O assassinato público do influenciador de extrema direita Charlie Kirk em um campus universitário de Utah, em setembro passado, provocou uma onda de luto na direita política. Em poucos dias, o governo de Donald Trump começou a transformar o profeta assassinado dos jovens conservadores de um mártir em um símbolo de sua causa.
— A última mensagem que Charlie Kirk me transmitiu antes de se juntar ao seu criador no céu foi, segundo ele, que temos de desmantelar e combater as organizações radicais de esquerda neste país que estão fomentando a violência — disse Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto da Casa Branca, três dias após o assassinato. — E é isso que vamos fazer.
A mensagem descrita por Miller rapidamente se transformou em política. Agora, um ano depois, fica claro o quão nítida se tornou a linha divisória entre o período posterior à morte de Kirk e os esforços do presidente Trump e seus aliados para atacar os americanos que consideram “o inimigo interno”.
A repressão quase exclusiva da administração contra organizações e atividades de esquerda desencadeou uma acirrada batalha sobre dissidência política e liberdade de expressão.
As autoridades adotaram uma abordagem governamental abrangente para examinar cidadãos e organizações que se opõem às políticas de Trump. Agentes fiscais examinaram organizações sem fins lucrativos. Investigadores analisaram as contas de sindicatos. Promotores apresentaram acusações contra manifestantes contrários ao Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), alegando que uma conspiração de esquerda está provocando violência política nas ruas.
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Esses esforços convergiram este ano em Minnesota, palco de protestos acalorados em resposta à agressiva operação de imigração do governo. Investigadores federais infiltraram-se em comitês de vigilância comunitária, reuniões religiosas e um grupo ambientalista em uma operação que monitorou centenas de pessoas comuns. Ao final, 15 manifestantes foram acusados de conspiração para obstruir a aplicação das leis de imigração como membros do movimento de extrema esquerda conhecido como Antifa, mas os promotores não os acusaram de nenhum ato violento além de chutar um veículo do ICE e bater lateralmente em outro.
Quando Paul Kirk-Davidoff, um açougueiro e organizador sindical em Minneapolis, viu nos autos do processo que agentes disfarçados compareceram a uma reunião que ele havia organizado em fevereiro sobre como resistir ao ICE, ele disse:
— Primeiro eu ri, depois pensei: “Isso é assustador”.
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Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem usado o poder para punir aqueles que considera oponentes, incluindo escritórios de advocacia, universidades, ativistas pró-Palestina e veículos de imprensa, três dos quais ele proibiu de entrar na Casa Branca na semana passada. Mas, após o assassinato de Kirk e as tentativas de assassinato contra o presidente, Trump e seus aliados reformularam esse esforço em termos existenciais.
— O que finalmente estamos entendendo na direita é que nossos oponentes na esquerda, alguns deles, muitos deles, querem nos ver mortos — disse Andrew Kolvet, porta-voz do Turning Point USA, organização conservadora de Kirk, em entrevista. — Você precisa lidar com isso ou se torna um alvo fácil.
Logo após a morte de Kirk, Trump emitiu duas diretrizes que orientaram o governo. Em 22 de setembro, ele assinou uma ordem executiva designando o Antifa como uma organização terrorista doméstica. Dias depois, assinou um documento de segurança nacional ordenando um ataque contra o que ele alegou serem redes que fomentavam a violência política.
Segundo o memorando, as ideologias que motivavam essas redes incluíam “anti-americanismo, anticapitalismo e anti-cristianismo; apoio à derrubada do governo dos Estados Unidos; extremismo em relação à migração, raça e gênero; e hostilidade contra aqueles que defendem visões americanas tradicionais sobre família, religião e moralidade”.
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Embora não haja nenhuma disposição na legislação dos EUA que defina terrorismo doméstico e o FBI tenha afirmado que a Antifa é mais uma ideologia antifascista do que uma organização, o governo tem atribuído ambos os rótulos a manifestantes e a alguns grupos de esquerda.
A Casa Branca defendeu as medidas.
— Não há porto seguro para aqueles que atacam e obstruem ilegalmente a aplicação da lei ou que promovem campanhas de violência política contra o povo americano — disse Lauren Bis, porta-voz da Casa Branca.
