Com a eclosão da guerra no Irã e o conflito se expandindo para diferentes países do Oriente Médio, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever.
A morte de Ali Larijani não tem o mesmo peso simbólico da morte do aiatolá Ali Khamenei. Na prática, no entanto, o efeito pode ser ainda maior nesta guerra. Afinal, ele era o comandante de fato do regime iraniano, além de ser uma figura historicamente poderosa em Teerã. De uma das mais proeminentes famílias iranianas, presidiu o Majilis (Parlamento) por anos, comandava a segurança iraniana e talvez fosse uma das raras figuras bem relacionadas com a Guarda Revolucionária, os clérigos e políticos das mais variadas correntes, da linha-dura aos reformistas.
- Guga Chacra: O que deu errado para Trump no Irã até agora?
Mais “decapitações” – Israel atacou para matar Larijani. O comandante iraniano era um alvo dos israelenses desde o início do conflito. Na semana passada, em tom de desafio, saiu às ruas no meio de milhares de manifestantes pró-regime para celebrar o dia de Jerusalém (Quds) no Irã. Na madrugada desta terça-feira, acabou sendo alvo de um bombardeio. O objetivo de Benjamin Netanyahu parece ser “decapitar” qualquer opção de liderança iraniana — isto é, matar qualquer líder que venha a surgir.
Substituto ainda mais radical – Com a morte de Larijani, não está claro quem pode assumir o comando do regime. Segundo escreveu Vali Nasr, ex-diretor da escola de relações internacionais da Universidade Johns Hopkins e um dos maiores acadêmicos sobre Irã nos EUA, o sucessor de Larijani deve ser indicado pela Guarda Revolucionária. “A cada assassinato cometido pelos EUA e por Israel, maior a radicalização do regime”, escreveu. Ali Vaez, do International Crisis Group, também iraniano-americano, afirmou que o assassinato de Larijani deixa o regime mais enfraquecido, mas “mais perigoso”.
- Guga Chacra: Qual é a estratégia do Irã na guerra?
Ex-negociador com os EUA – Larijani poderia facilmente ter se transformado no líder do Irã depois da guerra e talvez fosse capaz de firmar alguma forma de acordo com os Estados Unidos. Seu viés também é um pouco menos radical se comparado a figuras da Guarda Revolucionária que podem substituí-lo. Defendeu no passado negociações com os EUA e já condenou a repressão do regime. Neste ano, porém, foi um dos responsáveis por liderar os massacres de manifestantes opositores ao regime.
Aceitação de Mojtaba – Na escolha do novo líder supremo, há informações de que Larijani preferiria alguma figura mais moderada, como Hassan Rouhani, que governou o Irã entre 2013 e 2021 e assinou o acordo nuclear com Barack Obama conhecido como JCPOA — Trump retirou os EUA do acordo depois de assumir a presidência. No fim, Larijani concordou com a escolha de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, para assumir o posto.
- Guga Chacra: Irã seria atacado se tivesse bomba atômica?
Líder supremo ferido – Mojtaba não apareceu publicamente desde sua escolha como líder supremo. Há informações de que talvez esteja gravemente ferido ou até mesmo em coma. Teria sobrevivido por pouco ao ataque que matou seu pai no início do conflito no dia 28 de fevereiro, quando Israel e EUA atacaram Teerã. Até agora, apenas um comunicado supostamente escrito por ele foi lido pela imprensa estatal iraniana.
Objetivo israelense – O assassinato de Larijani indica que Israel deve seguir com sua política de “decapitações”. Basicamente, tentará matar quem assumir o poder no Irã. Essa estratégia, sem dúvida, causa abalos e incertezas no regime. O objetivo israelense, cada vez mais, parece ser o colapso do Estado iraniano. Desta forma, o Irã ficaria algo próximo do que foi o Iraque ou a Síria em um passado recente. Isto é, um país desfigurado, com guerra civil, e um Estado fragilizado, incapaz de desenvolver armas atômicas e ameaçar Israel.
- Guga Chacra: Fechamento de Ormuz é a maior derrota de Trump
Objetivo dos EUA – Para os Estados Unidos, o assassinato de Larijani talvez não seja tão positivo. Afinal, era uma figura capaz de negociar, por ser pragmático e poderoso. Seus substitutos tendem a ser mais radicais e menos poderosos internamente, inviabilizando um acerto para o fim da guerra. A mudança de regime ainda não pode ser descartada, mas parece improvável neste momento. Mais provável seria o cenário desejado pelos israelenses, de colapso do Estado, ainda que o regime sobreviva enfraquecido. Israel seria menos afetado do que os EUA pelo colapso do Estado iraniano. Para os norte-americanos, significaria aumento do preço do petróleo internacional, riscos para seus aliados no Golfo Pérsico e enfraquecimento geopolítico.

