Renato Borghi é daqueles artistas que parecem não saber fazer outra coisa senão inventar. Um dos grandes nomes do teatro brasileiro, fundador do Teatro Oficina e intérprete de “O Rei da Vela”, chega a mais de seis décadas de carreira ainda fazendo o que sempre fez: criando.
Há uma paixão que o acompanha desde os seis anos: Dalva de Oliveira. Ainda menino, ganhou da mãe um disco de Branca de Neve com a voz da cantora. Em 1987, levou essa admiração ao palco em “A Estrela Dalva”, musical estrelado por Marília Pêra que ficou mais de dois anos em cartaz no Teatro João Caetano. Agora, abre novamente essa caixa de memórias em “Minha Estrela Dalva”. Mais do que contar uma biografia, o espetáculo promove um encontro.
Soraya Ravenle não tenta imitar Dalva. Procura a mulher por trás da voz extraordinária e encontra, na própria voz, uma maneira de trazê-la ao palco. O resultado emociona sem transformar os episódios dolorosos da vida da cantora em espetáculo. O que fica é a grandeza da artista e a força de uma mulher que fez da própria vida matéria de música.
Ao lado de Borghi, Elcio Nogueira Seixas interpreta o jovem Renato, seu alter ego. É um diálogo delicioso entre o homem que viveu aquela paixão e o menino que ainda está descobrindo Dalva. Ivan Vellame completa o trio, dando vida aos personagens masculinos da história com uma voz de rara beleza.


Os figurinos de Fábio Namatame têm o brilho que uma estrela pede, com direito a sapatos combinando com os vestidos. Na direção, Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas — parceiro de Borghi e cofundador da Cia. Teatro Promíscuo — usam pequenas escadas para acompanhar as subidas e descidas da carreira de Dalva. Uma solução simples que transforma a vida da cantora em espaço cênico.
Há a estrela, mas também a mulher cheia de dúvidas, certezas, coragem e medo. E há Renato: seu sorriso encantado diz tanto quanto suas palavras. Soraya canta, Borghi lembra, Elcio reencontra o menino — até no esforço de remexer os ombros para parecer um “carioca” — e Ivan dá voz aos homens dessa história.
“Minha Estrela Dalva” é, no fundo, uma declaração de amor de um artista a outra artista. Começou numa vitrola de infância e, décadas depois, ainda encontra palco, música e emoção.
Entrevista com Soraya Ravenle:
1 – Como você construiu sua Dalva sem imitá-la?
Existe, e é preciso que exista, um estudo da figura histórica de Dalva em todas as suas dimensões: política, amorosa, social, como mãe, filha, esposa etc. Tudo isso está presente no canto visceral dela. Cantar não é somente sobre voz. Dalva tinha uma extensão absurda; poderia ter sido cantora lírica. Estudei muitíssimo suas características vocais. Passei por Felipe Abreu e Gilberto Chaves, professores que fizeram toda a diferença nesse estudo. Mas evitar o pastiche é entender que quem entra em cena é Soraya, cantando suas dores, feridas e alegrias, atravessada por tudo o que pôde apreender de Dalva. É a minha tradução, uma das infinitas possíveis.
2 – As músicas foram escolhidas por você?
Quando fui convidada, as músicas já estavam selecionadas. Ocorreram mudanças muito pequenas durante o processo. A peça trata, antes de tudo, da Dalva de Oliveira de Renato Borghi. A seleção parte dele, um mito do nosso teatro que, por sua vez, tinha Dalva como grande referência. Eu me espelho nos dois, artistas que me constituem.
3 – Como foi trabalhar com Renato Borghi?
Essa experiência ditou minha caminhada. Renato tem uma grandiosidade que está na pureza do olhar. Ele me recebeu aberto e sensível ao que eu apresentava durante os ensaios. Em determinado momento, disse: “Você está fazendo uma Dalva de carne e osso!”. Senti que estava no caminho certo! É, de fato, um jogo de espelhos: eu me espelho nele todos os dias. Quero chegar aos 89 anos em cena! Ele se espelha em Dalva e eu, por minha vez, na Dalva de Renato.
4 – O que ainda instiga você?
O que me instiga em qualquer trabalho hoje é o pensamento crítico, a reflexão livre e profunda sobre o assunto abordado. É a pesquisa de linguagem, que, infelizmente, ainda é rara no musical brasileiro. Ainda… Que possamos avançar nesse sentido! Isso me apaixona: refletir sobre outras possibilidades de juntar música, teatro e dança.
5 – O que você sonha fazer daqui para a frente?
Tenho projetos que estou tentando viabilizar. Penso muito mais em: com quem? Como? Para quem? Por que esse texto? Estamos num momento, no Brasil e no mundo, em que essas perguntas importam tanto quanto a escolha de um texto ou de um personagem. Na verdade, caminham juntas. Mas poder entrar numa sala de ensaio e criar ali uma linguagem própria de um coletivo de artistas, com tempo — pelo menos quatro a seis meses de estudo e pesquisa — e com todos os criadores bem pagos para estar ali seria meu sonho de consumo.
Serviço:
Teatro Claro Mais, em Copacabana
Sextas e domingos, às 17h; sábados, às 20h.

