eleições 2026 e o desafio das campanhas em áreas dominadas pelo crime organizado

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A prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD), durante as investigações da Polícia Civil sobre a campanha eleitoral de 2024 na Gardênia Azul, escancarou mais uma vez os percalços de fazer política em áreas dominadas pelo crime organizado. Com as eleições de outubro chegando, políticos já suam frio ao pensar em entrar nesses territórios sem esbarrar em facções ou milícias.

Atualmente, mais de 4 milhões de pessoas vivem sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio, sendo 3,4 milhões diretamente controladas. Isso representa 18,1% da área urbanizada e 34,9% da população, segundo a versão mais recente do Mapa Histórico dos Grupos Armados (2024), divulgado pelo Geni/UFF.

Deputado chama territórios de ‘curral eleitoral imposto pelo crime’

O deputado estadual Professor Josemar (PSOL) sente isso na pele. Com base sólida em São Gonçalo — uma das cidades mais afetadas pelo problema no estado —, ele explica os desafios de acessar esses territórios e, em suas palavras, “romper o curral eleitoral imposto pelo crime, que substitui o debate de ideias pelo controle territorial baseado no terror”.

“Nós enfrentamos uma barreira dupla: a ausência do Estado e a presença de grupos criminosos que, muitas vezes, possuem conexões espúrias com setores do poder público. É nossa tarefa denunciar que o crime organizado e a milícia são, na verdade, braços de um projeto político autoritário que quer manter o povo refém”, afirmou o parlamentar, eleito em 2022 com 28.409 votos.

Professor Josemar, que concorreu à prefeitura de São Gonçalo nas eleições de 2024 – Foto: Reprodução/Facebook

‘Ciclo de clientelismo e violência’

Para Josemar, a consequência desse cenário de domínio do tráfico de drogas e das milícias é “o sequestro da soberania popular”. Ele argumenta que, quando um candidato é impedido de entrar em um território, “a democracia morre naquela esquina” e os cidadãos ficam reféns de nomes “chancelados” pelos grupos armados que dominam o local.

“A população dessas áreas acaba privada de conhecer projetos que defendem seus direitos reais, ficando exposta apenas a nomes chancelados pelo domínio local, o que perpetua um ciclo de clientelismo e violência. É um ataque direto à liberdade de escolha”, completou.

Comando Vermelho domina quase 50% da Região Metropolitana

O domínio do crime tem crescido de forma expressiva nos últimos anos. Segundo dados do Geni/UFF, entre 2007 e 2024, a população afetada por grupos armados na Região Metropolitana aumentou 59,4%, enquanto a área total sob influência subiu 130,4% (98,4% de controle direto e 420,1% de influência).

Os principais grupos armados do Rio são as milícias, o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Entre 2007 e 2024, as milícias tiveram o crescimento mais expressivo e atualmente ocupam a maior parte do território quando se soma controle e influência, abrangendo 49,4% da área (201 km²). O CV, por sua vez, lidera em controle consolidado, com 47,5% dos territórios (150 km²).

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Mapa histórico dos grupos armados (2024) – Foto: Geni/UFF
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O problema, contudo, não é próprio da Região Metropolitana. O deputado estadual Sergio Fernandes (PSD) destaca as dificuldades de campanha em sua base eleitoral, Petrópolis, na Região Serrana, que também tem enfrentado questões relacionadas à milícia e ao tráfico de drogas. Segundo ele, o maior desafio hoje no município “é a ausência do Estado”.

“Em muitos territórios, o crime impõe limites, intimida e tenta controlar quem pode circular e fazer campanha. Isso não é normal e não pode ser tolerado. Onde o Estado falha, o crime ocupa — e eu tenho cobrado presença efetiva, não só em operações, mas com políticas públicas permanentes”, afirmou.

Parlamentar aponta falta de ‘direito básico de participação política’

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Sergio Fernandes nas comemorações pelos 183 anos de Petrópolis, em março de 2026 — Foto: Divulgação

Sergio terminou como suplente nas eleições de 2022, mas assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa (Alerj) em 2023, após a licença do então deputado Eduardo Cavaliere (PSD). Para o parlamentar, o cenário atual do crime organizado compromete diretamente a democracia.

“A população fica impedida de ouvir, comparar e escolher livremente. Como parlamentar, eu não aceito que existam áreas onde o direito básico de participação política seja limitado. Segurança pública é garantir liberdade — e educação é o caminho para romper esse ciclo de domínio e silêncio”, finalizou.

Especialista aponta dilemas para as eleições 2026

Para Pablo Nunes, doutor em Ciência Política e coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), esse não é um problema específico das eleições de 2026, mas uma questão histórica do Rio que não tem sido adequadamente enfrentada.

“É uma questão que já é observada nos territórios de favela há muitos anos. E talvez o mais importante seja nos perguntarmos: por que, após tantas gestões e tantas estratégias de segurança pública testadas, esse problema continua existindo? Do ponto de vista mais pragmático, é preciso reconhecer que ele persiste porque alguém sempre ganha com isso”, explica.

‘Há uma máquina e interesses políticos’

Segundo o pesquisador, territórios monopolizados por grupos políticos existem devido a interesses e conexões desses atores com diferentes esferas do poder estadual.

“Então, não é por acaso que o controle de campanhas eleitorais e de determinados territórios continua existindo: há uma máquina e interesses políticos que garantem que esse processo se repita de forma corriqueira a cada ano eleitoral”, completou.

‘Obstáculo fundamental para a essência da democracia’

Nunes enfatiza ainda que, para a democracia, esse é “um dos dramas mais cruciais”, pois impede que candidatos façam suas campanhas livremente e que cidadãos expressem suas escolhas políticas, comprometendo o funcionamento básico do sistema democrático.

“Quando não há, dentro da perspectiva de democracia, a possibilidade de votar e ser votado, e existe controle territorial armado, parte dos políticos não consegue fazer suas campanhas, e cidadãos não conseguem expressar suas vontades políticas. Isso é um obstáculo fundamental para a essência da democracia”, finalizou.

O tema ganhou destaque nas últimas semanas com a prisão de Salvino, em 11 de março. Ele foi acusado pela Polícia Civil de negociar quiosques da Gardênia Azul com traficantes do CV para garantir votos em sua campanha de vereador em 2024. O parlamentar nega todas as acusações e foi solto por falta de provas pelo Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ).





Com informações da fonte
https://temporealrj.com/eleicoes-campanhas-areas-crime-organizado/

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