É urgente que o governo articule uma iniciativa diplomática com países vizinhos, em especial Colômbia, Peru e Bolívia, para enfrentar o tráfico na Amazônia, hoje polo de distribuição de drogas. Essa é a principal conclusão do estudo “Amazônia brasileira: novos corredores e controle do narcotráfico transnacional”, da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC). As organizações criminosas há muito atravessaram as fronteiras. Sem integração regional, nenhuma política conseguirá enfrentá-las. “O narcotráfico na Amazônia se transformou em problema complexo e dinâmico”, diz Gabriel Funari, coordenador da GI-TOC na região.
A droga se aproveita da baixa vigilância na região desde os anos 1990, segundo o estudo. Foi quando os cartéis colombianos de Cali e Medellín, enfraquecidos, cederam espaço e avançou o narcoterrorismo, liderado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Não foi por acaso que Fernandinho Beira-Mar, líder do Comando Vermelho (CV) no Rio, acabou preso em 2001 na Colômbia, perto da Venezuela, numa região controlada pelas Farc. Beira-Mar negociava a troca de armas por cocaína. Duas décadas e meia depois, o estudo mostra como o CV se fortaleceu, ampliou sua presença na região e passou a usar portos do Amapá como base para despachar drogas ao mercado europeu.
Em março do ano passado, um submarino artesanal do tráfico, carregando 6,6 toneladas de cocaína de alta pureza, foi apreendido perto do arquipélago dos Açores. A carga, avaliada em R$ 2,2 bilhões, partira de Macapá. Traficantes também têm contratado mergulhadores profissionais para esconder drogas no casco de navios. Em abril de 2024, a Polícia Federal encontrou 150 quilos de cocaína no compartimento para captar água de um navio atracado no porto de Santana (AP), a 18 km de Macapá. Em junho de 2025, 400 quilos foram apreendidos numa área rural de Macapá. Mergulhadores se preparavam para esconder a droga em navios com destino a Portugal.
O CV entrou na Amazônia para driblar a vigilância de portos do Sudeste e se aproximar das fronteiras com países produtores de drogas. No Amapá, não existe escaneamento de contêineres, e inspeções são esporádicas. Corromper fiscais é mais fácil. O CV também evita choques com o PCC na “rota caipira” — pela qual drogas despachadas da Bolívia, Peru e Paraguai entram no Brasil via Mato Grosso do Sul e Paraná, trafegam por estradas vicinais até chegar a grandes rodovias rumo a portos como Santos.
A rota do Rio Solimões já não é a única na Amazônia. Não são apenas os rios que servem para transporte. Pistas de pouso clandestinas abertas na floresta facilitam receber drogas em pequenos aviões que vêm do outro lado das fronteiras — serviço que pode ser pago com o ouro de garimpos ilegais, também explorados pelo CV. Esse mesmo ouro pode servir para lavar o dinheiro das operações criminosas. Como as atividades ilegais se conectam, o combate a elas também precisa ser integrado e planejado em escala transnacional.
