Correr estraga o joelho? Alongamento evita lesão? Dor no começo é normal ou sinal de alerta? Às vésperas da Maratona do Rio, essas perguntas circulam com ainda mais força.
Para responder a essas dúvidas, conversei com o ortopedista e maratonista Sergio Maurício, especialista da Maratona do Rio há 10 anos. Em 2023, também foi embaixador dos 42 km. Ê isso é o mais legal: Sergio é daqueles médicos que não fala de corrida apenas a partir do consultório. Aliás, vira e mexe, cruzo com ele correndo na Lagoa.
A primeira pergunta talvez seja uma das mais antigas entre corredores e não corredores: afinal, correr acaba com o joelho? “Esse é um mito que já foi derrubado faz tempo. Existem duas revisões de literatura, uma da revista britânica de medicina do esporte e outra da revista americana de medicina do esporte, ambas com mais de 10 anos, que mostram que a corrida não é um fator de risco para o desgaste da articulação. Isso não significa que a pessoa não vai ter desgaste, mas que ela teria de qualquer forma, mesmo fazendo esporte”, explica.
Se a corrida, por si só, não deve ser tratada como vilã, o modo como muita gente começa a correr merece mais atenção. A empolgação dos primeiros treinos costuma vir acompanhada de uma percepção enganosa: o fôlego melhora antes de músculos, tendões e articulações estarem prontos para acompanhar a evolução.
“Nosso sistema músculo esquelético demora mais para ganhar condicionamento que nosso sistema respiratório. O corredor iniciante começa a gostar do esporte e evoluir, porém com aumentos empíricos de intensidade e volume, não respeitando o tempo do corpo”, afirma.

É justamente nesse descompasso que aparecem as primeiras queixas. Canelite, dor na frente do joelho, condromalácia, tendinite do Aquiles, fascite plantar e edema ósseo estão entre os problemas mais frequentes para quem está começando. Mais do que azar ou fragilidade, muitas dessas lesões têm relação com pressa, falta de progressão adequada e ausência de fortalecimento.
“Eu valorizo qualquer tipo de fortalecimento muscular, desde que seja bem feito. Seja na musculação, no pilates ou no funcional da praia, o importante é que os grupos musculares sejam todos trabalhados e que de preferência tenham exercícios em cima de uma única perna, o mais próximo possível da mecânica da corrida”.
Sobre o alongamento, outro tema cercado de certezas absolutas, Sérgio faz uma ponderação importante. Ele não condena a prática, mas tira dela o peso de solução mágica contra lesões. “O alongamento pode até ser feito como conforto, mas as evidências da literatura não mostram nenhum efeito na prevenção de lesão. A não ser que a pessoa tenha um encurtamento fora da normalidade. Aí eu acho que vale a pena”, diz.
Outro aprendizado essencial para quem corre é entender a diferença entre um desconforto passageiro e uma dor que merece investigação. No início, algum incômodo pode fazer parte do processo de adaptação do corpo, mas há sinais que não devem ser ignorados.

“É natural ter algumas dores no início. No entanto, aquela dor que incomoda durante o treino ou após o treino e na corrida seguinte não está mais lá não me preocupa. Já a dor que dura 7 a 10 dias, faz mancar, piora progressivamente a cada treino ou quando o corpo esfria me preocupa e normalmente é sugestiva de lesão, mesmo que pequena”.
A vantagem de prestar atenção cedo é que, muitas vezes, ainda dá para ajustar a rota sem abandonar completamente a corrida. “Gosto de avisar que é muito mais fácil tratar uma lesão pequena do que uma lesão grande. Na maioria das vezes, quando a pessoa procura cedo, a gente consegue manter a corrida com uma menor demanda. Mas, quando a dor já está muito forte, aí não tem jeito. Precisa parar”.
“O maior cuidado que o corredor na reta final para a maratona precisa ter é não inventar moda. Já está totalmente treinado e é impossível ganhar qualquer tipo de condicionamento físico nessa fase. Não é hora de compensar o treino perdido, acelerar mais do que o usual do treino ou acelerar treinos regenerativos”.
Se para iniciantes o desafio é conter a pressa de evoluir, para quem está na reta final da Maratona do Rio a tentação costuma ser outra: querer compensar, testar, acelerar ou resolver em poucos dias aquilo que deveria ter sido construído ao longo de meses.

A essa altura, o melhor treino é chegar inteiro. Dores localizadas, progressivas ou que pioram no dia seguinte ao esforço precisam ser avaliadas com seriedade, não empurradas para depois da prova. “Independente do lugar, aquela dor localizada, progressiva, que piora mecânica ou que aumenta no dia seguinte normalmente é indicativa de lesão. Sugiro procurar um diagnóstico e entender se é uma lesão que, se você correr a prova, pode estar correndo um risco ou não”.
O medo de ouvir um “não corra” ainda afasta muita gente do consultório, mas Sérgio lembra que a medicina do esporte não trabalha para tirar o corredor da rua sem necessidade. Muitas vezes, a avaliação serve justamente para permitir ajustes seguros.
“As pessoas têm medo de ir ao médico e ele dizer que precisa parar de correr. Quando a gente pede para parar é porque a pessoa pode sofrer uma lesão muito mais grave. Mas a maioria não precisa disso, e sim, de alguns ajustes”.
Quando o assunto é maratona, também há uma dimensão emocional que todo corredor reconhece. A prova não começa no pórtico de largada nem termina apenas na linha de chegada; ela atravessa madrugadas, renúncias, reorganização da rotina e muita negociação interna.
“Maratona é muito mais que uma distância. É um ciclo transformador em que você aprende a conciliar desafios da vida, família, trabalho e segue treinando resiliente. Tem que treinar antes do sol nascer, quando todo mundo está dormindo. Abrir mão de coisas prazerosas no fim de semana… mas, no final, cada passo durante os 42.195 m carrega uma história pessoal que vai de sacrifício, resiliência e superação”, resume.

E tanto para quem está começando como para quem já está contando os dias para encarar os 42 km, a dica do especialista é a mesma e a que mais me impulsiona: “Curta a jornada sem pressão. E sem se comparar com o corredor que está ao seu lado”.

