Agora milionário e em busca da reeleição, deputado Renato Machado declara patrimônio de R$ 1,3 milhão à Justiça Eleitoral

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Pandemia. Pessoas isoladas temendo a contaminação por um vírus potencialmente mortal. Para matar o tempo, reúnem-se com o devido isolamento em torno da literatura. Um casal se conhece e se apaixona. Poderíamos estar falando do clássico “Decamerão”, de Giovanni Boccaccio, ambientado na Peste Negra do século XIV. Mas nossa história é bem mais recente. Acontece na pandemia da Covid-19, em Lisboa, e tem seu ápice no Rio de Janeiro com um escritor como cupido: Machado de Assis.

A guia Juliana Fiúza, de 31 anos, há dez concluiu seu curso e resolveu se especializar em rotas turísticas literárias no Rio de Janeiro. Tem vários roteiros. O mais concorrido é, disparado, o de Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras. Foi graças ao Bruxo do Cosme Velho que sua história se misturou com a do casal.

Durante a pandemia, Rui Carvalho e Sofia Vicente dedicaram parte do seu tempo à literatura, participando de um clube. Descobriram que eram apaixonados por Machado de Assis. Mais um pouco e descobriram-se, agora, apaixonados um pelo outro. Depois do casamento, os portugueses procuraram Juliana, que conheceram através das redes sociais, para comemorar a lua de mel de um jeito diferente e especial: fazendo o roteiro literário de Machado de Assis no Rio.

Personagens de uma história contada e recontada

E as artes do bruxo vão mais longe e criam outra conexão. O arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti tem um sonho. Nele, caminham pelas ruas do Rio de Janeiro Bentinho, olhando para os lados, desconfiado do que aconteceu no passado. O filósofo Quincas Borba filosofa e se pergunta onde errou. Ao mesmo tempo, o transeunte precisa ter cuidado com seus trejeitos. Podem ser mal interpretados por um tal Dr. Simão Bacamarte, que não hesitará em levar o desavisado para uma internação compulsória. Na mente de Nireu, os personagens de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Machado de Assis, passeiam por aí, a clamar, como fantasmas, um caminho delimitado por “templos” onde o povo possa prestar a devida homenagem a seu criador.

 

Nireu Cavalcanti sabe tudo de Machado de Assis — Foto: Arquivo pessoal

Nireu Cavalcanti tem a ousada ideia de tornar o Rio uma Cidade Machadiana. As ideias serão expostas em dois eventos.  Na próxima terça-feira (11), às 9h, acontece o Circuito Machadiano – Bem Jurídico Imaterial, na Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. No dia 25, quem recebe o debate é o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro.

“Temos até 2039 (ano do bicentenário do escritor) para criar o roteiro. É uma homenagem justa, mais do que merecida”, diz Nireu, de 82 anos, que tem uma relação de décadas com Machado de Assis. Conheceu a obra do escritor ainda garoto, em Alagoas, onde nasceu.

Evento
Evento vai discutir a proposta do arquiteto

Intervenções arquitetônicas para preservar a memória

A proposta do arquiteto e historiador inclui intervenções em dez locais, sendo nove deles antigas moradias de Machado de Assis. O roteiro vai da Rua do Livramento, na Gamboa, ao Cosme Velho, passando por bairros como São Cristóvão, Centro, Lapa, Laranjeiras, Catete e Cosme Velho. A décima intervenção aconteceria num prédio que hoje pertence à Assembleia Legislativa do Rio. Demolição é a solução apresentada.

“A edificação foi reformada e transformada em um caixote revestido de vidro”, escreve Nireu, quase com repugnância.

 

Livro
A presença de Machado de Assis na cidade é tema do livro de Nireu — Arte/Divulgação

As intervenções propostas por Nireu têm um grande entusiasta. Trata-se do desembargador João Batista Damasceno, presidente do Fórum Permanente de Sociologia Jurídica da Escola de Magistratura.

“Machado de Assis pode ser considerado um dos fundadores da literatura brasileira. O que tínhamos, antes da Indendência (1822), era literatura portuguesa. No caso do roteiro da Cidade Machadiana, temos ainda muita coisa que pode se perder com o tempo caso nada seja feito”, alerta Damasceno.

Registros imortais e um pouco de fofoca literária

O desembargador é tão apaixonado pela obra do escritor que, pesquisando textos de vários literatos brasileiros, escreveu o artigo ”Machado de Assis: Talaricagem, catarse ou fake news? Este é o enigma”. Nele, discorre sobre literatura e… fofoca. Mais de 150 anos depois, Machado de Assis ainda é babado!

