MPE muda de posição e opina contra candidatura de Rueda por suposta ligação com milícia

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Rueda, presidente do União, quer partido com protagonismo na próxima eleição — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo


O Ministério Público Eleitoral (MPE) mudou de posição e passou a defender o indeferimento do registro de candidatura de Antônio Rueda (União) a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Em nova manifestação encaminhada ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) na última sexta-feira (18), a Procuradoria Regional Eleitoral sustentou que o candidato se beneficiou de uma estrutura político-territorial ligada a organizações paramilitares na Baixada Fluminense,. A avaliação do órgão é que as lideranças locais relacionadas às milícias poderiam ter empregado sua capacidade de mobilização territorial e coerção em benefício da candidatura de Rueda.

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O parecer foi apresentado depois que o TRE-RJ suspendeu a análise da candidatura e determinou a coleta de documentos e informações oficiais para verificar as acusações apresentadas contra Rueda no processo. Em uma primeira manifestação, o MPE havia opinado pela liberação da candidatura, por considerar que as acusações estavam baseadas em reportagens jornalísticas e certidões comuns, sem provas suficientes. A Procuradoria, porém, avaliou que as informações obtidas posteriormente em órgãos públicos alteraram o cenário do processo.

Na sessão de 11 de setembro, o TRE-RJ havia suspendido o julgamento do registro de Rueda, decidindo buscar novas informações antes de analisar a candidatura. A Corte determinou a busca de informações oficiais junto a órgãos como a Polícia Federal, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Justiça Estadual e a Prefeitura de Belford Roxo.

O objetivo era apurar se a candidatura do presidente nacional do União Brasil estava apoiada em uma estrutura política da Baixada Fluminense vinculada a organizações paramilitares. A decisão ocorreu no mesmo contexto em que o tribunal suspendeu o julgamento do registro de Márcio Canella (União), candidato a deputado estadual, para investigar suas relações políticas e administrativas com personagens associados à milícia.

Segundo a nova manifestação do MPE, documentos fornecidos pela Prefeitura de Belford Roxo confirmaram que Luiz Eduardo Santos de Araújo, conhecido como Eduardo Araújo, e Fábio Augusto de Oliveira Brasil, o Fabinho Varandão, ocuparam cargos de secretários municipais ao longo de 2025. Os dois haviam sido impedidos pela Justiça Eleitoral de disputar as eleições de 2024 em razão de condenações relacionadas à participação ou articulação de organizações paramilitares ou milícias. A Procuradoria também apontou a continuidade da atuação política dos dois homens na promoção da dobradinha eleitoral entre Rueda e Canella.

Para o MPE, permitir o registro nessas circunstâncias representaria uma forma indireta de contornar a regra constitucional que impede a influência de organizações paramilitares no processo eleitoral. A Procuradoria classificou a situação como uma possível “fraude” à norma constitucional.O parecer, no entanto, ainda será analisado pelo TRE-RJ. A manifestação do Ministério Público não equivale a uma decisão judicial definitiva sobre a candidatura.

Em sua manifestação no processo, Rueda afirmou que não há provas de que tenha cometido qualquer irregularidade. O candidato sustentou que os dois apoiadores atuaram por iniciativa própria em suas redes sociais pessoais e que não existe contra ele condenação, denúncia ou indiciamento criminal. A defesa também invocou o princípio da presunção de inocência e argumentou que a atuação de terceiros não poderia, por si só, impedir o registro da candidatura.

A defesa também sustenta que as informações solicitadas pelo próprio TRE-RJ não confirmaram a existência de coerção territorial em favor da candidatura. Segundo a manifestação, as 153ª, 154ª e 155ª Zonas Eleitorais de Belford Roxo não registraram ocorrências envolvendo ameaça ou violência, impedimento de propaganda, imposição de exclusividade territorial, coação de eleitores ou candidatos ou emprego de homens armados em benefício de Rueda ou Márcio Canella.