Mas a campanha do governo contra a violência é filtrada por uma ótica política — alarmando inúmeras organizações cujas causas, do meio ambiente às liberdades civis e aos direitos de voto, estão em desacordo com a agenda do presidente.
Vanita Gupta, professora de direito da Universidade de Nova York e ex-funcionária do Departamento de Justiça durante o governo de Joe Biden, organizou grupos sem fins lucrativos para combater o que ela descreveu como uma tentativa da Casa Branca de “sufocar a dissidência, reescrever o passado e suprimir organizações que desafiam sua narrativa e suas políticas”.
Não são apenas os democratas. Um parecer jurídico apresentado no mês passado no caso de Minnesota por grupos jurídicos, incluindo o Instituto Cato, de orientação libertária, e a Sociedade para o Estado de Direito, de orientação conservadora, afirmou que a diretiva de Trump sobre violência política, conhecida como Memorando Presidencial de Segurança Nacional nº 7, “utiliza efetivamente o rótulo de terrorismo doméstico para justificar investigações criminais contra grupos desfavorecidos que, de outra forma, não seriam alvos”.
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A política americana foi remodelada por uma linguagem beligerante, por vezes ameaçadora, de todos os lados, e por preocupações crescentes com a segurança, sublinhadas pelos assassinatos de Kirk e de uma congressista democrata e seu marido em Minnesota. Enquanto os aliados de Trump afirmam que a linguagem acusatória da esquerda incentiva a violência, a demonização por parte da direita infiltra-se a partir do Salão Oval. Em julho, Miller descreveu os participantes dos “protestos antifascistas” como “deformados de alguma forma — na aparência, no vestuário, nos trejeitos”.
Poucos dias após o assassinato de Kirk, o vice-presidente JD Vance pediu a punição de qualquer pessoa que “comemorasse” o crime. Centenas de pessoas que criticaram as posições políticas de Kirk on-line perderam seus empregos ou foram ameaçadas de perdê-los.
A Primeira Emenda protege protestos não violentos, mas Trump justificou ações violentas realizadas em seu nome. Antes de conceder indulto a quase 1.600 participantes do motim no Capitólio em 6 de janeiro de 2021, ele disse:
— Tudo o que eles estavam fazendo era protestar contra uma eleição fraudada.
‘Terroristas Domésticos’
Poucas semanas após Trump divulgar suas diretrizes de segurança, os promotores se basearam nelas em um caso que surgiu de um “protesto barulhento” de 4 de julho no centro de detenção de imigrantes de Prairieland, nos arredores de Dallas.
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Um grupo de ativistas de esquerda lançou fogos de artifício e pichou grafites anti-ICE nas instalações. Mas um dos manifestantes, um ex-fuzileiro naval, atirou e feriu um policial que havia apontado uma pistola para eles.
Os promotores haviam acusado os 11 ativistas de tentativa de homicídio, mas, após o assassinato de Kirk, apresentaram acusações diferentes. Identificaram os réus como “operativos” da “Célula Antifa do Norte do Texas” e acusaram a maioria deles de oferecer apoio material a terroristas — a primeira vez que leis antiterroristas foram usadas contra supostos membros da Antifa. Essas acusações acarretavam penas mais severas.
“Como o presidente deixou claro”, escreveu Pam Bondi, então secretária da Justiça, na plataforma social X na época, “a Antifa é uma organização terrorista de esquerda. Eles serão processados como tal.”
Quase imediatamente, críticos — incluindo alguns ex-promotores de terrorismo — expressaram preocupação com o fato de o governo estar usando uma definição vaga de antifascista para perseguir pessoas que não tinham nenhuma ligação clara além de uma ideologia compartilhada. Eles também disseram que, embora o protesto em Prairieland tivesse terminado em tiros, a maioria dos que enfrentavam acusações não havia cometido atos de violência.
Um dos réus, Daniel Sanchez Estrada, auxiliar de escola primária e casado com outra ré, sequer estava no centro de detenção quando o caso ocorreu. A única acusação contra ele era a de ter escondido uma caixa de fanzines anarquistas, que o governo apresentou como prova das crenças políticas dos réus. Ele foi condenado a 30 anos de prisão. Seus oito co-réus, que foram a julgamento, receberam penas que totalizam mais de 400 anos.
