Como o assassinato de um traficante no Paraguai levou a guerra entre facções criminosas no Brasil

Tempo de leitura: 12 min
Metralhadora .50 dentro a caminhonete usada para matar Rafaat (no detalhe), em 2016 — Foto: Reprodução


A missa na Paróquia São Geraldo foi interrompida pelo som de disparos. Não era o barulho de uma arma qualquer. De tão alto, o ruído podia ser confundido com uma série de explosões perto da igreja, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, perto da fronteira com o Brasil. As pessoas entraram em pânico e se jogaram no chão para se proteger, mas ninguém que estava na missa ficou ferido. Os estampidos eram de uma metralhadora .50. A arma tem o poder de derrubar até um avião, mas, naquela noite de quarta-feira, dia 15 de junho de 2016, foi usada para matar o traficante Jorge Rafaat Toumani.

  • O motim do PCC: A rebelião carcerária que “apresentou” facção criminosa ao país
  • Origem do CV no Rio: Decreto da ditadura levou a formação da facção na Ilha Grande

Aos 56 anos, conhecido como “rei da fronteira”, o brasileiro filho de libaneses mandava no contrabando de armas e drogas na cidade de cerca de 200 mil habitantes que funciona como entreposto da “rota caipira”, principal via de deslocamento ilegal desses dois produtos para o Brasil. Rafaat vendia tanto para o Primeiro Comando da Capital (PCC) quanto para o Comando Vermelho (CV), as duas maiores facções criminosas do país. A morte do traficante, que tinha também o apelido “carinhoso” de Sadam, desorganizou esse comércio e inaugurou um período de intensa violência entre esses grupos.

  • Instagram: Siga nosso perfil, com fotos de cem anos de jornalismo

Até então, as duas facções operavam com um pacto de não agressão entre elas, mas o assassinato em Pedro Juan azedou de vez uma relação que já vinha estremecida e abriu um período de disputas sangrentas que gerou recorde de homicídios no Brasil, em 2017, principalmente no Norte e Nordeste. As consequências do assassinato ao lado da Paróquia São Geraldo, há quase dez anos, são presentes até hoje na dinâmica do tráfico, como mostra, em seu quarto episódio, a série documental “Territórios: Sob o Domínio do Crime”, recém-lançada pelo Globoplay, com direção de Gustavo Gomes.

Caminhonete Humvee de Rafaat com para-brisa destruído por tiros de .50 — Foto: Reprodução

Pedro Juan funciona como um centro de distribuição de contrabando desde os anos 1970, graças à vasta e pouco vigiada “fronteira seca” entre Paraguai e Brasil. Em meio século, os principais produtos traficados passaram de cigarro americano e whisky escocês para a cocaína da Colômbia e da Bolívia, enviada às toneladas por meio de rotas ocultas para São Paulo e Rio e, desses locais, para a Europa. A lista de brasileiros que já foram chefes do crime em Pedro Juan ao longo dos últimos 50 anos tem nomes como Nelson Rossati, Fahd Jamil, Gerson Palermo e o próprio Rafaat.

  • Fernandinho Beira-Mar: A prisão do traficante numa selva da Colômbia
  • Tiros na Ilha do Governador: O primeiro confronto entre a polícia e o CV

Em maio de 1975, O GLOBO publicou uma série de reportagens sobre o “corredor do contrabando”. Produzido por jornalistas que percorreram a fronteira do Brasil com Bolívia, Paraguai e Argentina, o material fazia um raio-x do crime em Pedro Juan, desde a violência nas esquinas da cidade às grandes transações nos bastidores. Segundo os repórteres, era normal ver pessoas armadas na rua, e tiroteios por ajustes de contas podiam ocorrer “a qualquer momento”. O comércio de drogas era escancarado. Uma pessoa que quisesse comprar até 10kg de maconha não encontrava dificuldade.

  • Patrícia Accioli: A juíza do “martelo de ferro” que foi exacutada por policiais

Apesar da infraestrutura precária, lojas vendiam barbeadores ingleses, sabonetes franceses e pastas de dente italianas. Tudo a preços mais baixos que no Brasil, graças à menor carga de impostos. A série de reportagens destaca a facilidade para se cruzar a fronteira entre os países. Pedro Juan é separada de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, por uma rua, e até hoje não existem barreiras alfandegárias. De acordo com as matérias do GLOBO em 1975, as pessoas eram vistas passando com geladeiras de um lado a outro sem fiscalização. Ônibus e caminhões cheios de produtos trafegavam de lá pra cá.

Pedro Juan Caballero (acima) e Ponta Porã (abaixo) em foto de 1975 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO
Pedro Juan Caballero (acima) e Ponta Porã (abaixo) em foto de 1975 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO

A série de reportagens traça o perfil do contrabandista Nelson Rossati, que, aos 30 anos, condenado pela Justiça do Brasil, era uma das pessoas mais ricas do Paraguai. Drogas não estavam sequer entre os itens mais movimentados por ele. A maconha entrava em alguns esquemas, mas esse comércio ainda era pequeno se comparado ao contrabando de cigarro e whisky, além de produtos agrícolas do Brasil como café, milho e soja, enviados ao Paraguai. Rossati era dono de vários imóveis em Pedro Juan. Também tinha aviões e dezenas de caminhões, além de uma fazenda.

