A relação entre avós e netos pode ser um dos vínculos mais positivos e enriquecedores da vida familiar, com benefícios marcantes para ambos os lados. É o que afirmam especialistas ouvidos pelo jornal argentino La Nación, que observam, porém, que esse porto seguro para a criança não deve ser sobrecarregado.
Florencia Sanabria, pediatra e psiquiatra infantil, afirma que um avô ou avó presente pode se tornar uma figura adicional de segurança e, por meio de conversas, histórias, brincadeiras e atividades cotidianas, enriquecer a linguagem, a curiosidade e o senso de pertencimento da criança.
— Trata-se de um vínculo intergeracional de afeto, memória e continuidade. Os avós conectam a criança a histórias, costumes e experiências anteriores ao seu nascimento, ajudando-a a construir identidade e pertencimento — explica Sanabria à reportagem do La Nación.
Professor de Psicologia da Terceira Idade e do Envelhecimento da Universidade de Buenos Aires, Ricardo Iacub observa que avós são as primeiras pessoas com quem a criança estabelece uma relação próxima para além dos pais:
— É o primeiro afastamento socialmente aceito da criança, como dormir na casa dos avós ou passear com eles. Eles representam um lugar de confiança. Sem dúvida, é um vínculo fundamental, que gera uma segurança externa inicial em nível social, e isso é essencial.
Para a criança, conviver com outra geração ajuda a conhecer ritmos diferentes, compreender a passagem do tempo e desenvolver empatia.
— Elas também aprendem observando como os avós lidam com frustrações, pedem desculpas, agradecem, cuidam ou enfrentam uma perda — diz Sanabria.
Sobre o impacto de se tornar avô ou avó, Iacub afirma que as pesquisas apontam efeitos positivos:
— Os estudos falam da recuperação de um afeto que havia sido perdido, ligado ao carinho dedicado aos filhos, mas que já não pode ser expresso da mesma forma quando eles são adultos.
Alegria e responsabilidade
Marcela Andreatini, de 61 anos e avó de Felipe, de quase 1 ano, conta que cuidar do neto é gratificante.
— Passo todas as manhãs com ele e, três vezes por semana, eu o levo para almoçar na minha casa. Eu e meu marido cuidamos dele por cerca de duas horas. Adoramos descobrir cada novo gesto ou som, ouvi-lo rir e sentir que ele é feliz — diz, lembrando que a tarefa também envolve desafios e responsabilidades: — Tenho receio de que ele se machuque, de não conseguir acalmá-lo caso chore ou de não ter energia suficiente para estar disponível 100% do tempo.
Segundo Florencia Sanabria, para os mais velhos, além da ocupação, a relação pode fortalecer a chamada generatividade, a sensação de ter algo valioso a transmitir.
— Ela pode proporcionar propósito, afeto e participação social, desde que o cuidado seja voluntário e compatível com suas possibilidades. Quando é demais ou obrigatório, pode gerar cansaço, estresse e perda de atividades próprias — alerta.
A especialista reforça que, quando os pais estão presentes, o papel dos avós é complementar, não substitutivo:
— Eles acompanham, apoiam e enriquecem o desenvolvimento da criança dentro de um acordo estabelecido. Não são apenas cuidadores sem voz, mas também não devem ser uma segunda autoridade, competindo com os pais.
‘Malhação’ para o cérebro
Uma pesquisa recente publicada na revista Psychology and Aging, envolvendo 2.887 europeus com mais de 50 anos, concluiu que aqueles que ajudam a cuidar dos netos tendem a manter melhor capacidade cognitiva.
As possíveis razões seriam a interação entre gerações e a maior sociabilidade decorrente desse cuidado. O estudo apontou que atividades como brincar, conversar, ajudar em tarefas e resolver pequenos desafios cotidianos estão associadas a uma menor deterioração de funções como memória, atenção e processamento de informações.
O contato com os netos exige ainda adaptação constante a novos estímulos e comunicação ativa, fatores associados a um maior “treinamento cerebral”. O vínculo também favorece emoções positivas e senso de propósito.
Mas avós que assumem responsabilidades excessivas ou que se sentem sobrecarregados não apresentam os mesmos resultados positivos.
Liliana Graciela Farina, de 73 anos, busca diariamente a neta Francesca na escola.
— Ela é a luz da minha vida — conta a avó, que foi mãe aos 21 anos e se divorciou dois anos depois. — Precisei trabalhar e meus pais me ajudaram a criá-lo, mas perdi muitos momentos. Com Francesca, estou vivendo muitas experiências que não vivi com meu filho.
Com informações da fonte
https://extra.globo.com/saude/bem-viver-60/noticia/2026/09/vinculo-de-afeto-que-atravessa-geracoes.ghtml
Vínculo de afeto que atravessa gerações
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