Teatro, por Claudia Chaves: “O Alceu é muito maior do que o espetáculo”

Tempo de leitura: 9 min


Pernambuco entra em cena em muitas histórias. “Anunciação” prefere fazer uma cultura inteira entrar em cena.

É essa, talvez, a sua maior beleza: a presença de uma verdadeira célula pernambucana, de Recife, Olinda e seus arredores, pulsando no palco carioca.

Idealizado por Miguel Colker, o espetáculo dá um salto vigoroso para o teatro sem se preocupar em destacar o homem Alceu Valença. Prefere revelar a amplitude e a sofisticação da cultura que o formou.

(Any Duarte/Divulgação)

Duda Maia, na direção artística, transforma os corpos do elenco em uma espécie de instalação viva. São danças, gestos, deslocamentos e ritmos que parecem trazer para o palco as ruas, as ladeiras e as festas de Pernambuco.

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Com uma exceção deliciosa: Luiza Loroza. Carioca, talentosa, coautora do texto e uma artista múltipla, canta, dança, toca e interpreta com aquele inconfundível molejo carioca. Introduz no universo pernambucano de “Anunciação” uma outra corporeidade, outro sotaque musical, outra maneira de ocupar a cena. É como se o Rio entrasse na festa pernambucana sem pedir licença — e fosse muito bem recebido.

Quatro artistas em trajes vibrantes de dança, com tons de amarelo e laranja, se apresentam em um palco iluminado. Ao fundo, uma cortina de círculos coloridos cria um efeito cintilante.
(Marcelo Rodolfo/Divulgação)
Um grupo de sete músicos e dois dançarinos em trajes amarelos e coloridos se apresenta em um palco com fundo de cortinas douradas. Três homens tocam guitarras e violão, uma mulher toca flauta e outra violão. Dois dançarinos se beijam no chão, em primeiro plano
(Marcelo Rodolfo/Divulgação)
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O texto de Duda Rios e Luiza Loroza é um achado. Tem estrutura de cordel-poema, brinca com as palavras e encontra uma sofisticada musicalidade na língua. Há ecos de João Cabral nessa construção que mistura o popular e o belo sem transformar nenhum dos dois em caricatura.

E a música completa o encantamento: sanfona, sopros, percussão e vozes constroem uma paisagem sonora que parece nascer do próprio chão pernambucano. Beto Lemos merece destaque: além de integrar o elenco, assina a preparação e os arranjos vocais.

O cenário de Anderson Dias é simples e surpreendente. Nas laterais, serpentinas e painéis de confete anunciam a festa. É Recife e Olinda se encontrando diante dos nossos olhos.

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Dois homens de cabelos escuros, vestindo roupas amarelas vibrantes com franjas coloridas, tocam violão e cantam em um palco iluminado por luzes amarelas e roxas, com cortinas vermelhas ao fundo
(Marcelo Rodolfo/Divulgação)
Dois homens em trajes amarelos, descalços, em um palco com cortinas marrons. Um está ajoelhado à esquerda, olhando para frente com expressão surpresa. O outro, à direita, toca um violoncelo laranja, com cabelo cacheado e barba, olhando para o instrumento
(Any Duarte/Divulgação)

Karen Brusttolin, no figurino, revela mais uma vez sua capacidade criativa e essa rara habilidade de encontrar uma inspiração diferente para cada espetáculo. Aqui, mergulha no universo pernambucano e transforma cores, referências populares e elementos locais em figurinos que ajudam a construir a identidade daquele povo em cena.

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O sol, a luz e o carnaval aparecem também nos figurinos amarelos, que ajudam a desenhar esse povo alegre, colorido e inventivo.

O elenco reúne Duda Rios, Luiza Loroza, Maria Pérola, Juzé, Jef Lyrio, Natascha Falcão, Beto Lemos e Rafael Lorga.

Cinco artistas, três homens e duas mulheres, se apresentam descalços em um palco iluminado por luz amarela, com cortinas douradas ao fundo. Dois homens tocam guitarra elétrica, uma mulher canta com vestido de babados, outro homem toca violão e uma mulher sentada toca um instrumento de percussão. A plateia aparece em silhueta no primeiro plano
(Any Duarte/Divulgação)
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O roteiro acompanha um menino poeta que se entrega à música, mas está sempre dando voltas pela beleza. E há ainda o jogo das palavras de cinco letras, lançado como desafio e convertido em elemento fundador da narrativa.

Até que chegamos a Alceu. Ou melhor: ao universo de Alceu, essa mistura aparentemente impossível de poesia, música, loucura, festa, tradição e invenção. “Anunciação” não pretende explicar Alceu Valença. Faz algo mais interessante: deixa que sua música, sua poesia e sua terra nos atravessem.