“Mas e se a obra for autobiográfica e Machado a tiver escrito como um mea culpa ou catarse, explicitando o que não poderia dizer publicamente e às claras? Há criminosos que decorridos tempos de seus delitos procuram autoridades e relatam o que cometeram, sem o que jamais se saberia sobre a autoria”, discorre Damasceno, falando sobre “Dom Casmurro”, o livro mais conhecido de Machado, e usando uma fofoca secular para botar fogo no parquinho.

Ousadia para derrubar o que está atrapalhando

E se demolir um prédio, como o anexo da Assembleia, pode chocar os mais afeitos a “deixar tudo como está”, Nireu, em sua proposta, é didático:

“Registrar as nove moradias do gênio Machado de Assis não deve se restringir a colocação de placas em suas fachadas. Mas restaurar os imóveis e lhes dar função social, cultural, histórica, turística e revitalizar o seu entorno”.

É bom lembrar que menos de duas décadas atrás, muita gente considerou até sacrilégio implodir a Perimetral, pra revitalizar o Porto Maravilha. As ideias de Nireu nem envolvem tanto barulho e poeira, mas explosivas. Incluindo botar abaixo o terminal atual das barcas (somente a parte não tombada) para revitalizar a Praça XV.

“O espaço urbano onde Machado de Assis viveu e trabalhou por tantos anos (no Ministério da Agricultura, de 1873 a 1908) é o centro histórico onde localizava-se o Palácio Imperial, a Câmara de Deputados, a Sé Catedral (Igreja do Carmo e Capela Imperial); o porto de desembarque de escravos, dos navios mercantes, de passageiros estrangeiros e nacionais, dos moradores de Niterói, na Estação das Barcas, das embarcações do interior da baía de Guanabara e da Província do Rio de Janeiro. Os navios de guerra do Brasil e das diversas nações estrangeiras”.

Uma Praça Quinze vibrante, como Machado de Assis via

O visionário quer ver mais vida de volta à Praça Quinze.

“Nesse sítio urbano fervilhava o comércio com o Mercado Municipal, os quiosques, os vendedores ambulantes, as baianas e as lojas de variados ramos comerciais. Tinha os hotéis famosos da cidade, os cafés, confeitarias, casas de pasto (restaurantes), sorveterias, tabacarias, livrarias, sedes dos principais jornais da cidade, lojas de moda francesa, de móveis, de instrumentos musicais, sapatarias, escritórios e consultórios de famosos advogados, contadores, médicos, dentistas e sedes de empresas importantes”, detalha.

Autor do livro “Machado de Assis – Caminhos de suas moradias no Rio de Janeiro”, Nireu vai defender suas propostas nos dois eventos citados no início deste texto. E pretende trazer para a ideia os mais variados setores da sociedade, do poder público a entidades da sociedade civil.

O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), Sydnei Menezes, está ansioso pelo encontro como Nireu Cavalcanti.

“A importância desse trabalho, elaborado pelo professor, de nos oferecer e especializar na questão urbana toda a vivência, a própria obra, a inspiração de Machado de Assis, é muito importante para o CAU reconhecer esse trabalho, apoiar e fazer o devido encaminhamento institucional junto à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro para tentar aproveitar essa ideia e valorizar esses espaços da cidade que têm um valor não só urbano, arquitetônico e histórico, mas sobretudo um valor cultural, de inspirar. Para que perpetuassem nas suas obras essa realidade tão pitoresca da cidade do Rio de Janeiro”, diz.

Ligação profunda até mesmo com o turismo europeu

E, voltando ao início, de nossa narrativa, ficamos com o depoimento de Juliana (@papodeguiario), que vê praticamente todos os dias o efeito da literatura de Machado e outros escritores na divulgação do Rio de Janeiro mundo afora:

“Machado é muito conhecido e tem um nome muito forte em outros países. Outro dia, uma família holandesa me procurou”, conta ela, que faz o roteiro do Bruxo do Cosme Velho bimestralmente, porque em sua agenda também precisa abrir espaços para outros escritores brasileiros, como José de Alencar e Lima Barreto. Mas isso é uma outra história…

juliana
O casal apaixonado por Machado com Juliana durante a visita —  Foto: Arquivo pessoal



Com informações da fonte
https://temporealrj.com/renato-machado-patrimonio-justica-eleitoral/

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