Conflito de interesse, risco de veto e 777: em perguntas e respostas, o EXTRA explica polêmicas da negociação da SAF do Vasco

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Entre uma partida e outra, a atenção do torcedor vascaíno sai dos gramados e vai para o Judiciário. O clube passa, ao mesmo tempo, por um processo de recuperação judicial (RJ) e de venda da SAF. O primeiro foi a saída encontrada num momento em que o cruz-maltino já não conseguia mais dar conta de suas obrigações financeiras. O segundo é a aposta de solução no longo prazo.

Marcos Lamacchia é o principal interessado em assumir a SAF. A proposta da Almirante Participações, da qual ele é sócio e fundador, servirá como diretriz do processo de venda. E é a partir daí que a história recebe questionamentos e se perde num mar de narrativas espalhadas nas redes sociais por defensores e opositores.

O investidor é enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, o que naturalmente levanta debate sobre conflito de interesses. A presença dos dois em campo, antes do jogo entre os times no último domingo, só esquentou a discussão.

Paralelamente, o Vasco vem tendo dificuldades para obter seu terceiro empréstimo desde que entrou em RJ. O primeiro, de R$ 80 milhões, foi concedido pela Crefisa (de José Roberto Lamacchia, pai de Marcos e avalista da compra da SAF). O segundo, de R$ 40 milhões, veio da própria Almirante, que também faria o próximo (R$ 150 milhões). Os questionamentos vão desde se este dinheiro não configura venda antecipada até ao direito do clube em fazer novos investimentos neste momento. O EXTRA tenta remover os ruídos e esclarecer a situação.

Como será a venda da SAF?

Como o Vasco está em RJ, a venda precisa ocorrer por meio de um processo competitivo, cujas datas serão definidas pela Justiça. As bases do acordo celebrado entre a Almirante e a diretoria cruz-maltina serão usadas como regras mínimas. Ou seja: quem quiser concorrer, terá que fazer lance superior. E Lamacchia terá o direito de cobrir qualquer oferta. Isso porque a venda ocorre na modalidade stalking horse, mecanismo usado para garantir que os demais possíveis compradores não façam ofertas inferiores.

Quais as principais bases da proposta da Almirante?

Em linhas gerais, o acordo por 90% da SAF prevê: investimento de R$ 500 milhões no futebol, conversão do empréstimo de R$ 80 milhões em ações, R$ 120 milhões no CT profissional, R$ 30 milhões na estrutura da base, pagamento das dívidas de dentro e de fora da RJ, obrigação de cobrir eventual déficit no fluxo de caixa por cinco anos e proibição de distribuir lucros entre os acionistas e de revenda da SAF por dez anos.

Quem aprova a venda da SAF?

Definido o vencedor dentro do processo competitivo, a proposta passa por votação no Conselho Deliberativo e na Assembleia Geral de sócios do Vasco. Além disso, a Anresf (agência que fiscaliza o cumprimento das normas do sistema de sustentabilidade financeira) também tem que dar seu aval. O órgão precisa checar se a aquisição não configura conflito de interesse.

A ligação entre Lamacchia e Leila compromete a venda?

O regulamento da Anresf proíbe que dois ou mais clubes numa mesma divisão sejam controlados pela mesma pessoa, família ou empresa. Embora não sejam mãe e filho, o vínculo entre os dois esbarra nestas normas. “Este talvez seja o maior calcanhar de Aquiles desta situação. No código civil, enteado está no mesmo grau de parentesco do que seriam os filhos”, explicou o advogado Marco Antônio Dias, especializado em direito desportivo, ao GLOBO.

O fato de Leila não ser dona de uma SAF pode livrar a venda desta regra?

Não. O regulamento do fair play financeiro veta controle ou influência sobre dois ou mais clubes, o que é mais abrangente do que a mera propriedade de SAFs.

Quando a Anresf irá se posicionar?

Em tese, a agência tem que ser comunicada pelo clube após qualquer alteração societária. Mas a própria Anresf se antecipou e solicitou uma série de informações. Uma das duas turmas de julgadores está debruçada sobre os documentados e deve se pronunciar nos próximos dias.

Se o conflito for constatado, a venda será vetada?

Não necessariamente. Há alternativas. Uma das mais comuns é um mecanismo chamado blind trust (fundo cego). Nele, o acionista fica afastado da administração e de qualquer conselho. A gestão seria tocada sem contato com o proprietário. Esta medida, que poderia vigorar até o fim do mandato de Leila no Palmeiras (dezembro de 2027), está prevista no regulamento.

Há ilegalidade nos empréstimos da Crefisa e da Almirante, envolvidas no processo competitivo?

Não. Os empréstimos DIP (concedidos a empresas em recuperação judicial) são previstos. Mas o fato de o dinheiro vir de potenciais compradores da SAF pode, sim, inviabilizar o surgimento de outros interessados. No acordo entre Vasco e Almirante, para que um terceiro saia vencedor ele precisaria não só fazer proposta que não seja coberta por Lamacchia como ainda restituir o dinheiro emprestado. Hoje, a quantia está em R$ 120 milhões. Ao negar o terceiro pedido, a juíza Simone Chevrand inclusive argumentou que o total chegaria a R$ 270 milhões e praticamente inviabilizaria a concorrência, configurando uma venda disfarçada. “Do ponto de vista legal não há nenhuma irregularidade na tomada do empréstimo por meio desse parceiro que é a Almirante. A ideia é liberar valores para que o Vasco tenha condições de se manter na Série A e evitar os prejuízos de um eventual rebaixamento. Mas claro que também é possível enxergar que a empresa está tentando obter alguma vantagem no processo competitivo”, refletiu o advogado Adolpho Touzon, ao GLOBO.

Lamacchia pode desistir de investir no Vasco em caso de rebaixamento?

No acordo, o negócio não está condicionado à permanência na Série A. Inclusive, o prazo para conclusão foi estipulado em 30 de setembro, quando o Brasileirão ainda estará em curso.

O fundo teve seus direitos suspensos pela Justiça. Mas detém 31% da SAF, enquanto o clube associativo, que hoje é quem administra o futebol, é dono de 30%. Outros 39% estão em disputa na arbitragem. O Vasco criou uma nova SAF para a qual irão todos os ativos. É esta que terá 90% de suas ações vendidas. A 777 já notificou Lamacchia para avisar que, embora suspensa, segue como uma das acionistas e que a eventual venda pode acabar contestada na Justiça. Segundo o presidente vascaíno Pedrinho, o investidor já conversa com o fundo, numa sinalização de que um acordo deve ser costurado entre as partes. “A primeira SAF vai virar só uma casca. E a 777 não vai querer sair dessa história sem nada em mãos. Porque, afinal de contas, eles colocaram o dinheiro lá. Não foram os R$ 700 milhões, mas foram pelo menos R$ 300 milhões. A compra sem esse acordo seria muito ruim para todos”, comentou o advogado Pedro Teixeira, presidente da Comissão de Estudos sobre SAF da OAB/RJ.



Com informações da fonte
https://extra.globo.com/esporte/vasco/noticia/2026/08/conflito-de-interesse-risco-de-veto-e-777-em-perguntas-e-respostas-o-extra-explica-polemicas-da-negociacao-da-saf-do-vasco.ghtml

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