O Brasil está precisando de mais garis.
E não apenas nas ruas, praças e calçadas. A sujeira também se acumulou na máquina pública, que parece especializada em transformar o simples em complicado e pesar no bolso do cidadão.
O país precisa ser limpo da corrupção, do desperdício, dos privilégios e da velha cultura de tratar o dinheiro público como se não tivesse dono.
É preciso uma faxina também na burocracia inútil.
Não se trata de acabar com regras ou controles. Eles são necessários. Mas quando o Estado cria dificuldade demais, abre espaço para quem oferece a “facilidade”. É nesse ambiente que prosperam atravessadores, privilégios e corrupção — e também aqueles que atropelam a Constituição.
A fórmula é conhecida: cria-se uma dificuldade, alguém encontra um caminho mais rápido e aquilo que deveria ser um direito ou serviço passa a depender de quem conhece “a pessoa certa”.
O Estado deveria funcionar ao contrário: dificultar o errado e facilitar o certo.
Deveria combater fraudes sem transformar o cidadão honesto em mero pagador de imposto, fiscalizar sem transformar o pequeno empreendedor em especialista em formulários e controlar o dinheiro público sem desperdiçar recursos.
E, acima de tudo, deveria entregar.
Dois episódios recentes no Rio ajudam a entender por que o Brasil precisa de mais garis.
Um deles entrou no mar em meio à ressaca e arriscou a vida para salvar um cachorro.
Outro gari encontrou uma bolsa com dinheiro e devolveu ao dono.
Atitudes simples. Deveriam ser normais. Mas viraram notícia justamente porque honestidade e solidariedade, em tempos de dinheiro na cueca, ganharam status de acontecimento extraordinário.
Um poderia ter pensado que o cachorro não era problema dele.
O outro poderia ter repetido o velho argumento de que “achado não é roubado”.
Não fizeram isso.
E aí está a ironia: enquanto trabalhadores que ganham pouco demonstram que caráter não depende de salário, cargo ou poder, o país continua convivendo com escândalos envolvendo justamente aqueles que deveriam dar exemplo.
A diferença está na escolha.
Uns encontram uma oportunidade para ajudar. Outros, para levar vantagem.
Uns limpam o que os outros sujam. Outros sujam aquilo que deveriam administrar.
É aí que a história dos garis deixa de ser apenas uma história sobre garis.
