Funcionário da Fazenda Garcia disse à polícia que ‘membros’ da família de bicheiro estiveram no local um dia antes do furto do petróleo

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Cena da PM realizando cerco durante o furto na fazenda da família Garcia — Foto: Reprodução/PM


Durante esta quinta-feira, agentes da Polícia Civil e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaeco) estiveram nas ruas para prender 13 pessoas envolvidas em uma quadrilha especializada em furto de petróleo. A investigação teve início após o flagrante de um furto em junho de 2024, na Fazenda Garcia, espólio do falecido contraventor Waldemir Paes Garcia. Apesar de as investigações não terem encontrado evidências de que Shanna Garcia ou Tamara Garcia, filhas do bicheiro, tenham envolvimento com os crimes, um funcionário do local relatou à polícia que pessoas identificadas como membros da família estiveram na fazenda um dia antes do furto.

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Em depoimento à polícia, o funcionário contou que foi contratado para trabalhar na fazenda por Antonio Silva Duarte, que era arrendatário do local. Segundo ele, no dia 15 de junho de 2024, dois veículos — um VW Amarok, de cor preta, e uma Nissan Frontier, de cor prata — entraram na propriedade e se identificaram como “membros da família proprietária da fazenda”. De acordo com o funcionário, essas pessoas pediram que ele não registrasse os nomes nem as placas dos veículos. A informação consta na denúncia apresentada pelo Gaeco.

Ainda segundo o funcionário, ele avisou ao chefe sobre o ocorrido, e Duarte o aconselhou a “não se meter com isso” e a autorizar a entrada dos carros.

De acordo com a denúncia do Gaeco, a atitude demonstra que Duarte tinha “ciência prévia e consentimento quanto à movimentação irregular no interior da propriedade, circunstância que contribuiu diretamente para a consumação da atividade criminosa”.

Em depoimento, Duarte afirmou que fez o contrato de arrendamento com Tamara, filha de Maninho, com a condição de manter a propriedade em condições produtivas e em bom estado de conservação pelo prazo de dez anos. O contrato foi firmado em 2020.

Ele também disse que “jamais foi previamente informado sobre visitas de membros da família Garcia ou de seus prepostos para fins de fiscalização da propriedade”, mas confirmou a ligação do funcionário no dia anterior ao furto. Aos policiais, afirmou que foi informado sobre os indivíduos que se identificaram como pertencentes à família Garcia e contou que “autorizou a entrada dos referidos indivíduos, sob o argumento de que, sendo da família proprietária, não haveria motivo para impedir o acesso”.

Fazenda Garcia – Placa da Transpetro indica presença do duto em Guapimirim — Foto: Fabiano Rocha

Apesar de ser um dos denunciados, a polícia descobriu que Duarte já estava morto e não responderá ao processo. Ele morreu em abril do ano passado. A policia também não conseguiu evidências de que membros da família Garcia estiveram no local naquele dia ou que tinham qualquer relação com o esquema. Shanna e Tamara não foram denunciadas e não foram são alvos da operação.

De acordo com a Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), a quadrilha faziaperfurações clandestinas em dutos operados pela Transpetro e causou um prejuízo estimado em mais de R$ 5,8 milhões. Além dos mandados de prisão, a ação também visa cumprir 16 mandados de busca e apreensão, realizados de forma simultânea em outros sete estados, para a apreensão de provas materiais e documentais.

Sete pessoas já foram presas. São elas: Elton Félix de Oliveira, Patrick Teixeira Vidal, Washington Tavares de Oliveira, Leandro Ferreira de Oliveira, Jairo Lopes Claro, Caio Victor Soares Diniz Ferreira — que já estava preso por outro mandado — e Davison Luiz Senhorini.

