Uma operação policial deflagrada na semana passada em São Paulo expôs mais uma vez o grau assustador de infiltração do crime organizado no Estado. A ação prendeu um chefe de investigação da Polícia Civil em Campinas (SP), Maurício Aparecido de Oliveira, um ex-estagiário do Ministério Público paulista, Gabriel Lira de Jesus, e um ex-policial civil, cujo nome não foi divulgado.
As prisões são desdobramentos de duas operações. A Pronta Resposta, de agosto do ano passado, investigava planos do PCC para matar o promotor Amauri Silveira Filho, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público estadual. A Off White, de outubro, teve como objetivo acabar com um esquema de lavagem de dinheiro operado por dois traficantes vinculados ao PCC. Quando as operações ocorreram, Oliveira ocupava a chefia da Delegacia de Investigações de Entorpecentes (Dise) de Campinas, e Lira de Jesus trabalhava numa promotoria criminal da cidade, atuando em conluio com o ex-policial civil.
As investigações flagraram um encontro entre Oliveira e José Ricardo Ramos, acusado de ser o responsável pela execução do plano para matar o promotor, frustrado pelas autoridades. Identificado como empresário, Ramos ocupava posição-chave na estrutura financeira do PCC. O Gaeco ainda apura os assuntos tratados na conversa. Quer saber se, além do plano de assassinato, o encontro serviu para dar sequência a uma tentativa de extorsão implicando Jesus, acusado de ter usado seu acesso a inquéritos policiais para identificar criminosos do PCC de grande poder econômico para chantageá-los. Cobrava propina em troca da promessa de não encaminhar denúncias ao Gaeco. Um traficante do PCC preso no ano passado denunciou a extorsão (R$ 500 mil em troca da proteção).
Jesus, segundo a investigação, contava com a ajuda de agentes corruptos para obter acesso a sistemas restritos. Um deles era o ex-policial civil também preso, que havia sido expulso da corporação, acusado de sequestro e pedido de resgate. De acordo com o Gaeco, foi ele quem intermediou o encontro entre Oliveira e o representante do PCC. As investigações identificaram um policial penal que também ajudou Jesus na consulta a bancos de dados para escolher seus alvos. As extorsões eram praticadas por meio da infraestrutura de um escritório de advocacia.
Diante da fragilidade das barreiras de proteção dos órgãos de segurança contra a infiltração de criminosos, o Estado tem de atuar em várias frentes. A mais óbvia é ser mais rígido na escolha de seus servidores, para evitar o oportunismo dos corruptos. Enquanto combate o crime organizado usando ferramentas de inteligência financeira, também precisa se resguardar para impedir que agentes do crime atuem nas polícias, nos MPs e na Justiça, como infelizmente tem ocorrido com frequência assustadora. A contaminação de instituições de segurança pública pela criminalidade saiu do campo do risco e das probabilidades e se tornou uma realidade aterradora.

