Dor no pescoço nem sempre vem do travesseiro: o que a ciência diz sobre estresse e tensão cervical

Tempo de leitura: 7 min


O fisioterapeuta Prof. João Douglas Gil explica o que a ciência aponta sobre dor cervical, estresse e respiração – e por que sua rotina pode estar por trás do “pescoço travado”


Quantas vezes você já ouviu alguém dizer: “acordei com o pescoço travado porque dormi de mal jeito”? Essa explicação parece lógica. Mas a ciência moderna da dor mostra que essa história pode estar incompleta e, em muitos casos, até equivocada.

Hoje sabemos que a maioria das dores cervicais não está relacionada apenas à posição durante o sono ou à chamada “má postura”. Estudos recentes mostram que fatores como estresse emocional, tensão mental, qualidade do sono e sobrecarga cognitiva têm um papel muito mais relevante no surgimento e na persistência dessas dores do que se imaginava há algumas décadas.

A dor deixou de ser vista apenas como um problema mecânico. Hoje, ela é compreendida como uma experiência complexa que envolve o cérebro, o sistema nervoso, as emoções e o contexto de vida da pessoa.

O que acontece quando o corpo não desliga?

Pesquisas publicadas nos últimos anos em revistas como The Lancet, Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy e Pain Reports mostram que indivíduos sob estresse crônico apresentam maior atividade do sistema nervoso simpático, que é o sistema responsável pelas respostas de alerta e defesa.

Em termos simples, o corpo permanece em estado de vigilância, e isso pode gerar aumento da tensão muscular, pior qualidade do sono, maior sensibilidade à dor e menor capacidade de recuperação tecidual.

Ou seja, mesmo dormindo, o organismo pode não estar realmente descansando. É como se o cérebro mantivesse o corpo em “modo proteção”, e músculos em proteção prolongada tendem a ficar mais rígidos e sensíveis, não por estarem lesionados, mas por estarem reagindo a uma percepção de ameaça, muitas vezes relacionada ao estilo de vida.

É nessas horas que a dor aparece como resposta do sistema nervoso.

A neurociência da dor tem mostrado algo fundamental: a dor não é apenas um sinal de dano estrutural. Muitas vezes, ela é uma resposta de proteção do sistema nervoso. Estudos recentes mostram que estresse psicológico e fadiga emocional podem aumentar a excitabilidade neural e a percepção dolorosa, mesmo sem lesões relevantes nos tecidos.

Isso ajuda a explicar por que muitas pessoas apresentam exames normais e, ainda assim, sentem dor real e limitante. A dor é sempre real, mas nem sempre ela significa dano tecidual.

Respiração: uma ferramenta terapêutica que pouca gente usa

Uma ótima terapia e solução para esses problemas é utilizar a respiração como ferramenta terapêutica. Uma das descobertas mais interessantes da ciência recente é o papel da respiração na modulação do sistema nervoso.

Pesquisas em neurociência mostram que respirações lentas e controladas podem estimular o nervo vago, principal componente do sistema parassimpático, responsável pelos estados de recuperação e relaxamento.

Quando isso acontece, podemos observar a redução da frequência cardíaca, a diminuição da tensão muscular, a melhora da variabilidade cardíaca e a redução da percepção de dor. Em outras palavras, quando aprendemos a respirar melhor, ajudamos o corpo a sair do estado de alerta.

Um exemplo simples utilizado em estudos clínicos consiste em inspirar pelo nariz por cerca de quatro segundos e expirar lentamente por seis segundos durante alguns minutos. Essa simples prática pode ajudar a reduzir a hiperatividade do sistema nervoso e melhorar a regulação corporal. Faça um teste e pratique essa respiração por alguns minutos, duas vezes ao dia.

Mais do que postura, é preciso olhar para a vida

Então, quando acordamos com dores cervicais ou torcicolos, vale a pena refletir, pois, mais do que postura, precisamos observar a saúde emocional.

Isso não significa que postura, ergonomia e exercícios não sejam importantes. Eles são, e muito. Mas o modelo atual da ciência da dor mostra que o cuidado precisa ser mais amplo. É preciso olhar também para os níveis de estresse, para a qualidade do sono, para a carga emocional, para hábitos de vida, para atividade física regular e para estratégias de regulação emocional.

A saúde musculoesquelética não depende apenas de músculos e articulações. Depende também de como vivemos. Talvez seu pescoço não precise apenas de alongamento. Talvez precise de pausas. Talvez precise de movimento. Talvez precise de respiração. Talvez precise de menos pressão interna.

O corpo humano não é apenas uma estrutura biomecânica. É também um sistema biológico sensível às experiências da vida. Cuidar da dor cervical hoje significa integrar movimento, ciência, comportamento e autocuidado. Porque, muitas vezes, o que parece ser apenas uma dor no pescoço pode ser um sinal silencioso de que estamos vivendo em tensão por tempo demais.

E talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas “como está sua postura?”, mas também: “Como está sua vida?”

Então, vale a pena praticar os exercícios respiratórios e fazer essa autoanálise. Tenho certeza de que você vai se sentir muito melhor!

Prof. João Douglas Gil – CREFITO 3-13198
Fisioterapeuta
Head Nacional da Fisioterapia da Brazil Health

Referências bibliográficas:

Cohen SP. Neck pain. Lancet. 2021.

De Zoete RM et al. Clinical practice guideline for neck pain. JOSPT. 2019.

Tracy LM et al. The link between stress systems and pain. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2024.

Thapa S et al. Psychological stress and musculoskeletal pain. Pain Reports. 2023.

Busch V et al. The effect of slow breathing on pain and autonomic function. Frontiers in Human Neuroscience. 2023.

Meziat-Filho N et al. Association between psychosocial factors and neck pain. Brazilian Journal of Physical Therapy. 2020.





Com informações da fonte
https://jovempan.com.br/saude/dor-no-pescoco-nem-sempre-vem-do-travesseiro-o-que-a-ciencia-diz-sobre-estresse-e-tensao-cervical.html

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