Quando iniciamos uma cerimônia dedicada aos Orixás, fazemos nossas reverências e saudações de axé.
E será o axé, essa maravilhosa força ancestral, que abrirá, através das matriarcas do Candomblé no Rio, a 16ª edição da Flup, Festa Literária das Periferias, que será realizada de 23 a 27 de setembro, no Teatro Carlos Gomes e na Praça Tiradentes, no Centro do Rio. Com entrada gratuita, a programação deste ano traz o tema: ‘As Filhas das Filhas das Filhas’. Um princípio que há séculos atravessa os Terreiros, a força e a sabedoria das mulheres na preservação da memória, da fé, da cultura e da religiosidade negra.
Em uma iniciativa que aproxima literatura, ancestralidade e religiosidade, antes de cada uma das mesas da Flup, uma Ìyálórìṣà (Yalorixá) subirá ao palco saudando o público e os convidados. Serão cerca de dez minutos de abertura conduzidos por mulheres de axé, que carregam em suas palavras histórias de resistência e conhecimentos transmitidos de geração em geração.
É a presença da ancestralidade ocupando um espaço de conhecimento.
“A Flup nunca separou o que se pensa na universidade do que se sabe no Terreiro. Ter sacerdotisas abrindo as mesas é dizer que a bênção de uma rezadeira e a fala de uma pesquisadora cabem no mesmo debate”, explica Julio Ludemir, diretor da Flup.
A escolha dialoga diretamente com esse tema; “As filhas das filhas das filhas”, que é inspirado na linhagem de mulheres negras retratada no livro ‘Um Defeito de Cor’, de Ana Maria Gonçalves, homenageada desta edição e primeira mulher preta eleita para a Academia Brasileira de Letras.
E não poderia haver imagem mais simbólica para uma Festa Literária que celebra a palavra. Mulheres que aprenderam com suas mães, que receberam de suas mais velhas os fundamentos de sua tradição e que, agora, continuam transmitindo saberes para as novas gerações.
Entre as sacerdotisas convidadas estão Mãe Meninazinha de Oxum, Mametu Mabeji, Doné Conceição de Lissá, Mãe Helena de Dan, Mãe Seci Caxi, Mãe Torodi, Mãe Jurema, Mãe Marli de Xangô e Ya Tebexé.
É importante compreender que, no Candomblé, a mulher ocupa um lugar fundamental. São elas que, ao longo dos séculos, ajudaram a manter vivos os ensinamentos dos Orixás, Voduns, Nkises e ancestrais, mesmo diante de perseguições, preconceitos e tentativas de silenciamento.
A programação reúne grandes nomes da literatura e da cultura brasileira. Ana Maria Gonçalves participa da primeira noite ao lado de Djamila Ribeiro. Também estarão presentes Conceição Evaristo, Adélia Sampaio, Cida Bento, Kabengele Munanga, Nei Lopes, Grace Passô, Linn da Quebrada, Jeferson Tenório e a escritora senegalesa Ken Bugul.
Já na Praça Tiradentes, os trabalhos serão abertos pela sambista Tia Nicinha, guardiã do jongo. Durante cinco dias, a Praça receberá mesas literárias, performances, rodas de conversa, batalhas de rima e de esquetes, lançamentos de livros, slams, afoxés, bênçãos das mais velhas, campeonatos de passinho e altinha, vivências brincantes, feira de baianas e muito samba.
E no sábado, 26 de setembro, a música encerra a noite em grande estilo, com Gilberto Gil e a rapper Duquesa.
Para nós que reverenciamos a nossa ancestralidade, a Flup, neste ano, nos oferece uma bela oportunidade de compreender que literatura, música, pensamento, memória e religiosidade não são caminhos separados. São diferentes formas de contar a nossa história.
E quando uma Yalorixá sobe ao palco saudando os Orixás antes de a palavra começar, estamos diante de uma das maiores lições da ancestralidade africana. Antes de falar, é preciso reverenciar quem veio antes de nós.
Porque onde existe uma mulher, existe a força da vida. E onde existe uma mulher de Terreiro, existe memória, ancestralidade, resistência e axé.
Láàyè agbára Obìnrin! (Viva a força da mulher!)
Axé para todos!
Serviço:
Flup 2026, de 23 a 27 de setembro, no Teatro Carlos Gomes e Praça Tiradentes
Programação de abertura:
14h — Lançamento do livro infantil A Cara do Meu Pai, com presença das autoras e contação de histórias.
17h — Lavagem das escadarias do Teatro Carlos Gomes com Yalorixá Renata de Obá, baianas e ogãs do Ilê Asé Abatodê.
18h — Apresentação da OSB Jovem na Janela.
18h30 — Batalha de Quebradeiros, com Genesis, Edson Santana e Pedro José.
19h — Momento institucional Flup / Shell / Ford / Secretaria Municipal de Cultura + Quebradeiros.
19h15 — Homenagem a Helô com Bruna Mitrano e Chacal.
19h30 — Lançamento do livro Um Rio de Resistências: Dicionário Biográfico – Histórias Entrelaçadas de Mulheres Amefricanas do Rio.
19h30 — Lançamento dos livros Mora na Filosofia e Lata d’Água na Cabeça (EJA).
20h30 — Pagode da Gigi + mesas de autógrafos de Um Rio de Resistências e Mora na Filosofia.
Fonte e outras informações: www.vempraflup.com.br
Com informações da fonte
https://extra.globo.com/blogs/pai-paulo-de-oxala/post/2026/09/matriarcado-do-candomble-gilberto-gil-e-a-rapper-duquesa-marcam-presenca-na-16a-edicao-da-flup.ghtml
Matriarcado do Candomblé, Gilberto Gil e a rapper Duquesa marcam presença na 16ª edição da Flup
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