  • Terrorismo do PCC: Os atentados que mataram 59 agentes públicos em SP
  • Assalto ao Banco Central: Bandidos levaram R$ 164 milhões de cofre no Ceará

O contrabandista foi morto com um tiro de calibre 12 quando caminhava na Avenida Internacional, que separa Pedro Juan de Ponta Porã, em 1978. Ele não participou da transição do comércio ilegal para as drogas ao longo dos anos 80. Criminosos da época se tornaram empresários do tráfico. É o caso de Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca. Filho de um contrabandista de café, ele começou trabalhando com o pai e, mais tarde, chegou a despachar toneladas de cocaína por mês. Cabeça Branca era sócio de Jorge Rafaat e, quando foi preso, em 2017, tinha fortuna estimada em US$ 100 milhões.

Quando Rafaat foi executado em praça pública, a menos de 1km da fronteira com o Brasil, ele tinha pleno controle sobre o tráfico entre os países. O “rei da fronteira” andava com dezenas de seguranças. Ele foi morto ao volante de sua caminhonete Humvee blindada. Uma câmera capturou o momento em que uma picape branca para ao lado de Rafaat numa rua. Assim que o bandido avança com a Humvee, o outro veículo acelera e fecha o seu caminho. Então, um assassino dentro dessa caminhonete branca dispara mais de 200 tiros de uma metralhadora .50 contra o traficante, que foi atingido 16 vezes.

Ex-militar Sérgio Lima, condenado pela morte de Rafaat — Foto: Reprodução
Ex-militar Sérgio Lima, condenado pela morte de Rafaat — Foto: Reprodução

Os seguranças de Rafaat, que vinham em carros atrás dele, reagiram com tiros. A polícia foi acionada, e uma batalha de duas horas tomou conta das ruas de Pedro Juan, deixando a população em pânico. Ao fim dos confrontos, sete pessoas estavam feridas e nove suspeitos foram presos. Entre eles, o ex-militar carioca Sérgio Lima dos Santos. Baleado durante o tiroteio, o bandido foi levado a um hospital e, mais tarde, acusado de ser o autor dos disparos de metralhadora .50 que mataram o “rei da fronteira”. Em dezembro de 2018, a Justiça do Paraguai o condenou a 35 anos de reclusão.

Ao localizar a caminhonete de onde partiram os tiros, os investigadores viram que o veículo havia sido modificado. Os bandidos removeram o banco de trás para acomodar a arma de guerra.

As investigações sobre o caso nunca chegaram aos seus mandantes. Mas tudo indica que o crime foi planejado e levado a cabo por um “consórcio” de bandidos interessados em tomar o controle de Pedro Juan. Até então, PCC e CV não se consideravam rivais, mas essa realidade mudou com a execução de Rafaat. A facção nascida nos presídios de São Paulo avançou com tudo sobre Pedro Juan, obrigando o grupo formado na extinta penitenciária de Ilha Grande, no Sul do Estado do Rio, a procurar outras rotas, principalmente no Norte do Brasil. Começou, então, uma disputa sangrenta entre as facções.

Presos celebram matança na penitenciária de Manaus, em 2017 — Foto: Reprodução
Presos celebram matança na penitenciária de Manaus, em 2017 — Foto: Reprodução

As duas organizações começaram a se expandir velozmente, com objetivo de ocupar territórios. Para especialistas, a busca por novas rotas do tráfico impulsionou a nacionalização do Comando Vermelho, que se aliou a facções locais de diferentes estados, principalmente no Norte e no Nordeste. Foi nesse contexto que surgiu a aliança entre CV e Família do Norte (FDN). O grupo fundado em 2007 tinha o domínio do tráfico em estados como Amazonas, Pará e Ceará, mas foi engolido pelo CV após forjar uma parceria com a facção fluminense para conter o avanço do PCC na região, a partir de 2016.

A guerra entre as maiores organizações criminosas do Brasil gerou muitos óbitos, principalmente em presídios. Em outubro de 2016, por exemplo, uma rebelião na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista (RR), deixou 25 mortos. Em janeiro do ano seguinte, 56 detentos foram assassinados no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus (AM). No mesmo mês, uma nova matança deixou 26 vítimas na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte. Todos esses episódios produziram cenas de violência que geraram consternação no Brasil.

Segundo o Atlas da Violência, o ano de 2017 atingiu um recorde no país, com 65.602 homicídios. Este número representou uma taxa de 31,6 mortes a cada 100 mil habitantes, a maior registrada até hoje.

Comando Vermelho e Família do Norte foram aliados contra o PCC, mas, em pouco tempo, tornaram-se inimigos. Rivalidades deram início a uma ruptura, e a fação nascida no Estado do Rio dominou a FDN, controlando o tráfico em grande parte da região. Antes considerada a terceira maior organização criminosa do Brasil, a Família do Norte foi quase extinta. Já o CV avançou sobre a chamada Rota do Solimões, que usa rios amazônicos para transportar drogas e armas a partir da tríplice fronteira com Peru e Colômbia. O PCC também atua na área, mas o Comando Vermelho tem hegemonia.





Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/blogs/blog-do-acervo/post/2026/05/como-o-assassinato-de-um-traficante-no-paraguai-levou-a-guerra-entre-faccoes-criminosas-no-brasil.ghtml

Compartilhe este artigo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *