho pediu que todas as denúncias fossem formalmente encaminhadas à pasta para apuração. “Se há denúncia, nós verificamos e iremos notificar a empresa”, afirmou. Ficou acordado que o material reunido por Chiquinho será entregue à Secretaria, com retorno à Comissão de Saúde na sessão ordinária de agosto.