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No final do ano passado, o FBI estava conduzindo quase 30 outras investigações relacionadas às diretrizes do presidente, de acordo com um memorando interno. Agentes do FBI, do Departamento de Segurança Interna e da Receita Federal (IRS, na sigla em inglês) estavam trabalhando nelas por meio de um “centro de operações conjunto” em Washington.
“A violência política é um flagelo para a nossa democracia, e está cada vez mais organizada, radical e perigosa”, disse um porta-voz do Departamento de Justiça.
O sucesso do processo em Prairieland influenciou a investigação em Minnesota.
No ano passado, agentes mascarados do ICE percorriam as ruas, perseguindo imigrantes sem status legal permanente e, por vezes, quebrando janelas de carros. Manifestantes se reuniram em frente ao Edifício Whipple, a sede da agência em Minneapolis. Moradores locais se inscreveram para monitorar os agentes do ICE.
Após a morte de Renee Good e Alex Pretti por agentes federais, Miller e outros funcionários do governo os rotularam de terroristas domésticos. O Departamento de Justiça se recusou a investigar a morte de Good e só anunciou uma investigação sobre a morte de Pretti após protestos públicos.
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Mas o departamento começou a examinar os manifestantes com mais atenção, concentrando-se em grupos políticos de esquerda que, segundo as autoridades, estavam financiando os protestos.
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Investigadores do Departamento de Segurança Interna intensificaram uma operação de vigilância que utilizava agentes infiltrados para participar de reuniões onde as pessoas eram frequentemente gravadas fazendo pouco mais do que expressar opiniões, conforme mostram os registros judiciais.
“Uma mulher corpulenta, de aproximadamente vinte e cinco anos, falou sobre segurança operacional”, escreveu um agente sobre uma reunião em fevereiro em uma biblioteca, conforme mostram os documentos. “A mulher alertou os participantes para não dizerem nada na reunião que não diriam a um agente do ICE. A mesma mulher afirmou que havia começado recentemente um ‘Clube do Café’ onde as pessoas podem se conhecer em um nível mais pessoal.”
Segundo documentos judiciais, os investigadores monitoraram conversas em grupo de manifestantes no Signal e anotaram as placas dos veículos de pessoas que haviam expressado desprezo por agentes do ICE.
Na investigação sobre o financiamento, os investigadores obtiveram três anos de registos financeiros de dois grandes sindicatos tradicionais e de um grupo de ação climática, de acordo com documentos judiciais.
Em junho, os promotores acusaram 15 pessoas, algumas com ligações a essas organizações, de obstrução da aplicação das leis de imigração enquanto membros do movimento antifascista. Não foram feitas alegações de irregularidades por parte dos sindicatos ou do grupo ambientalista.
A acusação afirma que, em 23 de janeiro, alguns réus atiraram gelo em viaturas policiais no Edifício Whipple e também tentaram impedir o acesso dos agentes ao prédio. Os promotores não alegaram que algum dos acusados tenha ferido agentes, e alguns apenas participaram de reuniões ou discussões on-line.
Um dos réus, Erik Davis, professor de religião do Macalester College, disse em entrevista que os moradores de Minneapolis reagiram a uma operação de imigração “extrema e mortal”, mas que “organizar protestos, inclusive protestos de grande porte, não é crime”. Ele afirmou que ele e seus co-réus eram alvos devido ao seu ativismo, enraizado no anarquismo e na política trabalhista radical.
— O governo quer nos usar para enviar uma mensagem aos americanos de que eles não devem ousar protestar ou se opor ao regime, caso contrário, serão levados a julgamento — disse ele.
Assim como Kirk, o presidente se declarou defensor da liberdade de expressão, assinando uma ordem executiva no dia da posse, em 2025, reafirmando “o direito do povo americano de se expressar livremente”, após o governo Biden ter “desrespeitado os direitos de expressão”.
Jenin Younes, advogada que representou clientes — incluindo atuais funcionários do governo Trump — censurados nas redes sociais por publicarem o que o governo Biden considerou desinformação sobre a Covid-19, afirmou que essas violações da liberdade de expressão tiveram consequências.
— Mas não dá para comparar isso com a apresentação de acusações criminais, a expulsão de pessoas das universidades, a prisão delas e a tentativa de deportá-las — disse Younes, que agora dirige o Comitê Americano-Árabe de Combate à Discriminação. — O efeito intimidatório do que o governo atual fez é muito mais severo.
