Turnê grandiosa de Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão mostra o poder do samba

Tempo de leitura: 17 min


“Cadê você? A menina da VEJA RIO já chegou”, provoca Zeca Pagodinho ao telefone com Jorge Aragão, atrasado para o ensaio marcado para as 14h de uma quarta-feira de maio, em um estúdio na Barra.

Pouco depois, Alcione aparece carregando um presente para o compadre: uma daquelas xícaras de café de vidro duplo que viraram objeto de desejo entre apreciadores.

No encontro anterior, Jorge — autor de Coisinha do Pai e devoto confesso da bebida — havia reclamado da falta de um recipiente à altura para tomar seu cafezinho.

Zeca ficou sem o mimo — como se sabe, prefere ensaiar com uma taça de vinho à mão.

Entre risos e lembranças que perpassam décadas de samba, o clima parecia mais o de um almoço de domingo em família do que propriamente trabalho. Mas era.

Os três se reuniam para afinar o repertório de O Maior Encontro do Samba, turnê monumental que estreia no sábado (6) no Maracanã, para 70 000 pessoas.

“Se eu pudesse nem cantaria, ficaria só olhando para esses dois”, derrete-se Jorge diante dos amigos que também são ídolos.

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“A gente vai contar história e fingir que está num ensaio no palco”, resume Zeca, imediatamente enquadrado por Alcione.

“Eles estão se comportando. Sabem que comigo é na base da chibata”, dispara ela, antes de explodir em uma gargalhada capaz de embalar qualquer roda de samba.

Desse encontro permeado por afeto, intimidade e décadas de estrada nasceu a turnê que já chega sob a moldura de um feito histórico.

Após a estreia no Maracanã, O Maior Encontro do Samba percorre outras seis cidades brasileiras e embarca em um cruzeiro temático em janeiro.

Para dar conta da dimensão da celebração, Pretinho da Serrinha montou uma superbanda inédita, com dezesseis músicos e liberdade total para fugir das formações tradicionais dos três artistas.

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Na direção de arte, Batman Zavareze transformou o imaginário suburbano em espetáculo: pipas rompendo o céu, mesas de dominó, biroscas de esquina, azulejos antigos e santos populares tomam os gigantescos telões espalhados pelo palco.

“O grande encontro desses orixás do samba vai celebrar suas origens e a alegria da periferia”, afirma Zavareze, responsável pela concepção visual dos últimos shows dos Paralamas e de Marisa Monte.

No repertório, 34 clássicos costuram as trajetórias do trio, enquanto Arlindinho abre a noite reverenciando o legado do pai, Arlindo Cruz (1958-2025).

A estreia vai contar ainda com a participação de Martinho da Vila, que sai em turnê com a filha Mart’nália — a primeira exibição é neste sábado (30), no Vivo Rio.

“Para as próximas gerações, esses artistas vão ter o mesmo peso que Cartola e Pixinguinha hoje”, avalia Leninha Brandão, diretora artística e idealizadora de O Maior Encontro do Samba, destacando que nunca houve um palco dessa grandeza para o gênero musical.

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A maratona de apresentações vem justamente em um momento em que os três artistas vivem transformações pessoais importantes.

Aos 67 anos, Zeca Pagodinho trocou as madrugadas pelas manhãs, seja no sítio em Xerém, seja no apartamento da Barra.

Dorme antes das 21h, acorda às 5h30 e hoje passa mais tempo brincando com os sete netos do que no samba. “Depois do show, tudo o que quero é voltar para casa”, diverte-se.

Alcione, 78, e Jorge Aragão, 77, também redobraram a atenção com o bem-estar.

A Marrom perdeu mais de 20 quilos e voltou a sambar no palco após se reabilitar de uma cirurgia no joelho — vídeos da cantora arriscando passos durante os shows viralizaram, com fãs comemorando e até duvidando da impressionante recuperação.

