A vitalidade não envelhece — ela se reinventa. E é exatamente isso que se vê em “Uma Vida em Cores”, espetáculo protagonizado por Rosamaria Murtinho ao lado da neta, Sofia Mendonça. O encontro em cena vai além do laço familiar e vira uma conversa franca sobre tempo, legado e transformação — sem peso, mas com muita presença.
A peça dialoga diretamente com o espírito dos baby boomers — geração nascida entre 1946 e 1964, que não só assistiu, mas ajudou a provocar mudanças profundas no mundo: contracultura, revolução sexual, direitos civis, novos papéis de gênero. Décadas depois, essa turma ainda precisa lidar com um rótulo insistente: o de que envelhecer é sinônimo de desacelerar. Não é bem assim — e o espetáculo deixa isso claro, com elegância.
Nesse contexto, Rosamaria em cena ganha um peso simbólico bonito. Mais de 60 anos depois do sucesso de “A Moça que Veio de Longe”, ela segue trabalhando, curiosa, ativa — e, principalmente, sem qualquer pressa de encerrar o capítulo. Aqui, não é só mais um papel: é quase uma declaração de princípios.
A encenação ganha força ao colocar frente a frente duas gerações. De um lado, experiência, memória e liberdade conquistada; do outro, desejo, urgência e construção de futuro. Sofia vive uma jovem repórter que entrevista uma personagem inspirada na icônica Iris Apfel — figura que, aliás, nunca pediu licença para ser quem era. O que começa como entrevista vira um jogo gostoso de escuta, provocações e cumplicidade.

Simone Mendes entra como a governanta e adiciona uma camada interessante: não é só coadjuvante, funciona quase como um alter ego da protagonista, revelando tensões, pensamentos e afetos. De quebra, a personagem ainda cutuca um imaginário bem brasileiro — o de que certas relações simplesmente “não existem” fora daqui. Existem, sim, só mudam de forma.
A parte visual, assinada por Alex Palmeira, ajuda a contar essa história. Cenário, figurinos e visagismo não estão ali só para enfeitar: traduzem o universo de Iris, cheio de cor, sobreposição e personalidade. Tudo reforça a ideia de que estilo não tem idade — tem atitude.
No fim, “Uma Vida em Cores” fala de tempo, mas sem nostalgia. É sobre continuidade, reinvenção e essa coisa meio teimosa (e ótima) de seguir em movimento.
Entrevista com Rosamaria Murtinho:
1. Como tem sido dividir o palco com a sua neta, Sofia Mendonça?
Está sendo muito gostoso. Tem uma emoção ali que não precisa nem ser construída, já existe. Quando abraço a personagem, acabo abraçando minha neta também — e isso dá uma verdade muito bonita pra cena. E, ao mesmo tempo, tem troca: ela vem com frescor, com outra energia, outro olhar, e isso também me movimenta. Não é só sobre passar algo, é sobre receber também.
2. O espetáculo tem esse tom de comédia dramática — como é trabalhar o humor hoje?
A comédia é muito delicada, né? Tem um tempo certo, uma escuta muito afinada. Não é algo superficial. Aqui, o humor vem das situações, das diferenças entre as personagens, desse encontro. E isso é o mais interessante: fazer rir sem forçar, a partir da verdade. Acho que, com o tempo, a gente aprende a confiar mais no ritmo, no silêncio, no olhar.
3. A personagem é inspirada na Iris Apfel. Como é dar vida a alguém que existiu de verdade?
Eu tenho feito muito isso, personagens que já existiram, então pesquiso bastante. Dá trabalho, mas é uma delícia também, porque são figuras muito ricas. A Iris, por exemplo, tinha uma autenticidade impressionante. Não tinha medo de exagero, se divertia com o que vestia, criava o próprio estilo. O desafio é pegar essa essência — não imitar, mas trazer essa liberdade pra cena.
4. E depois de “Uma Vida em Cores”, o que ainda te dá vontade de fazer no teatro?
Eu quero continuar trabalhando, basicamente isso. Bons textos, boas parcerias, personagens interessantes. Não fico pensando em parar, não. O teatro sempre traz alguma coisa nova, e o que me move é isso: o encontro, a troca, a possibilidade de se reinventar sempre.
Serviço:
Teatro das Artes, no Shopping da Gávea
Sábados e domingos, às 18h


