Teatro, por Claudia Chaves: “Nelson Rodrigues fala sobre a nossa alma”

Tempo de leitura: 7 min


Nelson Rodrigues possui uma unidade absoluta em sua obra. Há um eixo comum que atravessa seus textos: os que amam de verdade, os que se apaixonam intensamente, ao contrário do esperado, raramente encontram finais felizes. Em Nelson, como na tragédia grega, os deuses não perdoam. E é exatamente esse universo cruel, humano e profundamente brasileiro que “Diabólica Vingança”, adaptação de dois contos dirigida por Renato Carrera, consegue levar ao palco com enorme potência.

A encenação aposta numa aparente simplicidade, mas revela uma construção cênica sofisticada. Tudo parece calculado para provocar desconforto e fascínio ao mesmo tempo. Dani Ornellas, Andreza Bittencourt e Renato Carrera ocupam o palco com rigor absoluto, sustentando uma atmosfera inquietante, quase fantasmagórica.

Os figurinos criados por Dani Ornellas impressionam logo de cara: remetem ao universo sadomasoquista e transformam os personagens em figuras frias, distantes, quase desumanizadas. Com os rostos praticamente sem expressão, as vozes ganham ainda mais protagonismo.

E é justamente na vocalidade que o espetáculo encontra uma de suas maiores forças. As gargalhadas secas, enormes e assustadoras ecoam como ameaças permanentes. Apavoram porque revelam o vazio emocional daqueles personagens condenados pelo desejo, pela culpa e pela violência. Não há exageros nem excessos gratuitos. Renato Carrera entende que Nelson Rodrigues funciona melhor quando o horror nasce do silêncio, da pausa e da contenção.

Outro destaque fundamental é a iluminação de Renato Machado. A luz deixa de ser apenas um recurso técnico e se transforma na própria base emocional da cena. Cada mudança luminosa acompanha os estados psicológicos dos personagens e amplia a tensão crescente da montagem. O cenário, as projeções e toda a identidade visual assinada por Daniel de Jesus aprofundam ainda mais essa atmosfera perturbadora.

O grande diferencial da montagem está justamente nessa rara capacidade de fazer muito com tão pouco. “Diabólica Vingança” transforma o básico em linguagem sofisticada e reafirma uma velha máxima do teatro: menos é mais. É dessas experiências que permanecem no espectador muito depois do fim. Um espetáculo para ser visto — e revisto.

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Papo com Renato Carrera:

1 – O que foi mais desafiador em levar “Diabólica Vingança” para a cena?

“Ficamos muito tempo debruçados sobre os dois contos. Depois de uma pesquisa longa — eu já tinha feito outros Nelsons —, o que mais chamava nossa atenção era a palavra, como a gente ia entendendo e se aprofundando na sonoridade dela, e o que essa sonoridade concreta provocava nos nossos corpos e emoções. Foram horas e dias de ensaio. Foi um processo longo, exaustivo, mas estamos muito felizes com o resultado. Isso também passa a ser uma pesquisa da Bruzun Company.”

2 – Como aconteceu a escolha dos contos “A Mão Esquerda” e “Vingança”?

“Ficamos muito tempo pesquisando os dois contos e mergulhando na sonoridade das palavras e no impacto delas nos corpos e nas emoções. ‘Vingança’ chegou até nós através de um manuscrito datilografado encontrado por Crica Rodrigues, neta de Nelson Rodrigues, uma verdadeira relíquia. Em Portugal, entendemos que precisávamos aprofundar ainda mais essa pesquisa do som e do ritmo da frase. Lá, o segundo ato era mais físico, quase um balé.”

3 – Nelson Rodrigues continua provocando o público décadas depois. O que você vê na obra dele que ainda dialoga tão fortemente com os dias de hoje?

“Nelson Rodrigues é o nosso maior autor e continua extremamente atual. Ele retrata o ser humano carioca e brasileiro de forma muito pura, ampliando no teatro emoções e conflitos que reconhecemos na vida real. O público se identifica profundamente com as histórias. Muitas pessoas se emocionam antes mesmo dos aplausos começarem. Nelson fala sobre a nossa alma, sobre desejo, violência, machismo e relações abusivas que ainda fazem parte da sociedade. Mais atual do que nunca, sua obra continua necessária.”

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4 – Quais são os próximos projetos e desejos artísticos? Existe vontade de continuar investigando Nelson Rodrigues ou partir para novos caminhos?

“Eu não consigo ficar numa coisa só. Já estou desenvolvendo vários trabalhos ao mesmo tempo, dividindo a semana entre eles. E com essa recepção incrível, com a temporada lotada todos os dias, estamos muito felizes. É um espetáculo sem patrocínio, feito com parceria e dinheiro do nosso bolso, porque sentíamos que era a hora de falar de Nelson Rodrigues e mexer com as pessoas. O público tem reagido de uma forma muito forte, como acontecia antigamente com os textos dele. E, entre todos os projetos, já estamos negociando os direitos de um novo Nelson, que deve chegar no ano que vem pela Bruzun Company.”

5 – Como é trabalhar em grupo?

“A Bruzun Company é a nossa companhia, formada por mim, Dani Ornellas, Daniel de Jesus e Bruno Mariozz. Eu e Dani nos reencontramos em ‘Pedro, Pedro e o Quadro’ e, depois disso, montamos ‘Os Bruzundangas’, que passou pelos CCBBs do Rio, Brasília e Belo Horizonte, além de temporadas em Portugal e no Festival da Colômbia, com mais de 63 apresentações. Depois vieram ‘FIDES – Fé em Latim’ e ‘Irmãs’, inspirado em Tchékhov, trazendo pela primeira vez três atrizes negras para ‘As Três Irmãs’ no Brasil. Agora chegamos com ‘Diabólica Vingança’. Eu, Dani Ornellas e Andreza Bittencourt trabalhamos juntos há mais de 13 anos, desenvolvendo uma pesquisa profunda sobre palavra, som, emoção e conflitos humanos.”

Serviço:

Teatro Futuros – Arte e Tecnologia, no Flamengo
De quinta a domingo, às 19h.

(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-nelson-rodrigues-fala-sobre-a-nossa-alma/

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