É preciso reconhecer o valor da iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública de reunir-se com órgãos estaduais para começar a traçar estratégias integradas de combate ao crime organizado, a partir do recém-criado Escritório Nacional Antifacção (ENA), já presente em São Paulo e no Rio.
É conhecida a resistência dos governadores e das autoridades estaduais a compartilhar poder e aceitar a coordenação do governo federal na segurança pública, haja vista a resistência das bancadas estaduais no Congresso em aprovar a PEC da Segurança Pública, que implementa tais mecanismos. Mas não existe alternativa se o objetivo é derrotar as máfias que se infiltram mais e mais na economia formal e no mundo político.
Um exemplo dos frutos dessa cooperação já pode ser visto nos resultados obtidos no setor de combustíveis, atividade que, graças às grandes somas de dinheiro vivo que movimenta, se tornou atraente para organizações criminosas em busca de negócios para lavar dinheiro do tráfico ou de outras fontes ilegais. Levantamento do GLOBO constatou que, em apenas dez meses, nove operações policiais investigaram a movimentação suspeita de R$ 40 bilhões por redes de combustível no estado do Rio de Janeiro.
As investigações, realizadas pela Polícia Civil, pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público (MP), desbarataram esquemas de que participam facções, milícias, bicheiros e agentes públicos para legalizar os recursos provenientes da corrupção e de negócios ilícitos. A Operação Unha e Carne, da PF, investigou mais de 80 postos na Região Metropolitana carioca, incluindo Niterói e São Gonçalo, suspeitos de ser usados para lavagem. Ela transcorre sob supervisão do Supremo Tribunal Federal por envolver suspeitos com foro privilegiado.
A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto do ano passado pelo Ministério Público de São Paulo e pelas polícias Civil e Militar, com a participação de vários outros estados, desvendou como o Primeiro Comando da Capital (PCC) operava desde usinas de açúcar e álcool do interior paulista até uma extensa rede interestadual de postos, incluindo a importação fraudada de metanol para adulterar combustível, com conexões a fintechs da Faria Lima para lavar o dinheiro obtido.
Em novembro, o MP do Piauí lançou a Carbono Oculto 86 (DDD do estado), que denunciou 12 acusados por fraudes no abastecimento, adulteração, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. A operação atingiu 11 municípios piauienses, quatro do Maranhão e um do Tocantins. Para lavar o dinheiro, os criminosos usavam a mesma rede de fundos de investimento e fintechs que operava para o PCC — embora não tenha ficado comprovada a conexão com a facção paulista.
O crime organizado ainda parece vários passos à frente do poder público na integração nacional. Por isso é fundamental aprofundar as investigações sobre suas conexões financeiras. Há, para as autoridades, um grande filão a explorar. No cenário otimista, na esteira do resultado dessas operações, o Estado continuará a se integrar para combater um crime ainda bem mais organizado do que ele.
