Três atrizes entram em cena com a elegância de quem conhece o palco — e a vida. Os figurinos deslumbrantes de Karen Brusttolin dialogam perfeitamente com o belo cenário assinado pela premiada Natália Lana, criando, desde o início, uma atmosfera sofisticada, afetiva e acolhedora. Aos poucos, sem exageros ou fórmulas fáceis, “Uma Vida de Amizade” conquista justamente pela delicadeza com que aborda temas tão humanos e universais.
O texto de Gustavo Pinheiro mergulha nos laços profundos que unem três mulheres completamente diferentes entre si, mas inseparáveis pela memória e pela história compartilhada. No reencontro anual dessas amigas, surgem conversas tipicamente femininas — amor, sexualidade, maternidade, envelhecimento, menopausa, família e carreira — conduzidas de maneira natural, divertida e profundamente emocionante. O passado glamouroso em Paris, quando dividiram um apartamento como modelos, funciona como elo afetivo e também como contraste para as mulheres que se tornaram hoje.
Silvia Pfeifer, Adriana Garambone e Helena Fernandes entregam interpretações maduras, precisas e cheias de nuances. Silvia constrói uma Gilda aparentemente conciliadora e segura, mas que revela fragilidades tocantes em algumas das cenas mais confessionais da montagem. Adriana Garambone vive Yasmin com charme, humor e certa instabilidade emocional, além de brilhar nos solos musicais apresentados à capela, embalados pela sensível trilha de Rodrigo Penna. Já Helena Fernandes interpreta Renée com elegância rígida e olhar crítico constante, conduzindo com coerência as transformações emocionais da personagem.

A direção de Fernando Philbert demonstra absoluto domínio na condução de atrizes com personalidades cênicas tão fortes. Seu olhar experiente entende as diferenças entre as personagens e permite que cada uma encontre seu espaço dentro do jogo teatral. O equilíbrio entre drama e comédia acontece de forma orgânica, sem rupturas, fazendo o espetáculo transitar entre o riso e a emoção com rara fluidez.
“Uma Vida de Amizade” é, acima de tudo, um hino à amizade feminina. Um espetáculo sobre o tempo, as marcas invisíveis da maturidade e as questões que atravessam mulheres de diferentes trajetórias. Entre risos, memórias e confissões, a peça lembra que certas amizades sobrevivem justamente porque acolhem mudanças, dores e imperfeições. Uma montagem elegante, sensível e profundamente humana.
Conversamos com Silvia Pfeifer, também produtora da peça:
1 – A peça tangencia sua experiência como modelo?
Eu interpreto uma ex-modelo, que hoje é dona de um buffet. Claro que existe uma proximidade, porque vivi isso na juventude, convivendo muito de perto com outras modelos. Mas essa é apenas uma pequena camada da peça. Ela fala muito mais sobre os questionamentos atuais do universo feminino e sobre mulheres maduras, que já têm uma história para contar. São reflexões sobre realização, frustrações, coisas resolvidas — ou não — entre amigas. É um grande papo entre amigas, costurado pelo afeto.
2 – A peça reúne três mulheres muito diferentes entre si. Foi fácil encontrar harmonia?
O Gustavo Pinheiro já trouxe personagens muito bem delineadas e teve a sensibilidade de incorporar algumas características pessoais nossas, o que ajudou bastante. Mas também tivemos que buscar muitas coisas novas. Não foi algo automático. O Fernando Philbert foi essencial nesse processo, com a sensibilidade dele para encontrar o tom certo do texto, a forma mais verdadeira de dizer aquelas falas. A peça fala muito sobre afeto e amizade, então precisava soar real.
3 – O sucesso em Portugal surpreendeu vocês?
Foi uma surpresa, sim. Sabíamos que os portugueses gostam muito dos atores e textos brasileiros, além da enorme comunidade brasileira que vive lá. Mas era a estreia da peça, então não tínhamos ideia de como o público reagiria. Tivemos sessões extras em duas cidades, teatros grandes lotados… foi realmente emocionante. Acho que a identificação acontece porque falamos sobre temas universais: maternidade, profissão, relações amorosas, amizade, etarismo, envelhecimento. O afeto é universal.
4 – O que é mais importante para a mulher hoje: independência, autoestima ou liberdade de escolha?
Tudo isso está interligado. A independência financeira faz parte da liberdade e fortalece a autoestima, claro. Mas isso não significa que uma mulher sem independência financeira ou emocional seja menor. Historicamente, as mulheres sempre precisaram correr atrás de respeito e reconhecimento. Quando você reconhece suas próprias conquistas, encontra uma tranquilidade interna muito importante. E isso vale também para quem faz escolhas diferentes. O essencial é respeitar o posicionamento do outro sem tantas cobranças. Autoestima é essa tranquilidade de saber quem você é.
5 – A maturidade muda muito a forma de enxergar a vida?
Sem dúvida. A maturidade traz outro olhar sobre o que realmente importa. Passamos a ter mais respeito por nós mesmas e pelos outros. Quando reconhecemos as escolhas que fizemos e a vida que construímos, ganhamos segurança. A expectativa dos outros deixa de pesar tanto. Continuamos tendo desejos, sonhos e vontades — e isso é ótimo, porque nos mantém felizes, produtivas e vivas. Acho que essa visão mais madura faz muita coisa ficar melhor.


