A política da Prefeitura do Rio para os vendedores ambulantes da orla virou alvo de fortes críticas e agora está sob investigação. Em audiência pública realizada nesta terça-feira (5), na Câmara Municipal, trabalhadores denunciaram repressão, violência e abandono, enquanto o Ministério Público anunciou a abertura de inquérito para apurar possíveis práticas “higienistas e elitistas” na gestão do espaço público.
Os relatos expuseram um cenário de tensão permanente nas praias cariocas. Segundo o vereador Leonel de Esquerda (PT), que presidiu o debate, a categoria movimenta mais de R$ 8 bilhões por ano na economia da cidade — mas segue sendo tratada com criminalização. “Mesmo assim, eles são tratados como se fossem marginais”, afirmou. A crítica foi reforçada por parlamentares e lideranças, que apontaram uma política baseada na repressão em vez da organização.
O tom mais grave veio do próprio Ministério Público. Em vídeo exibido na audiência, o procurador Júlio Araújo confirmou a abertura de investigação: “Por causa da gravidade dos problemas, decidimos avançar nas apurações e instaurar um inquérito civil. O caso da orla nos aflige porque a regulação do espaço público é marcada por uma dinâmica higienista e elitista”. A fala elevou o debate e colocou oficialmente a atuação da prefeitura sob suspeita.
Ambulantes relataram episódios de violência e abuso. Vendedora em Copacabana, Elenice Cristina Moreira fez um dos depoimentos mais impactantes: “Muitos são espancados de forma arbitrária. Eu já levei tiro de borracha nas costas. Todos os dias nós estamos batalhando, correndo e apanhando para ter sustento em casa”. Já o líder Israel de Oliveira destacou o perfil dos trabalhadores: “Represento pessoas boas, com caráter, que acordam cedo e vão à orla para garantir o sustento dos filhos”.
Além das denúncias, a categoria criticou a ausência da Prefeitura no debate e a demora na regularização — há ambulantes esperando licença desde 2009. Para o presidente do Sindinformal, Idison José da Silva, o problema é estrutural: “Não tem que ser criminalização. Nós não somos estúpidos. Sabemos o quanto representamos na economia. Não vamos abrir mão da nossa história”. Ao final, ficou o recado político: diante da repressão, a resistência deve continuar. “Para quem insiste em gastar dinheiro com repressão, nós vamos continuar resistindo”, concluiu Leonel.