A Prefeitura de Belford Roxo, por sua vez, informou que Eduardo Araújo e Fabinho Varandão foram exonerados em 30 de setembro de 2025 e não mantinham vínculo com o município em 2026. A defesa ressalta que Rueda nunca ocupou cargo na prefeitura e sustenta que não há relação entre sua candidatura e as nomeações dos dois agentes.

A relação com Canella é central na primeira disputa eleitoral de Rueda. Pernambucano e presidente nacional do União Brasil, o advogado transferiu seu domicílio eleitoral para o Rio em janeiro deste ano e concorre pela primeira vez a um cargo eletivo. Antes da campanha, nunca havia disputado eleições proporcionais ou majoritárias.

A estratégia de Rueda no estado se apoia principalmente na Baixada Fluminense, onde Canella construiu sua carreira política. Em 26 de agosto, os dois participaram de uma agenda em Belford Roxo, no bairro Xavantes, diante de cerca de 60 pessoas. Na ocasião, Rueda pediu votos para si e para o aliado, dizendo que não pretendia ser apenas um deputado federal do Rio, mas “o deputado federal de Belford Roxo”.

— Peço com muita humildade que vocês deem uma oportunidade para o Canella ser o deputado estadual mais bem votado do Rio e para o Rueda ser eleito, porque eu não serei eleito o deputado federal do Rio de Janeiro, serei o deputado federal de Belford Roxo — afirmou.

Desde o início da campanha, Rueda passou a participar de agendas frequentes ao lado de Canella, apresentando-se como “o federal do Canella”. O ex-prefeito de Belford Roxo, por sua vez, declarou que o dirigente partidário era seu “irmão de muitos anos” e defendeu a necessidade de eleger alguém do grupo para atuar em Brasília.

A aproximação entre os dois antecede a eleição. Rueda já havia participado, em setembro de 2025, de uma série de inaugurações ao lado de Canella, então prefeito de Belford Roxo. Também afirmou ter atuado na articulação, em Brasília, para a liberação de R$ 900 milhões para o município.

Em julho, o ex-prefeito foi preso em uma operação da Polícia Federal que investigava uma rede suspeita de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis. Segundo reportagens do GLOBO, Canella era investigado na Operação Unha e Carne, que apura uma organização criminosa suspeita de movimentar mais de R$ 7,6 bilhões. Ele também havia sido preso por porte ilegal de arma de uso restrito, após ser flagrado com um fuzil no carro, e deixou a prisão posteriormente.

A prisão comprometeu a participação de Canella na chapa bolsonarista ao Senado. Ele acabou anunciando a disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio, enquanto Rueda manteve a aposta na parceria eleitoral com o político da Baixada.

Mudança para o Rio e atuação nos bastidores

A escolha do Rio como domicílio eleitoral ocorreu em meio à trajetória de Rueda como dirigente partidário, e não como político com carreira construída no estado. Nascido no Recife, ele consolidou sua influência em Brasília e chegou à presidência nacional do União Brasil em 2024.

O advogado afirma manter uma relação antiga com o Rio e ter moradia na cidade desde 2014. Em 2022, comprou um apartamento no edifício onde funcionava o Hotel Glória, ainda em obras. O imóvel é o único bem declarado por ele no estado, segundo o levantamento patrimonial publicado pelo GLOBO em agosto.

A transferência do domicílio eleitoral também ocorreu em um cenário de articulação política mais ampla. Rueda manteve contatos com grupos de diferentes campos da disputa fluminense, em um momento em que o União Brasil optou por não formalizar apoio a um dos principais candidatos ao governo. Ele apareceu em agendas ligadas tanto ao entorno de Eduardo Paes (PSD) quanto ao grupo bolsonarista.

A candidatura é a estreia de Rueda nas urnas. Na declaração apresentada à Justiça Eleitoral, o dirigente informou possuir R$ 75,6 milhões em bens, o maior patrimônio declarado até então entre os candidatos a deputado federal pelo Rio. A maior parte dos imóveis está localizada fora do estado, incluindo propriedades em Pernambuco, Alagoas e Brasília.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/21/mpe-muda-de-posicao-e-opina-contra-candidatura-de-rueda-por-suposta-ligacao-com-milicia.ghtml

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