mistério sobre destino da arma do crime persiste

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Ministro Flávio Dino no julgamento do caso Marielle no Supremo Tribunal Federal (STF) — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo


O destino da submetralhadora HK MP5 utilizada na execução de Marielle Franco continua sendo um dos pontos mais sensíveis do processo. Não se trata de detalhe periférico, mas da arma do crime — elemento material que nunca foi localizado.

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No julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), duas versões voltaram a ser discutidas. A primeira sustenta que a arma teria sido serrada e lançada ao mar da Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, cerca de um ano após o atentado e logo após a prisão de Ronnie Lessa. A segunda, apresentada pelo ex-policial militar em sua delação premiada, afirma que a submetralhadora foi devolvida ao mandante logo após a execução.

As narrativas são distintas e, em tese, inconciliáveis.

Lessa foi condenado em 2021, na operação Submersus, por ocultação e destruição de provas. Esse antecedente naturalmente impõe cautela na análise de suas declarações sobre o destino da arma. Ainda assim, tanto no acordo de colaboração quanto em seu interrogatório ao STF, ele foi categórico ao afirmar que recebeu a HK MP5 de Edmilson da Silva de Oliveira, o Macalé, apontado como elo entre os mandantes e os executores.

Macalé foi assassinado em Bangu, em 2021, e, portanto, não pode confirmar nem refutar essa versão.

Segundo Lessa, a arma veio das mãos de Robson Calixto da Fonseca, o Peixe — ex-assessor de Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ), réu acusado de ser o mandante —, e, após o crime, foi levada até Rio das Pedras, na Zona Sudoeste, para ser devolvida. Ele afirma que permaneceu no carro, enquanto Macalé desceu com a submetralhadora e a entregou ao ex-PM Marcus Vinicius Reis dos Santos, o Fininho.

É nesse trecho da narrativa que surgem questionamentos legítimos.

Se Fininho era o destinatário final da arma, por que não foi formalmente confrontado pela Polícia Federal sobre o paradeiro da HK MP5? Em um processo em que a arma nunca foi apreendida, o esclarecimento dessa etapa dos acontecimentos é relevante.

Outro elemento que chama atenção é que a esposa de Fininho foi nomeada para cargo na Alerj em 2017, e um documento apreendido no gabinete de Domingos continha referência aos nomes dos dois. A existência desse registro, por si só, não comprova irregularidade, mas reforça a necessidade de análise da evidência.

Durante o julgamento, o advogado Marcelo Ferreira, defensor de Rivaldo Barbosa, relembrou que Élcio de Queiroz declarou ter ouvido de Lessa que a arma fora serrada e jogada no mar. Essa versão difere da que tratou da devolução ao suposto mandante.

As divergências não anulam automaticamente o valor da colaboração premiada, que já teve trechos confirmados por outros elementos da investigação. No entanto, quando o objeto central — a arma — permanece desaparecido, a consistência interna da narrativa pode sofrer algum abalo.

Em casos complexos, especialmente aqueles que envolvem organizações criminosas, a palavra de colaboradores é instrumento frequente e, muitas vezes, indispensável. Mas sua força probatória depende de coerência, confirmação externa e lógica narrativa.

No ponto específico da HK MP5, as lacunas permanecem. E, num julgamento de tamanha repercussão, cada brecha na investigação exige exame técnico, não apenas retórica. Não podem restar perguntas no ar.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/blogs/segredos-do-crime/coluna/2026/02/julgamento-do-caso-marielle-misterio-sobre-destino-da-arma-do-crime-persiste.ghtml

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