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Já Aragão eliminou cerca de 6 quilos e admite que Tânia, a filha e empresária, mudou sua relação com a carreira. “Eu vivia do meio, mas não vivia no meio. Hoje, entendo que preciso estar presente”, diz.

Há algo de simbólico em toda essa preparação física e emocional para ocupar o Maracanã. “Quando ouço essas músicas, lembro de quando foram feitas, do que eu estava fazendo naquela época. Isso mexe com a memória da gente”, conta Zeca.

Zeca e Jorge Aragão: muita lembranças e histórias no palco (Cristina Granato/Divulgação)

O gênero ao qual o trio se dedica, que por décadas foi tratado como trilha sonora de fundo da boemia suburbana, hoje movimenta cifras milionárias, lota arenas e disputa espaço com as grandes turnês do entretenimento mundial.

A reunião de Zeca, Alcione e Jorge Aragão no Maracanã é talvez o retrato mais eloquente dessa nova fase, mas está longe de ser caso isolado.

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Xande de Pilares acaba de anunciar o retorno do Revelação aos holofotes, encerrando um hiato de doze anos.

Após a estreia na Farmasi Arena, em junho, o grupo percorrerá dez capitais com os seis integrantes da formação original, além de Jhonatan Alexandre, o Mamute, 36 anos, sobrinho de Xande, no cavaquinho e nos vocais.

“Na pandemia fiz uma live cantando os sucessos do Revelação e os fãs clamaram pelo reencontro. Paula Lavigne entrou na jogada e percebemos que o momento tinha chegado”, fala Xande, garantindo que as antigas rusgas com Mauro Júnior ficaram para trás.

“Aprendi tudo com meu pai. É emocionante vê-lo no palco. Estar com ele, então, mais ainda”, diz Mart’nália, pronta para cair na estrada com Martinho da Vila em turnê de trinta apresentações.

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Fenômenos como Tardezinha, de Thiaguinho, Numanice, de Ludmilla, Resenha do Mumu, de Mumuzinho, Serenata da GG, de Gloria Groove, e o recém-lançado Clareou, de Ivete Sangalo, mostram que samba e pagode se converteram em experiências de massa, impulsionadas por megaestruturas, ingressos caros e público gigantesco.

Colagem de quatro fotos: Ludmilla cantando, um homem de braços abertos num palco, Gloria Groove de rosa com braços erguidos e Ivete Sangalo sorrindo ao ar livre
Virou pop: fenômenos como Tardezinha, de Thiaguinho (acima), Numanice, de Ludmilla (abaixo), Serenata da GG, de Gloria Groove (abaixo), e o mais recente Clareou, de Ivete Sangalo (abaixo), provam que o samba e o pagode viraram experiências de massa (Steff Lima; Bruno Soares; Rafa Mattei; Rafael Strabelli/Divulgação)

“Por muito tempo, fomos discriminados dos megaeventos. Mas os jovens descobriram o ritmo e me emociona ver o samba lotando estádios”, afirma Martinho da Vila, aos 88 anos.

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É muita amizade: Martinho da Vila vai participar da estreia da turnê do trio do samba (Vera Donato/Divulgação)

A dimensão dessa virada fica ainda maior quando se olha para trás. Alcione lembra que João da Baiana (1887-1974) precisou ter o pandeiro assinado pelo então senador Pinheiro Machado (1851-1915) para escapar das constantes batidas policiais.

Jorge Aragão cresceu acostumado a entrar “pela porta dos fundos” dos clubes onde tocava. “Quando podia entrar pela frente, até estranhava”, diverte-se.

Nascido das matrizes africanas e forjado no Rio, o samba foi tratado por muito tempo como música marginal.

Hoje, ocupa o Maracanã cercado de patrocínios, painéis de LED e efeitos visuais cinematográficos.

“O estádio já recebeu Rolling Stones, Paul McCartney, U2 e Guns N’Roses. O samba agora alcança o mesmo patamar dos grandes espetáculos internacionais”, observa o crítico musical Sérgio Martins.

