“Eu Sou Minha Própria Mulher”
Dezoito anos depois do enorme sucesso de crítica e público, assistir a “Eu Sou Minha Própria Mulher”, texto de Doug Wright e direção de Herson Capri, é reencontrar um Edwin Luisi em estado de graça.
Ele transforma o que poderia ser apenas um monólogo em algo muito maior: um mosaico vivo de personagens. Não é um solo — é uma multidão em cena.
Edwin é, antes de tudo, um contador de histórias com domínio absoluto da linguagem teatral. Cada personagem nasce na voz, no gesto, no ritmo do corpo e, sobretudo, no olhar. São mais de quinze figuras distintas, todas pulsantes, todas necessárias — ora escada, ora protagonistas na trajetória de Charlotte von Mahlsdorf.
A história da travesti que sobreviveu ao nazismo e ao pós-guerra emociona sem apelar. Charlotte transforma objetos do Terceiro Reich em pequenas lindezas e cria um museu que resiste ao horror pela memória. Mas ela não é só sobrevivente — é alguém que entende o valor da arte e das boas lembranças.

A direção de Capri conduz Edwin a um lugar de entrega total. Ele expõe fragilidades e forças com precisão quase cirúrgica. A encenação aposta no detalhe — e são eles que dizem tudo. Como na vida, o essencial não grita: aparece.
O colar de pérolas de Charlotte vira símbolo. Uma espécie de manifesto silencioso contra o preconceito, a violência e o apagamento.
A peça atravessa temas como LGBTfobia e totalitarismo com uma atualidade incômoda — sem didatismo, sem concessões. A força está na experiência, não no discurso.

O que se vê em cena é talento em combustão. E mais do que isso: a prova de que o teatro, quando acerta, transforma uma história individual em algo universal. Aqui, memória vira resistência.
Entrevista com Edwin Luisi:
1 – Como nasceu o interesse pela peça?
Eu, como todo ator, estou sempre procurando um bom texto e um novo desafio. Achei que já estava apto a fazer um monólogo, que exige amadurecimento artístico. Duas pessoas que viram essa peça em Nova York me falaram dela num intervalo de seis meses. Quando a segunda comentou, pensei: isso é um recado do universo. Fui atrás, comprei os direitos e resolvi montar. Era um texto grande, difícil, que exige técnica e emoção profundas. Foi um sucesso, fiquei dois anos em cartaz. Dezoito anos depois, senti que era hora de voltar, porque o tema — identidade, escolha, repressão — está ainda mais atual.
2 – Ser um dos atores mais premiados te dá mais confiança?
Todos nós temos muitas dúvidas. Eu não trabalho na certeza, trabalho na dúvida — porque a certeza aprisiona, e a dúvida movimenta. Isso me leva a lugares novos. Hoje, aos 80 anos, sinto um respeito grande pela minha trajetória, o que traz um certo alívio, porque é uma profissão difícil e, muitas vezes, mal compreendida. Como faço pouca televisão, às vezes perguntam se parei, mas minha carreira no teatro nunca parou. Muitos jovens me chamam de mestre, o que aumenta a responsabilidade. É bom ser respeitado, mas continuo cheio de dúvidas — até em cena.
3 – Quais são os projetos futuros?
Sempre tentei escolher bem e variar: drama, comédia, experimental, convencional. Gosto de mudar. Hoje ainda tenho um sonho: fazer uma mulher. Já fiz comédia de alto nível, como Feydeau e Oscar Wilde, mas esse desafio ainda falta. Já sei até quais peças gostaria, mas exigem uma grande produção. É o que estou buscando agora.
4 – Como foi a preparação vocal para o sotaque alemão?
Eu sempre estudei muito voz — e digo aos jovens: vão para a voz, é ela que comunica. Tive uma grande professora, Milene Pacheco. Sempre gostei de línguas, estudei italiano, espanhol, francês e inglês. Para essa peça, fiquei um ano estudando alemão — não para aprender a língua, mas o sotaque. Observei como um alemão fala português. Aprendi algumas frases e trabalho a sonoridade, como um papagaio. Isso me deu precisão.
5 – De onde vêm os personagens?
São frutos da vida. Eu observo muito o ser humano — o jeito de falar, a embocadura. Tem professor, atriz, gente que conheci. Fui construindo assim, com cuidado para não repetir vozes. Testava tudo em casa e escolhia de acordo com o físico e o timbre. Foi um trabalho delicado, difícil e muito solitário. Quando o diretor chegava, eu já levava tudo pronto. O encantamento do público está nas transições. Às vezes, só com um movimento de ombro eu já mudo de personagem. Depois de dez minutos, o público entende quem é quem, sem precisar explicar. Isso é o teatro: contar uma história com muitas pessoas — sendo uma só.
Serviço:
Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea
Sábado às 20h30
Domingo às 19h30


