Em discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU em Nova York, nesta terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou uma série de recados sobre temas relacionados à relação do Brasil com os Estados Unidos e de questões internas. Sem citar o líder americano Donald Trump diretamente, Lula criticou a interferência externa em eleições de outros países.
A 12 dias da eleição, Lula também defendeu medidas do seu governo, como a aprovação da Lei Antifacção.
Lula abre discurso criticando ‘fragilidade’ da ONU: ‘Nunca esteve tão em baixa’
Conselho de Segurança da ONU
O presidente Lula iniciou seu discurso com críticas ao Conselho de Segurança da ONU.
— Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um conceito de segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício, de origem da Carta da ONU, conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez — disse Lula.
Crise da democracia no mundo
Lula também falou sobre a crise da democracia e disse que o Brasil não é quintal de ninguém. Disse que para os “países da América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável”.
— O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais — disse.
O presidente brasileiro afirmou que o acesso aos minerais críticos do país exigirá contrapartida.
— Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética. Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro, e é em benefício dele que serão exploradas. O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.
Crime organizado e Lei antifacção
O presidente do Brasil mandou um recado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao abordar o combate ao crime organizado. Disse que não o país não precisa de porta-aviões vigiando nossas águas.
— Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados. Mães perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão cansadas da violência. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao Presidente dos Estados Unidos. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.
Na sequência, Lula tratou da aprovação da Lei Antifacção.
— Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.
Lula tratou sobre combate a corrupção ao afirmar que sua gestão foi “implacável” em relação ao tema. Repetiu a frase usada durante a campanha eleitoral, especialmente após o acirramento da crise do Supremo Tribunal Federal (STF), de que “ninguém está acima da lei”:
— Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei.
Outra frente de batalha dentro do governo, o enfrentamento a indústria de bets também foi defendida por Lula na ONU. O presidente afirmou que essa indústria transforma “vídeo em lucro” e que o Brasil “não vai tolerar esse modelo de negócio”:
— A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.
Lula tem criticado reiteradamente as apostas online por avaliar que elas contribuem para o endividamento das famílias. Desde a regulamentação do setor, o governo já restringiu a publicidade das casas de apostas e bloqueou o acesso de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) às plataformas. Nos próximos dias, o governo avalia divulgar medidas ainda mais duras contras as bets.
Lula defendeu que os venezuelanos decidam o futuro do próprio país. O presidente criticou as tentativas de dividir o mundo em zonas de influência.
— O povo venezuelano merece decidir o seu próprio destino. A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições. A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional. Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais — afirmou.
Uma das principais bandeiras do governo e da sua campanha à reeleição, o fim da escala 6×1 também foi defendido por Lula. O presidente argumentou que o “mundo do trabalho está em transformação” e que idosos querem permanecer ativos, enquanto jovens desejam empreender. Defendeu a PEC em análise no Congresso Nacional para garantir dois dias livres de descanso aos trabalhadores e citou que isso beneficia especialmente as mulheres.
— O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família. No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6×1 para garantir ao trabalhador dois dias livres por semana. Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
Lula afirmou que o Brasil deve bater novo recorde de exportações neste ano, apesar do tarifaço imposto à economia brasileira pelos Estados Unidos.
— O Brasil voltou a crescer de modo sustentável. Somos o terceiro maior destino de investimentos estrangeiros diretos. Apesar do tarifaço contra a nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações — disse Lula.
Em outro trecho do pronunciamento, Lula afirmou que a Organização Mundial do Comércio (OMC) “respira por aparelhos” e criticou medidas protecionistas adotadas sob justificativas ambientais.