A operação acontece de forma simultânea nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Maranhão, Sergipe e Rio de Janeiro. A investigação da DDSD revelou que o grupo criminoso funcionava com divisão de tarefas, hierarquia operacional bem definida e articulação logística interestadual. O objetivo da estrutura da quadrilha era realizar, de forma sistemática e reiterada, furtos qualificados de petróleo, mediante perfuração indevida de dutos subterrâneos em plena operação.

Os criminosos utilizavam meios técnicos sofisticados, além de vigilância e escolta armada. Também contratavam empresas para o transporte do produto furtado e atuavam para dissimular a origem ilícita do material, por meio da falsificação ideológica de documentos fiscais, rotulando o petróleo bruto como suposto “resíduo oleoso”.

O delegado titular da DDSD, Pedro Brasil, pontua que o crime de derivação clandestina vai além do prejuízo financeiro.

— É um crime que põe em risco a segurança energética do país, a integridade física e a vida de pessoas que habitam o entorno dos dutos e, além disso, gera um grave risco de poluição ambiental. Uma vez que haja um vazamento desse produto, ele pode contaminar os leitos dos rios que passam por perto. Portanto, é muito mais do que um prejuízo financeiro a uma empresa. Trata-se de um crime que pode trazer graves danos à sociedade.

O delegado também pontua que a destinação do produto furtado, em geral, são empresas que atuam na produção de petróleo, óleo, plástico, fertilizantes e borracha.

— São empresas que já exercem essa receptação do produto e que são conluiadas com essas organizações criminosas. Nesse caso, quando o material era subtraído do duto da Transpetro, eles emitiam notas fiscais falsas de produtos oleosos para que, se fossem parados na estrada, houvesse a aparência de produto lícito.

Fazenda de família da contravenção

A investigação da Polícia Civil identificou que o núcleo operacional da extração clandestina de petróleo funcionava no interior da Fazenda Garcia, localizada no município de Guapimirim. Segundo a DDSD, o local pertence a uma família de contraventores amplamente conhecida, a família Garcia, que ganhou notoriedade após ter sua história retratada no documentário “Vale o Escrito”. Filha do bicheiro Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, Shanna Garcia também ganhou projeção após participar do documentário exibido no Globoplay.

De acordo com a polícia, a escolha da fazenda não foi aleatória e teve como objetivo dificultar a fiscalização, controlar o acesso de terceiros e garantir a continuidade da subtração ilícita em larga escala, protegendo a atividade criminosa. Apesar disso, a Polícia Civil informou que não encontrou nenhuma evidência de envolvimento de Shanna Garcia ou Tamara Garcia com o esquema.

A fazenda está arrendada e o atual proprietário é um dos alvos da operação.

Operação ‘Haras do Crime’

A investigação que culminou na operação começou em 2024, quando, na madrugada de 16 de junho, a polícia recebeu uma denúncia de furto de petróleo em um imóvel rural conhecido como Fazenda Garcia, espólio do falecido contraventor Waldemir Paes Garcia. Eles foram ao local para verificar a informação de que um grupo com cerca de 15 pessoas armadas estaria furtando petróleo do duto que passa no interior da propriedade.

Cenas do furto na fazenda da família Garcia — Foto: Reprodução/PM
Cenas do furto na fazenda da família Garcia — Foto: Reprodução/PM

O oleoduto conecta o Terminal de Cabiúnas, em Macaé (RJ), ao Terminal de Campos Elíseos, em Duque de Caxias (RJ) – Osduc. Ele tem 182 km de extensão e faz o transporte do petróleo produzido pela Petrobras na Bacia de Campos até a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc).

No local, os policiais encontraram cinco caminhões-tanque, sendo três deles já completamente carregados. Cada veículo transportava cerca de 41 mil litros de petróleo bruto, totalizando aproximadamente 123 mil litros de produto furtado. À época, uma equipe técnica da Transpetro confirmou a existência de uma derivação clandestina instalada diretamente em um dos dutos que passavam pelo local.

Além dos caminhões, foram apreendidos instrumentos utilizados na perfuração e na transferência do petróleo, como mangueiras, bombonas, cavadeiras e registros clandestinos.

