Polícia espanhola transfere 1,7 mil migrantes de praias para tendas no porto de Ceuta

Tempo de leitura: 6 min
Tendas no novo acampamento de recepção de migrantes Los Rosales, em Ceuta, para onde pessoas foram transferidas após recente crise migratória na região — Foto: Antonio Sempere / AFP


Autoridades espanholas transferiram nesta sexta-feira cerca de 1,7 mil migrantes que estavam instalados precariamente nas praias de Ceuta para tendas temporárias montadas no porto do enclave espanhol no norte da África. Escoltada pela polícia, a operação teve momentos de tensão e aglomerações de pessoas que tentavam garantir uma das vagas disponíveis depois de semanas sobrevivendo principalmente nas praias.

A transferência começou às 6h30, no horário local, e já havia sido concluída pouco depois do meio-dia. Imagens exibidas pela televisão espanhola mostraram corridas e concentrações de migrantes durante a operação, levando policiais a atuar para conter as aglomerações. No início da tarde, todas as vagas disponibilizadas nas duas áreas do porto já estavam ocupadas, segundo uma fonte do governo ouvida pela AFP.

As novas estruturas se somam a outros espaços temporários de acolhimento montados na cidade autônoma, que, juntos, têm capacidade para cerca de 6 mil pessoas. Nas instalações do porto, os migrantes terão acesso a chuveiros, banheiros, alimentação e camas novas, segundo uma fonte da delegação do governo em Ceuta.

— Este é um passo fundamental. Todos sabemos que é importante realojar essas pessoas e que elas não fiquem dormindo nas ruas e nas praias, para que possam ser identificadas e, portanto, para que o processo seja agilizado — afirmou nesta sexta-feira o ministro da Transformação Digital, Óscar López.

Dezenas de milhares de migrantes chegaram a Ceuta no fim de julho, em uma entrada em massa de quase 70 mil pessoas procedentes do Marrocos. Embora a maioria tenha retornado ao território marroquino, milhares permaneceram em situação precária no enclave espanhol, que tem 18,5 km² e uma população de cerca de 80 mil habitantes.

  • Contexto: Imigração ganha força dentro da África enquanto cai para Europa, mas com letalidade maior

Ainda não se sabe quantas pessoas estavam vivendo nas praias de Ceuta, mas as autoridades estimam que o número seja muito superior às 1,7 mil vagas oferecidas nas novas estruturas do porto. Autoridades locais calculam que cerca de 13 mil migrantes ainda permaneçam no enclave, embora o governo central trabalhe com uma estimativa menor.

A transferência ocorreu horas depois de um tribunal rejeitar o pedido de um sindicato policial para suspender o deslocamento dos migrantes para as tendas instaladas no porto. A operação ocorre em meio a uma disputa entre o governo central e a administração local sobre o uso da área portuária para receber parte das pessoas que permanecem em Ceuta.

Diante da recusa da autoridade portuária de Ceuta, o governo do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez decidiu retirar da administração local o controle da instalação. Ceuta é governada pelo Partido Popular (PP), de oposição, enquanto Sánchez tem sido alvo de críticas da direita e da extrema direita pela condução da crise migratória.

  • Entenda: Disputa com Espanha e Argélia motiva suspeitas sobre papel do Marrocos em crise migratória para Ceuta

O líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, criticou nesta sexta-feira as cenas registradas durante a transferência. Em declaração feita em Melilla, outro enclave espanhol no norte da África, ele afirmou que as forças de segurança estavam “sobrecarregadas” e disse que não tinham recursos nem ordens suficientes para atuar.

— É imperdoável continuar vendo as imagens que vimos nesta manhã, com as corridas, com os distúrbios, com as forças e os corpos de segurança do Estado (…) sobrecarregados, porque não têm nem recursos nem ordens para agir — afirmou Feijóo. — Cinquenta dias depois, o descontrole de Ceuta como cidade invadida é total.

Multidão de migrantes provoca tumulto e correria por vagas no porto de Ceuta

O líder do partido de extrema direita Vox, Santiago Abascal, também reagiu à operação. Em publicação no X ao lado de um vídeo que mostrava pessoas correndo, supostamente durante a transferência, ele escreveu: “É assim que deveriam ir embora. Correndo. E o quanto antes”.

Desde o início da crise, Ceuta registrou diferentes momentos de tensão e protestos recorrentes de moradores, que reivindicam o retorno à normalidade. As novas instalações no porto devem receber parte dos migrantes que continuam na cidade e aliviar a pressão sobre áreas onde milhares de pessoas passaram a permanecer após a chegada em massa.

O governo central também busca acelerar a devolução dos migrantes, mas a legislação exige que cada pessoa seja identificada para que as autoridades determinem se ela tem direito a solicitar asilo ou se pode ser devolvida. Ao mesmo tempo, milhares de menores de idade que chegaram ao território devem receber proteção especial.

Além da gestão da crise humanitária, o governo Sánchez enfrenta questionamentos sobre o que sabia antes da entrada em massa de migrantes e sobre o papel desempenhado pelo Marrocos no episódio. Espanha e Marrocos tentam há anos melhorar suas relações, enquanto Ceuta, território espanhol localizado na costa norte-africana e na fronteira com o país, permanece no centro da crise.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/09/18/policia-espanhola-transfere-17-mil-migrantes-de-praias-para-tendas-no-porto-de-ceuta.ghtml

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *