Janeiro começa com um vigoroso panorama das artes cênicas, reafirmando o teatro como espaço de invenção, diálogo e reflexão sobre o mundo contemporâneo. As estreias do mês desenham um mosaico plural: teatro de grupo, monólogo, comédia, diálogo dramático, clássico revisitado e musical biográfico. Coletivos de Belo Horizonte, artistas de São Paulo e do Rio, jovens criadores e intérpretes consagrados dividem a cena, compondo um retrato vivo da dramaturgia atual — diversa em linguagens, temas e modos de criação.
O dia 8 de janeiro concentra quatro estreias que já funcionam como um prenúncio eloquente de um ano teatral especialmente interessante, evidenciando a riqueza da arte da presença. No CCBB, “Las Choronas”, criação coletiva de importantes grupos de Belo Horizonte, com dramaturgia e direção de Byron O’Neill, transita entre o teatro do absurdo e o surrealismo. A montagem aposta numa construção colaborativa, integrando improvisações, bonecos, música, dança e a presença dramatúrgica da Libras, expandindo as fronteiras entre corpo, linguagem e escuta.

No Teatro Poeira, estreia “Coyote”, do autor escocês Eric Coble, com Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo em cena — que também assinam a direção. A peça dialoga com o realismo fantástico para refletir sobre a solidão urbana e a relação do homem com a natureza, transformando a aparição de um coiote em metáfora poética, entre humor, delicadeza e absurdo.

Também no CCBB, o monólogo “Minha Vó Ri”, de Julia Bernat, com direção de Débora Lamm, utiliza a autoficção e o formato de palestra-performance para costurar memória pessoal, pesquisa histórica e ativismo lésbico. Sozinha em cena, a atriz transforma o palco em espaço de escuta, pertencimento e elaboração política do íntimo, reafirmando a potência do monólogo contemporâneo.

Completa o conjunto do dia 8 a estreia de “Credores”, de August Strindberg, pelo Grupo Tapa, sob direção de Eduardo Tolentino de Araujo. O clássico do final do século XIX retorna ao palco com precisão cirúrgica, expondo jogos de poder, manipulação e conflitos afetivos que atravessam o tempo e permanecem inquietantemente atuais.

Na sequência das estreias do mês, a comédia “Os Figurantes… E Depois?”, em cartaz a partir do dia 9 na Casa de Cultura Laura Alvim, desloca o foco para os bastidores da ficção — e da vida. Com direção de Wendell Bendelack e elenco formado por Bia Guedes, Carol Cezar, Hugo Germano, Rodrigo Fagundes e Tati Infante, o espetáculo usa o humor como lente crítica para falar de invisibilidade, trabalho e desejo de reconhecimento, criando forte identificação com o público.

Em seguida, chega ao Rio “Job”, sucesso recente da Broadway. Dirigida por Fernando Philbert, a peça de Max Wolf Friedlich reúne Bianca Bin e Edson Fieschi em um intenso duelo psicológico que debate ética, saúde mental e os abismos do universo digital contemporâneo, reafirmando a força do teatro de diálogo.

Fechando o panorama, estreia “Fafá de Belém – O Musical”, que utiliza a linguagem do teatro musical para celebrar os 50 anos de carreira de uma das vozes mais emblemáticas da música brasileira. Idealizado e dirigido por Jô Santana, com texto de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche e direção artística de Gasparani, o espetáculo constrói sua narrativa em diferentes planos de tempo e memória. Em cena, Lucinha Lins (atriz convidada) e Helga Nemetik dão corpo às múltiplas fases da artista — da raiz amazônica à consagração nacional e internacional — costurando MPB, identidade cultural, espiritualidade e compromisso ambiental em uma experiência cênica coletiva.
Quatro estreias no dia 8, outras ao longo do mês e uma certeza: o ano começa com um teatro plural, vivo e profundamente presente.


