Maricá e Rio de Janeiro – Em meio ao crescimento urbano de Maricá, um canal que corta o loteamento Manu Manuela, em São José do Imbassaí, continua servindo de abrigo para uma das espécies mais características das áreas úmidas do estado do Rio de Janeiro. Dois jacarés-de-papo-amarelo foram flagrados pelo Maricá Info neste domingo (23), descansando às margens do canal, cercados por vegetação aquática.
As imagens mostram os animais fora da água, em uma área tomada por aguapés e vegetação nas margens. A presença dos jacarés no local, no entanto, não é novidade. Há anos moradores registram exemplares utilizando o canal, indicando que a área funciona, na prática, como um refúgio para a fauna silvestre em plena região urbana.
O termo “refúgio”, neste caso, não representa uma classificação oficial de unidade de conservação, mas descreve a utilização recorrente do ambiente pelos animais.
Jacarés são registrados no local há anos
O Maricá Info acompanha a presença de jacarés no Manu Manuela pelo menos desde 2020. Naquele ano, um animal com aproximadamente um metro foi fotografado no canal. O curso d’água corta o loteamento e possui ligação com a região da Lagoa Brava.
Em julho de 2021, moradores voltaram a registrar jacarés no local. Na ocasião, três animais foram vistos nas margens, e agentes ambientais chegaram a ser acionados.
No ano seguinte, um novo flagrante ganhou destaque. Em 2022, a então Secretaria de Cidade Sustentável informou que o animal observado no canal era um jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris). Naquele período, também foi anunciada uma ação de conscientização voltada aos moradores do entorno, com previsão de instalação de placas sobre os cuidados necessários com a biodiversidade.
Em março de 2023, o Maricá Info mostrou outro problema: jacarés convivendo com lixo lançado no canal. Depois da reportagem, equipes municipais realizaram serviços de limpeza e dragagem na região.
Já em janeiro de 2025, a proximidade entre a fauna silvestre e as residências ficou ainda mais evidente. Um jacaré foi encontrado dentro da garagem de uma casa do Manu Manuela e precisou ser resgatado pelo Corpo de Bombeiros.

A sequência de registros ao longo dos anos reforça que os animais não estão apenas passando ocasionalmente pelo bairro. O sistema de canais e áreas alagadas da região oferece condições para a presença recorrente da espécie.
Quem é o jacaré-de-papo-amarelo?
O jacaré-de-papo-amarelo é uma espécie nativa, de nome científico Caiman latirostris. Pode ser encontrado em diferentes ambientes aquáticos, como lagoas, brejos, manguezais, rios e outras áreas alagáveis, inclusive em ambientes modificados pela presença humana.
Segundo avaliação publicada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mais de 70% da distribuição mundial da espécie está no Brasil. O animal ocorre em diferentes regiões do país e apresenta capacidade de ocupar inclusive ambientes antropizados.
Apesar de publicações antigas terem tratado o jacaré-de-papo-amarelo como ameaçado de extinção, a avaliação nacional disponível classifica atualmente a espécie na categoria Menos Preocupante (LC). Isso, porém, não significa que seus habitats possam ser degradados. O próprio levantamento do ICMBio alerta para impactos de pressões humanas sobre as populações e sobre a conectividade entre os ambientes onde esses animais vivem.
No estado do Rio de Janeiro, a espécie está diretamente associada aos ambientes lagunares e áreas úmidas costeiras. A preservação desses espaços é importante não apenas para os jacarés, mas para todo um conjunto de aves, peixes, répteis e outros animais que dependem da água e da vegetação das margens.
Canal também abriga outras espécies
Durante o registro feito neste domingo, o Maricá Info também fotografou no mesmo canal um frango-d’água-azul (Porphyrio martinica), ave de plumagem azul, verde e arroxeada que vive justamente em brejos, lagoas e locais com vegetação aquática.
A presença de diferentes espécies em um espaço cercado pela urbanização evidencia a importância ambiental dos canais, lagoas e áreas úmidas que ainda permanecem em Maricá.
O Manu Manuela já recebeu, inclusive, ações de recuperação ambiental. Em 2015, mais de 2,2 mil mudas de espécies da Mata Atlântica foram plantadas em uma área de aproximadamente 7,5 mil metros quadrados próxima ao loteamento, com o objetivo de recuperar uma Área de Preservação Permanente e recompor a vegetação das margens.
Preservar também significa saber conviver
A ocorrência de jacarés tão próxima das residências exige cuidados tanto para proteger os animais quanto para evitar situações de risco para os moradores.
Uma das principais orientações é não alimentar os jacarés. A oferta de comida pode alterar o comportamento natural dos animais, fazê-los associar a presença humana à alimentação e aumentar as chances de aproximação de áreas residenciais. Campanhas ambientais realizadas no Rio de Janeiro também alertam que alimentar animais silvestres pode provocar desequilíbrio e estimular sua saída do ambiente natural.
Também não se deve tentar tocar, capturar, espantar ou provocar os animais. Crianças e animais domésticos devem ser mantidos afastados das margens quando houver jacarés no local.
A preservação passa ainda pela destinação correta do lixo, manutenção da vegetação das margens, proteção dos cursos d’água e realização de serviços de limpeza e drenagem de maneira compatível com a presença da fauna.
Em uma cidade que cresce rapidamente, registros como os feitos no Manu Manuela mostram que desenvolvimento urbano e biodiversidade estão cada vez mais próximos. Preservar esses ambientes e orientar a população sobre como conviver com a fauna silvestre pode ser decisivo para que animais como o jacaré-de-papo-amarelo continuem encontrando espaço em Maricá sem que isso represente risco para eles ou para os moradores.