A partir desse caso, a DDSD apurou que o furto não se tratava de um fato isolado, mas da atuação de uma organização criminosa interestadual, com ações no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais.

O grupo funcionava em cinco núcleos operacionais:

  1. Núcleo de Liderança: responsável pela coordenação geral da empreitada criminosa, pelo planejamento das derivações clandestinas, definição de rotas, contratação de transporte, articulação comercial e comando das ações.
  2. Núcleo Empresarial e Logístico: encarregado do fornecimento da estrutura empresarial, caminhões-tanque, contas bancárias e documentos fiscais utilizados para dar aparência de legalidade ao transporte do petróleo furtado.
  3. Núcleo dos Motoristas: responsável pela execução material do transporte do petróleo subtraído, com a condução de caminhões-tanque em comboios, seguindo ordens centralizadas, operando sob escolta armada e realizando viagens interestaduais para o escoamento do produto.
  4. Núcleo de Segurança Armada: responsável pela proteção da operação criminosa, controle de acesso ao imóvel rural, vigilância do ponto de derivação clandestina, escolta dos caminhões e intimidação de terceiros, inclusive equipes de fiscalização da Transpetro.
  5. Núcleo de Facilitação: segundo a investigação, o responsável por esse núcleo, na condição de arrendatário da Fazenda Garcia, teria permitido e facilitado o acesso da organização criminosa ao imóvel. Ele teria autorizado a entrada de pessoas e veículos sem controle, apesar de ter conhecimento da existência do duto e das fiscalizações periódicas realizadas pela Transpetro, viabilizando a instalação da derivação clandestina.

De acordo com a DDSD, o esquema criminoso funcionava em quatro etapas. A primeira consistia na perfuração clandestina do duto, que, após ser violado, permanecia sob proteção armada para evitar a descoberta. Em seguida, ocorria o carregamento rápido do petróleo em caminhões-tanque previamente posicionados. A terceira etapa envolvia o transporte clandestino do produto, feito por rotas interestaduais previamente definidas. A fase final consistia na comercialização do petróleo furtado, realizada mediante a emissão de notas fiscais falsas por empresas usadas como fachada. Segundo a DDSD, esse procedimento conferia aparência de licitude a um produto de origem manifestamente criminosa.

Para os investigadores, a complexidade do esquema evidencia um modelo criminoso “consolidado, permanente e altamente profissionalizado”.

Segundo o Ministério Público, as investigações apontam pelo menos 15 empresas localizadas em diversos estados “que compunham a engrenagem do esquema criminoso, especialmente no contexto da lavagem de dinheiro obtido com o furto de petróleo, sendo utilizadas para a receptação do produto, o transporte e a emissão de notas fiscais fraudulentas”.

Segundo o delegado Pedro Brasil, esse tipo de crime não é cometido por qualquer pessoa, pois é uma prática que demanda especialização.

— Não é um crime para aventureiros. A pessoa precisa conhecer muito a técnica para fazer a extração do duto. Houve épocas em que havia 30 ou 40 perfurações simultâneas no Rio, e hoje não é mais assim. Essa organização, apesar de ter atuado em 2024 na cidade, atua muito em São Paulo, onde esse problema de perfurações tem sido muito grave e tem trazido muitas dores de cabeça e prejuízos para a Transpetro. Acreditamos que, com essa ação interestadual, será possível reduzir esse tipo de crime também em São Paulo e em outros estados onde isso ocorre, como Bahia e Minas Gerais.

Na casa de um dos presos, a polícia encontrou armas, munição e vários cordões e relógios. O material foi apreendido na residência de Patrick Teixeira Vidal, que, segundo as investigações, integrava o núcleo de segurança armada da quadrilha.

