Há mulheres que parecem ter feito um pacto com a vida. São chiques, ativas, animadas, cheias de histórias e de gente ao redor. Eulália Eugênia é uma delas até que chega o velório da grande amiga. É ali, diante do caixão, que uma ideia incômoda começa a aparecer: o fim existe. A fila pode ser curta ou longa, não importa. Ela está lá. E a grande amiga, primeira em tantas coisas, é também a primeira dessa fila.
Carlos Jardim escreve e dirige “Mande Notícias do Mundo de Lá”, um jogo delicioso para Arlete Salles. Um jogo que permite à atriz levantar, sentar, andar, parar, mudar de humor e de opinião. Ser crítica, engraçada, triste, fiel, infiel, solidária, inconformada. Ser, enfim, uma mulher inteira.

Arlete ocupa o palco com a experiência de quem conhece profundamente as mulheres e suas contradições. Jardim, por sua vez, sabe explorar cada possibilidade desse corpo e dessa atriz.
O figurino de Antônio Rocha é lindo. Preto e vermelho, exuberante, faz de Eulália uma espécie de Carmen em luto. É uma mulher que chega diante da morte ainda vestida de vida.


E é justamente aí que o espetáculo ganha força. Não estamos diante de uma história sobre morrer, mas sobre o que fazemos da vida quando percebemos que ela tem fim. Há amor, amizade, certezas e incertezas. Há riso e tristeza. Mas, sobretudo, há uma atriz celebrando a possibilidade de continuar em cena. Mande Notícias do Mundo de Lá é, antes de tudo, uma prova de vida.
Falamos com Carlos Jardim:
1- Você percebeu quando queria deixar de ser apenas jornalista e se tornar também dramaturgo?
Há cerca de cinco anos, comecei a desenvolver alguns projetos na área cultural, os primeiros deles na própria Globo, onde trabalhei por 29 anos, até me aposentar do jornalismo. Fiz parte da equipe de roteiristas das duas últimas temporadas da Escolinha do Professor Raimundo e fui diretor e roteirista de um documentário sobre Maria Bethânia para a Globo Filmes. Paralelamente, comecei a escrever e dirigir para o teatro. Minha primeira peça estreou em 2023. Neste ano, percebi que estava preparado para deixar o jornalismo, que amo, e me dedicar exclusivamente à arte. Bethânia diz no meu filme: “A arte salva”. Ela tem toda a razão.
2 – O que mudou na sua maneira de contar uma história quando passou do jornalismo para a ficção? O jornalista continua vivendo dentro do dramaturgo?
O jornalismo exige de nós muita objetividade. A dramaturgia pede uma carpintaria maior no texto, mais camadas de emoção. Mas, nos dois casos, estamos falando de sentimentos e vidas humanas. Hoje, o jornalista “apita” menos (risos), mas, como escrevi durante muitos anos para a televisão, tenho um estilo mais direto: não faço frases muito longas nem gasto muito tempo com tramas paralelas. Ainda não descobri se isso é bom ou ruim (risos).
3 – Quanto de realidade existe em suas histórias? Você já viveu, testemunhou ou ouviu alguma situação que acabou se transformando em ficção?
Há um pouco das minhas experiências pessoais em tudo o que escrevo, mas isso é apenas um ponto de partida. Para interessar a mais pessoas, as histórias precisam ser plurais. Sou muito observador: reparo em detalhes do comportamento de amigos e até de estranhos. Misturo tudo isso, acrescento algumas pitadas de humor e a receita está pronta. Não abro mão do humor. Acho que é uma maneira muito eficiente de provocar reflexão.
4 – Você também dirige a montagem. Até que ponto dirigir o próprio texto é uma maneira de preservar aquilo que imaginou ao escrevê-lo?
Quando escrevo, já imagino as situações, a movimentação em cena, as pausas nas falas, tudo. Claro que, quando chegamos à sala de ensaio, muita coisa muda. Percebemos o ritmo com mais precisão e também precisamos adaptar tudo ao estilo de cada ator ou atriz. Nesse momento, o diretor identifica nuances que o próprio autor não havia percebido. A experiência é mais rica quando estamos dispostos a mudar os rumos sem sofrimento, entendendo que o objetivo é tornar a peça melhor.
5 – Depois de experimentar jornalismo, ficção, dramaturgia e direção, o que ainda falta contar?
Nossa, ainda há muitas histórias a contar. Tenho outra peça e três musicais escritos, prontinhos, à espera de patrocínio. Também estou escrevendo um novo monólogo. Ainda tenho muita coisa para contar. Peço aos céus que não me faltem inspiração — nem patrocínio! (risos)
Serviço:
Teatro dos Quatro, o Shopping da Gávea
Sextas-feiras e sábados, às 20h; domingos, às 19h

