Ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello para o Palácio do Planalto e homem forte durante o breve governo do primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura, o advogado Paulo César Farias, mais conhecido como PC Farias, foi encontrado morto com um tiro no peito no dia 23 de junho de 1996, há 30 anos, na sua mansão na Praia de Guaxuma, em Maceió, capital de Alagoas. Ao seu lado, também morta com um disparo, estava sua namorada, a comerciante Suzana Marcolino.
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Segundo o laudo preliminar sobre o caso, Farias foi morto enquanto dormia. O empresário de 50 anos estava de pijama, do lado esquerdo da cama, dormindo de barriga para cima e com os braços abertos. Deitada ao lado dele, estava a namorada, de 28 anos, com a arma supostamente usada no crime entre as pernas. A bala atravessou-lhe o pulmão e atingiu a parede de madeira do quarto. Os corpos foram encontrados pelos seguranças da casa por volta das 11h daquele domingo.
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PC estava em liberdade condicional. Réu em processos por crimes financeiros, sonegação fiscal, falsidade ideológica e enriquecimento ilícito, ele era figura chave na rede de corrupção montada no governo Collor, que tomara posse em 1990 e sofrera impeachment em 1992. Estima-se que, nos 30 meses da gestão do “caçador de marajás”, o esquema PC tenha arrecadado, de empresários, o equivalente a US$ 8 milhões. Além disso, teria movimentado US$ 1 bilhão dos cofres públicos.
As denúncias de corrupção partiram do próprio irmão e arquiinimigo do presidente, o empresário Pedro Collor, que revelou os detalhes de uma rede de tráfico de influências no governo. Após a posse de Collor, as chamadas “sobras de campanha”, somadas a uma fortuna obtida através de transações com usineiros, foram depositadas na conta da EPC, empresa de PC Farias, que já havia sido tesoureiro de Collor na sua campanha para o governo de Alagoas.
A EPC, por sinal, chegaria a faturar US$ 55 milhões. No decorrer do governo, o esquema PC continuou arrecadando propinas, engordando contas bancárias de políticos e pagando as despesas pessoais de Collor e de sua mulher, Rosane. Com a extinção do cheque ao portador, o esquema PC começou a usar “fantasmas”. Estes movimentaram pelo menos US$ 32,2 milhões.
Após o impeachment e a renúncia de Collor, PC Farias fugiu do país num bimotor pilotado pelo sócio Jorge Bandeira de Mello. No dia 30 de junho de 1993, um juiz da 10ª Vara Federal de Brasília decretou a prisão preventiva do ex-tesoureiro. No dia 5 de agosto, foi a vez de o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar a prisão de PC e Bandeira. Localizado em Londres, no dia 20 de outubro de 1993, pelo repórter Roberto Cabrini, da TV Globo, a quem concedeu entrevista exibida no “Jornal Nacional”, Farias foi deportado e, posteriormente, preso em Bancoc, na Tailândia.
A morte de PC aconteceu dias antes de ele depor à Justiça sobre as ligações entre firmas envolvidas no esquema e o governo Collor. A investigação sobre o crime na Praia de Guaxuma, porém, tornou-se um duelo de laudos opostos. Um relatório do perito Badan Palhares, conhecido por identificar corpos de desaparecidos da ditadura, dizia que Suzana teria matado PC e se suicidado (ela teria descoberto que o ex-tesoureiro tinha uma amante). Mas os peritos George Sanguinetti e Ricardo Molina afirmaram que, pela posição dos corpos, a hipótese de assassinato seguido de suicídio era inviável.
Quatro policiais militares que faziam a segurança particular de PC Farias e estavam na casa de paia em Maceió na madrugada do duplo assassinato foram acusados de envolvimento no crime pelo Ministério Público. Para o órgão, o ex-tesoureiro havia sido assassinado por “queima de arquivo”. Os agentes foram levados a júri popular em maior 2013 e considerados inocentes pelos jurados, que, no entanto, também descartaram a hipótese de crime passional. Para eles, Farias foi mesmo morto em um caso de duplo homicídio, mas, até hoje, os verdadeiros culpados não foram encontrados.