Um grupo de sete músicos em palco, vestindo roupas amarelas e saias com fitas coloridas. O vocalista central, de barba, canta com os braços erguidos. Outros tocam guitarra, violino, acordeão e percussão. Instrumentos como violão e violoncelo estão no chão. O fundo tem uma cortina de círculos coloridos
(Marcelo Rodolfo/Divulgação)

É música, talento, alegria, paixão, poesia e beleza. Corra lá, como corremos pelas ladeiras do belo carnaval de Olinda. É puro prazer.

Miguel Colker é o primeiro showrunner do teatro. Idealiza, cria, junta a equipe e ainda cuida das burocracias da produção. Foi dele a ideia de transformar o universo de Alceu Valença em espetáculo.

1. Quando surgiu a ideia de transformar Alceu em espetáculo?

A ideia surgiu quando eu estava digitalizando o acervo fotográfico do meu pai (Cafi, 1950–2019), no pós-pandemia, e com vontade de voltar a fazer teatro. Eu estava digitalizando especificamente o acervo que meu pai tem do Alceu. Eles são amigos desde o início dos anos 70. E, nesse processo de ficar vendo essas imagens, eu pensava: “Nossa, olha isso! Olha essa foto do Alceu com essa idade, nesse lugar, naquele outro lugar, as capas de disco, os ensaios das capas de disco”. Aí eu olhei e falei: “Cara, o Alceu, esse doido, merece um espetáculo de teatro”. Ele tem tantos personagens dentro das músicas dele!

2. Quanto do seu pai e do poeta Alceu estão presentes no espetáculo?

Eu acredito que existe o máximo que a gente conseguiu colocar do poeta dentro do espetáculo. O Alceu é muito maior do que o espetáculo, assim como todo artista é muito maior do que a obra que você vai fazer sobre ele. Mas você faz um recorte, uma curadoria. E quanto do meu pai tem? Tem muito. Porque, durante todo o processo, eu falava dele. Porque, para os pernambucanos, Pernambuco não é um estado, é um país. Recife é a capital do país e Olinda é a joia, como se fosse a joia do Império Pernambucano. Eu cresci ouvindo isso do meu pai.

3. Você assumiu a idealização e conduziu a criação do espetáculo. Como foi trabalhar com essa equipe e dar liberdade aos artistas?

Fico muito feliz de ter conduzido a idealização desde o início. Fui seguindo a minha intuição sobre como achava que a gente deveria montar e com qual equipe esse espetáculo deveria trabalhar. A minha função, na verdade, depois de juntar esse grupo, foi dar muita liberdade e deixar todos muito à vontade. Porque é sobre isso que é o Alceu. Está todo mundo ali com muito desejo de fazer esse projeto. E, quando o ser humano tem muito desejo, tesão mesmo, real, coisas bonitas costumam sair.

4. Seu pai fotografava artistas e você hoje cria espetáculos com artistas. Existe uma continuidade entre esses dois olhares?

Totalmente. Acho que você pontuou muito bem. Meu pai gostava de estar junto com os artistas nesse lugar de amizade, de proximidade. Você vê que, nas fotos dele, há muitas imagens dos artistas em situações casuais: em casa, no bar, bebendo, numa festa. Eu também tenho isso com os artistas, mas gosto mais dessa parte da produção, de criar, de transformar alguma coisa com eles, de juntar as pessoas, ir para um palco e fazer algo. Então, existe uma conexão total entre esses olhares. A diferença é que eu não quis fazer fotografia. Meu pai até tentou. Quando eu era pequeno, ele me deu uma câmera fotográfica. Mas não era a minha onda. A minha onda não era ficar presa a uma câmera. Era ficar livre.

5. Quando a matéria-prima é a vida de um artista tão próximo da história da sua família, como transformar memória e afeto em dramaturgia sem perder a liberdade de criar?

Na verdade, só fazendo uma correção: eu não sou amigo do Alceu. O amigo do Alceu é meu pai. Mas, de alguma forma, também estou transformando memória e afeto em dramaturgia por causa dessa relação do meu pai com o Alceu. E com total liberdade para criar, com a liberdade doida de como os dois eram. É um espetáculo sobre o Alceu, mas também sobre qualquer outro artista pernambucano que transitou por Recife, por Olinda, pela música, pelo audiovisual, pelas artes visuais e pelo Brasil inteiro. Porque, ao fazer um espetáculo sobre o Alceu, resolvemos não contar a história dele, mas falar sobre um artista. E tem uma brincadeira no texto: é sobre Alceu, mas, se você embaralha as letras de outra forma, vira “caule”. É sobre o caule que promove a seiva artística de qualquer um desses artistas.

Serviço:

Teatro Carlos Gomes

Sexta: 19h
Sábado: 17h e 20h
Domingo: 17h
Segunda (extra): 19h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-o-alceu-e-muito-maior-do-que-o-espetaculo/

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