Operação contra furto de petróleo: armas apreendidas na casa Patrick Teixeira Vidal, que, segundo as investigações, integrava o núcleo de segurança armada da quadrilha. — Foto: Reprodução/Polícia Civil
Operação contra furto de petróleo: armas apreendidas na casa Patrick Teixeira Vidal, que, segundo as investigações, integrava o núcleo de segurança armada da quadrilha. — Foto: Reprodução/Polícia Civil

Alvo é investigado desde 2017

Um dos alvos da operação desta quinta-feira é Mauro Pereira Gabry, de 37 anos. Ele é investigado por crimes desse tipo desde 2017 e já foi preso duas vezes. Além dele, Elton Félix de Oliveira e Davison Luiz Senhorini também são alvos da operação e foram apontados, assim como Gabry, como lideranças em esquemas de furto de petróleo.

De acordo com a DDSD, além dos furtos, o grupo praticava outros crimes, como tentativas de intimidação de testemunhas, destruição de provas eletrônicas e ocultação de veículos e equipamentos utilizados nas ações criminosas.

Não foi a primeira vez que Mauro Pereira Gabry apareceu em uma investigação relacionada à contravenção. No ano passado, ele foi alvo de outra operação da DDSD sobre furto de petróleo, na qual Vinícius Drumond foi apontado como financiador do esquema.

As investigações apontam Vinícius Drumond, filho do contraventor Luizinho Drumond — com um histórico marcado por envolvimento com o jogo do bicho, agiotagem, lavagem de dinheiro e corrupção — como o “cérebro” da quadrilha. Herdeiro de uma das mais antigas redes de contravenção do Rio de Janeiro, Vinícius, de acordo com a polícia, ascendeu rapidamente no mundo do crime organizado, expandindo seus negócios ilícitos para além do jogo do bicho.

Na operação desta quinta-feira, no entanto, não foi encontrado nenhum indício de participação de Drumond. Segundo o delegado Pedro Brasil, não há apenas uma quadrilha que pratica esse tipo de roubo no estado, e Gabry já tem uma longa trajetória nesse tipo de prática ilícita, o que faz com que ele atue com diferentes grupos criminosos no Rio e fora dele.

Gabry tem dois mandados de prisão em aberto e segue foragido. A polícia suspeita que ele tenha fugido para o Paraguai.

Em nota, a Transpetro afirmou que o número de derivações clandestinas caiu de 7, em 2024, para apenas uma, em 2025. A companhia ainda afirmou que “a Transpetro é vítima do crime de furto de petróleo e derivados em dutos e tem como maior preocupação a preservação da vida e a segurança das pessoas e do meio ambiente”.

Para reduzir a ocorrência dessa prática criminosa nos dutos que opera, a companhia adota uma estratégia focada em três ações.

A utilização de uma tecnologia de ponta realizada pelo Centro Nacional de Controle e Logística (CNCL) da Transpetro, que permite a rápida localização de derivações clandestinas; o trabalho de relacionamento comunitário focado na conscientização das pessoas que vivem no entorno dos ativos, o qual inclui a divulgação do número 168, um canal de comunicação direta entre a Transpetro e a população; além dos convênios com órgãos de segurança pública.

Nesse último ponto, a Transpetro mantém parcerias com órgãos de segurança pública, Ministérios Públicos e órgãos reguladores, atuando no apoio a investigações e operações, na sensibilização de autoridades sobre a gravidade do crime e suas consequências, e na participação como assistente de acusação em processos penais envolvendo esse tipo de delito.

O transporte de combustíveis por dutos é seguro e eficiente, mas intervenções criminosas podem trazer riscos à comunidade. A companhia disponibiliza o telefone 168, um canal gratuito que funciona 24 horas por dia, nos sete dias da semana, para receber denúncias sobre movimentação suspeita nas faixas de dutos, com sigilo garantido.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/01/23/funcionario-da-fazenda-garcia-disse-a-policia-que-membros-da-familia-de-bicheiro-estiveram-no-local-um-dia-antes-do-furto-do-petroleo.ghtml

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