Para o historiador Luiz Antonio Simas, porém, a tendência vai além da indústria do entretenimento. “O ritmo é uma forma de organizar o sentido da vida: o jeito de brincar, comer, beber, rezar, reverenciar os vivos e relembrar os mortos”, diz.

O tamanho que o samba atingiu nos últimos anos certamente passa pela trajetória desses três artistas, cada qual responsável, à sua maneira, por ampliar as fronteiras do gênero sem descaracterizá-lo.

Alcione transformou potência vocal em carreira popular mantendo a sofisticação intacta. “Ela ajudou a moldar o samba brasileiro”, analisa Roberto Menescal, que descobriu a Marrom nos anos 1970, ainda como crooner em uma boate de Copacabana, e insistiu para que ela mergulhasse de vez no samba.

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Alcione: a maranhense era crooner de boate e foi convencida por Roberto Menescal a enveredar pelo samba (Thereza Eugenia/Divulgação)

Jorge Aragão, por sua vez, virou uma espécie de arquiteto sentimental da versão moderna do gênero, o aproximando de uma linguagem romântica que explodiria nos anos 1990.

São mais de trezentas composições gravadas por nomes como Beth Carvalho, Elza Soares, Dona Ivone Lara, Ney Matogrosso, Ivan Lins, Seu Jorge, Lenine, Maria Rita e Anitta.

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A madrinha: Beth Carvalho gravou canções de Zeca e Jorge ao longo da carreira (Bertrand/Divulgação)

“É uma referência enorme para a gente”, afirma José Gil, baterista do Gilsons, que dividiu o Palco Sunset do Rock in Rio com o sambista em 2022.

E há ainda Zeca Pagodinho, talvez o exemplo mais improvável (e perfeito) dessa travessia entre tradição e cultura pop.

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Zeca Pagodinho: o cantor virou ícone pop (./Arquivo pessoal)

Apesar de avesso às redes sociais, ele acabou virando fenômeno espontâneo da internet. Suas entrevistas, tiradas, broncas e até registros das roupas que usa atraem gerações em forma de memes e vídeos compartilhados à exaustão.

“É o último grande nome do partido-alto, caracterizado pela combinação de refrão e improviso”, define Sérgio Martins.

A talentosa trinca soma quase 150 anos de carreira e um repertório raro, capaz de agradar da criança ao idoso, do sambista raiz ao jovem que descobriu o samba pelo streaming.

“Quem viveu vai relembrar. Quem não viveu viverá”, profetiza Martinho.

E o ritmo segue se renovando, abrindo caminhos e promovendo encontros entre gerações.

“Meu jeito de cantar e meus trejeitos vêm do meu tio, que é um pai para mim. Aprendi desde novo com esse mestre”, reverencia Mamute.

“Não há nada melhor do que estar juntinho do meu paizão no palco”, celebra Martínália, 60, que há dois anos lançou um disco dedicado ao pagode romântico, revisitando clássicos como Cheia de Manias, do Raça Negra, e Essa Tal Liberdade, do Só Pra Contrariar.

Arlindinho também vê na reunião de Zeca, Alcione e Jorge Aragão um poderoso sinal de continuidade.

“Abrir esse show significa seguir uma história que vivi desde criança dentro da minha casa”, afirma o músico de 34 anos.

Homem negro sorridente, com barba e cabelo trançado, vestindo camiseta branca e colar dourado, segurando um cavaquinho marrom claro. Ele tem tatuagens de notas musicais no braço esquerdo e pulseiras
Em casa: “Abrir esse show significa seguir uma história que vivo desde criança”, diz Arlindinho, que homenageará o pai, Arlindo Cruz, no repertório (Vitor Melo/Divulgação)

“Existe um respeito à hierarquia. Os veteranos ajudam a jogar luz nos mais novos”, analisa o crítico musical Sérgio Martins.

