Reaberto ao público em 2025, após um minucioso processo de restauração, o Palácio Gustavo Capanema é um marco da arquitetura moderna brasileira. Projetado por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos, com consultoria de Le Corbusier, o edifício reúne obras de Candido Portinari, Roberto Burle Marx, Bruno Giorgi e Celso Antônio.
É nesse contexto que o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro — CAU/RJ apresenta, de 2 de outubro a 12 de novembro de 2026, a exposição Portinari e o Brasil Moderno — Os murais do Palácio Capanema, no centro do Rio de Janeiro. A mostra reúne obras de Portinari produzidas durante a criação dos murais do edifício, um dos mais importantes conjuntos artísticos do modernismo brasileiro.
A concepção da exposição nasce no contexto da Conferência Estadual de Arquitetura e Urbanismo, realizada pelo CAU/RJ no Capanema em 1º de outubro. Ao sediar a conferência, o edifício aproxima os debates contemporâneos sobre a cidade de um patrimônio no qual arquitetura e arte expressavam as aspirações vanguardistas do país.
Realizada pelo CAU/RJ, em parceria institucional com o Ministério da Cultura (MinC), Danielian e ETEL, com patrocínio institucional da FIRJAN • SESI • SENAI, a exposição tem curadoria de Rafael Peixoto e Marcus Lontra e concepção e curadoria institucional de João Paulo Balsini.
Para o presidente do CAU/RJ, Sydnei Menezes, a exposição reafirma a atuação do Conselho no debate público e na salvaguarda da memória cultural do país. “Esta mostra inaugura um momento marcante que reafirma a vocação do CAU/RJ como agente ativo na promoção da cultura e na valorização do nosso patrimônio arquitetônico e artístico”, destaca Menezes.
A exposição ocupa o Salão Portinari, no segundo andar do edifício, voltado para o jardim suspenso de Roberto Burle Marx. O espaço abriga os painéis da série “Ciclos Econômicos Brasileiros”, realizada entre 1938 e 1945, ano de inauguração do prédio. As obras expostas estabelecem um diálogo direto com os murais para os quais foram concebidas e com a arquitetura que os integra.
Em diferentes dimensões, as obras incluem estudos de composição e trabalhos de transferência empregados por Portinari e seus assistentes na realização dos murais do antigo Ministério da Educação e Saúde. O conjunto revela as etapas dessa elaboração, da construção das imagens à sua transposição para as pinturas monumentais.
Segundo os curadores Rafael Peixoto e Marcus Lontra, “os desenhos que formam a exposição não só mostram a grande habilidade de Portinari como desenhista, mas também sua importância como figura central na assimilação do modernismo como a utopia de um país”. A seleção evidencia aspectos do método de trabalho do artista e da colaboração com seus assistentes.
Os temas dos murais demonstram o interesse de Portinari pela população brasileira e pelas transformações nos meios de produção. Na série “Ciclos Econômicos Brasileiros”, a partir da conceituação de Afonso Arinos de Mello Franco sobre a trajetória da economia brasileira, o artista realizou 12 pinturas que traçam um panorama desde a extração do pau-brasil até o crescimento da exploração da carnaúba.
Nos painéis, essa trajetória é narrada pelas pessoas que a construíram com seu trabalho. Concebidos para um edifício público durante o Estado Novo, os murais conferem aos trabalhadores protagonismo na representação do desenvolvimento nacional. A imagem do Brasil moderno emerge das atividades produtivas e, sobretudo, da experiência humana de quem lhes deu forma.
Para João Paulo Balsini, responsável pela concepção e pela curadoria institucional da exposição, os murais revelam uma compreensão do desenvolvimento nacional fundada na experiência concreta dos trabalhadores. “Ao consagrar as pessoas como centro da obra, Portinari evoca o mesmo propósito que confere sentido ao espaço construído: as pessoas”, afirma Balsini no texto de concepção da mostra. Essa centralidade aproxima a exposição dos debates contemporâneos promovidos pelo CAU/RJ na Conferência Estadual de Arquitetura e Urbanismo.
A aproximação entre passado e presente também permite observar as circunstâncias históricas do projeto. O envolvimento de Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Portinari revela as contradições e os espaços de negociação em um país submetido à ditadura do Estado Novo. A arquitetura e a arte modernas encontraram uma oportunidade de afirmação institucional, mas precisaram lidar com os limites e as ambiguidades do poder público.
Para os curadores, a presença de artistas e pensadores vinculados às ideias marxistas em uma empreitada governamental evidencia as interseções entre a classe artística e intelectual e o poder público, por meio de estratégias de subversão e apropriação. Os murais participaram da construção de uma imagem oficial do Brasil moderno e introduziram nessa narrativa os trabalhadores e as desigualdades que atravessavam o país.
A presença das obras no próprio Capanema amplia a reflexão sobre arte, arquitetura e patrimônio. Em conjunto com o edifício, considerado o primeiro projeto oficial de arquitetura moderna do Brasil, as pinturas participaram da institucionalização do modernismo como linguagem e representação de uma identidade cultural brasileira. Ao revisitar o espaço para o qual foram concebidas, permitem perceber como diferentes linguagens se articulam na construção da memória nacional.
Na expografia, cavaletes assinados pela designer Claudia Moreira Salles e produzidos pela ETEL apresentam parte das obras. Seu desenho contemporâneo dialoga com a arte e a arquitetura do Capanema, aproximando diferentes momentos de experimentação estética.
Portinari e o Brasil Moderno — Os murais do Palácio Capanema reconstitui um processo de criação e devolve as obras ao ambiente que lhes confere sentido. O visitante acompanha o percurso entre a ideia e o mural, entre a representação do país e a experiência daqueles que o constroem.
A mostra reafirma, assim, o Palácio Gustavo Capanema como patrimônio vivo, em que a memória do modernismo dialoga com os desafios do presente. Ao reunir arte, arquitetura e reflexão sobre a cidade, evidencia a identidade cultural brasileira como uma construção contínua.
Serviço
Exposição: Portinari e o Brasil Moderno — Os murais do Palácio Capanema
Período: 2 de outubro a 12 de novembro de 2026
Local: Salão Portinari — “Ciclos Econômicos Brasileiros”, Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro
Curadoria: Rafael Peixoto e Marcus Lontra
Concepção e curadoria institucional: João Paulo Balsini
Realização: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro — CAU/RJ
Parceria institucional: Ministério da Cultura — MinC, Danielian e ETEL
Patrocínio institucional: FIRJAN • SESI • SENAI