Como se vê, o gênero que nasceu nos quintais, nos terreiros e nas rodas improvisadas da cidade, e que agora ocupa estádios, movimenta milhões e arrasta multidões, ainda preserva a sensação calorosa de amigos reunidos em volta de uma mesa, cantando histórias universais.

E poucos artistas representam tão bem essa travessia quanto Alcione, Zeca e Jorge Aragão — três vozes que ajudaram a fazer do samba tão valioso patrimônio afetivo e cultural do Brasil. 

A força de um ritmo 

Estrutura, público e cifras da turnê histórica do trio 

34 canções 

600 metros quadrados de projeções nos telões 

1 090 reais é o preço do ingresso VIP, com direito a open bar, já esgotado 

200 profissionais na equipe 

70 000 é o público previsto no Maracanã 

16 músicos no palco 

Encontro de bambas 

VEJA RIO colocou os compadres frente a frente — e o resultado foi puro samba 

Alcione 

para Jorge Aragão 

Qual a tua série preferida, meu compadre? 

Hoje, é Impuros (disponível no Disney+)

para Zeca Pagodinho 

Como vai ser a cozinha que você está construindo para eu fazer comida pra ti? 

Em Xerém! A Mônica (mulher de Zeca) meteu umas três obras lá. Vou batizar de Cozinha da Alcione! 

Zeca Pagodinho 

para Alcione 

Tu me ama? 

Te amo! 

para Jorge Aragão 

Por que tu chegou atrasado hoje? 

Moro em Botafogo, peguei trânsito (o estúdio era na Barra)

Jorge Aragão 

para Zeca Pagodinho 

Por que tu não faz mais música agora? 

Eu tenho feito pouquinho, mas tenho. Com Moacyr Luz, Fred Camacho… 

para Alcione 

Minha comadre, para você, esse encontro nosso é uma forma de matar a saudade, como é para mim? 

É tão bom! Relembramos as coisas, nossos momentos juntos, o início das nossas carreiras… 

No embalo das multidões 

Os grandes encontros que mantêm o samba no centro do entretenimento brasileiro 

Pai e Filha.

Duas pessoas negras sorrindo em estúdio branco. Um homem de terno escuro abraça por trás uma mulher de cabelos loiros cacheados, camisa listrada clara com laço e calça escura, sentada em um caixote de madeira
(Renato Pagliacci/Divulgação)

Em sua última grande turnê, Martinho da Vila decidiu dividir o palco e os vocais pela primeira vez com a filha Mart’nália. A cantora respira música desde que nasceu e vai celebrar não só o próprio pai, mas todo o samba ao relembrar clássicos eternos de Martinho da Vila, como Devagar, Devagarinho, e hits da própria carreira, como Cabide. Vivo Rio. Avenida Infante Dom Henrique, 85, Flamengo. Sáb. (30), 19h. R$ 60,00 a R$ 360,00. Ingressos pelo ticket360.com.br 

Resenha do Mumu.

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(instagram @mumuzinho/Divulgação)

Após uma década de sucesso do projeto em que ocupa um palco 360 graus, convidando diversos artistas, Mumuzinho prepara a despedida em solo carioca, marcada para 12 de dezembro. No último sábado (23), ele recebeu Ivete Sangalo e comandou a penúltima festa no Rio durante mais de quatro horas. Ainda sem local definido. 

Tava Escrito: o Reencontro Histórico.

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(./Divulgação)

Os fãs pediram e os seis músicos da formação original do Grupo Revelação deixaram as desavenças de lado e resolveram se lançar numa grande turnê.

A chancela é da empresária Paula Lavigne, e Caetano Veloso será o convidado especial da noite de estreia, em solo carioca, como não podia deixar de ser. Farmasi Arena. Avenida Embaixador Abelardo Bueno, 3 401, Barra. 27 de junho, 20h. R$  80,00 a R$  352,00. Ingressos pelo ticketmaster.com.br. 



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/programe-se/turne-zeca-pagodinho-alcione-jorge-aragao-poder-samba/

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