“Chegar à Praia Brava e não encontrar nosso ‘recepcionista principal’ deixa um vazio imenso”, diz uma das dezenas de cartas, fotos e desenhos afixados ao longo dos últimos dois meses nas casinhas onde viveu o cão Orelha, na região norte de Florianópolis. As homenagens expõem, além do carinho com o cachorro comunitário, a falta de explicações convincentes para a morte do animal, ocorrida no dia 5 de janeiro. A apuração entra na reta final na próxima semana, quando o Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) deve se posicionar sobre o inquérito, em meio a lacunas que persistem na investigação da Polícia Civil e críticas à condução do governo estadual.
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Na última semana, O GLOBO esteve na Praia Brava, onde ouviu moradores e revisitou locais-chave para compreender a intrincada história. A reportagem também vasculhou documentos e relatos de testemunhas para apontar os principais vácuos do caso.
Entre os fatores que dificultam o desfecho estão a demora de 40 dias para ser feita a primeira perícia no corpo de Orelha, que gerou um laudo inconclusivo, e a escassez de imagens do último dia de vida do cachorro. Enquanto o país se comovia com os relatos sobre um cachorro brutalmente agredido por jovens da elite catarinense, o governador Jorginho Mello (PL) chegou a afirmar que as provas da suposta violência seriam “de embrulhar o estômago”.
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O chefe do Executivo também alardeou o indiciamento de três adultos, acusados de intimidar testemunhas, e um adolescente responsabilizado pela morte do cão. Autoridades estaduais, porém, protagonizaram uma série de recuos e contradições, o que abriu margem tanto para teorias sobre um cerceamento às investigações quanto a episódios de linchamento público dos menores envolvidos, elevando a pressão sobre o desfecho iminente.
Por ora, o MP-SC analisa um material probatório que inclui mil horas de vídeos e documentos levantados pelos investigadores. Até o fim do mês, o órgão irá decidir se apresenta denúncia à Justiça. Parte do material teve de ser complementado a pedido dos promotores, que enxergaram inconsistências na atuação policial e solicitaram, no início de fevereiro, diversas novas diligências.
O MP notou, por exemplo, a ausência de um laudo científico sobre as possíveis lesões no corpo de Orelha, que poderia provar eventuais agressões. Essa análise, com 19 páginas, só foi produzida no mês passado, após a Justiça autorizar a exumação do corpo, já com sinais de decomposição. Até então, a polícia vinha se baseando em um atestado, de uma página, do veterinário que socorreu o cão após ele ser achado debilitado por uma moradora da Praia Brava, no mesmo dia da morte.
“O objetivo é garantir a elucidação completa dos fatos, com rigor técnico, responsabilidade e absoluto respeito ao devido processo legal, assegurando que nenhuma informação relevante deixe de ser considerada”, disse o MP em um comunicado, no início do mês, registrando o prazo de 30 dias para a conclusão da análise.

O que falta explicar sobre a morte do cão Orelha
O laudo pós-exumação não constatou em Orelha “qualquer fratura ou lesão que pudesse ter sido causada por ação humana”, mas também disse ser “plenamente plausível que o animal tenha sofrido um trauma contundente em cabeça”, piorando até o óbito no dia seguinte. O perito também apontou, pela primeira vez, sinais de infecção óssea na altura do maxilar de Orelha — o veterinário que atendeu o cão no dia do óbito havia registrado “inchaço em grau grave” no lado esquerdo da face, com “protusão” do olho esquerdo e “sangramento bucal e nasal”.
À época em que a exumação foi autorizada, em fevereiro, o Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) de Santa Catarina se reuniu com o veterinário Derli Royer, que havia acolhido Orelha antes da morte. Em nota sobre a reunião, o CRMV frisou os “desafios enfrentados por médicos-veterinários que atuam em contextos sensíveis, muitas vezes sob forte pressão social e emocional”, e orientou o “registro técnico correto” de documentos como atestado de óbito para “proteção do profissional” e “para subsidiar o trabalho das autoridades”. Procurado pelo GLOBO, Royer não quis detalhar suas impressões após dois meses:
— Não tenho mais nada a declarar sobre o caso Orelha.
As últimas imagens conhecidas de Orelha, reveladas pelo “Fantástico”, da TV Globo, foram captadas por uma câmera de segurança na manhã de 4 de janeiro, perto do condomínio frequentado pelos adolescentes suspeitos do caso. O cão, que antes havia sido avistado indo em direção à praia, aparece caminhando na calçada, a cerca de 100 metros da rua onde seria encontrado machucado no dia seguinte.
Já o grupo de jovens aparece, uma hora antes da passagem de Orelha, usando uma passarela que dá acesso direto do condomínio à praia, sem passar pela rua. Um deles foi indiciado como autor das supostas agressões que vitimaram o cachorro, e a Polícia Civil pediu sua internação socioeducativa — que equivale à prisão para um maior de 18 anos. Também foram indiciados três adultos, incluindo o pai e o tio de um dos adolescentes, por suposta coação a um porteiro ouvido como testemunha.
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O foco sobre esses jovens surgiu a partir de um áudio enviado pelo porteiro em janeiro, em um grupo de WhatsApp, no qual dizia que os menores de idade “parece que deram umas pauladas nos cachorros”. No dia 13 daquele mês, ele foi interpelado pelos responsáveis dos adolescentes. Posteriormente, registrou boletim de ocorrência no qual disse ser alvo de ameaças. Em depoimento, o porteiro negou ter avistado quaisquer agressões contra Orelha e afirmou ter filmado apenas o grupo danificando lixeiras e xingando funcionários dos condomínios.
As suspeitas foram amplificadas por Jorginho Mello, que divulgou vídeos nas redes sociais, no fim de janeiro, informando que “jovens de famílias estruturadas agrediram o cão por pura maldade”. A fala sobre as supostas provas “de embrulhar o estômago” também ajudaram a firmar a convicção, entre a população, de que haveria um registro do momento exato da morte de Orelha — conteúdo que jamais veio à tona e não consta nos autos.
O caso serviu ainda como escada para o então delegado-geral da Polícia Civil catarinense, Ulisses Gabriel, se lançar candidato a deputado estadual pelo PL, mesmo partido do governador. Ulisses, que se afastou da corporação para concorrer, assinou sua filiação na semana passada, tendo ficha abonada por Jorginho.
Durante as investigações, o delegado defendeu a redução da maioridade penal e chegou a adotar outro cão comunitário da Praia Brava, o Caramelo, que havia sido atirado no mar por adolescentes da região. Embora o próprio delegado tenha aventado a hipótese de vínculo direto entre os dois casos, a Polícia Civil concluiu que não houve conexão, e quatro menores foram indiciados por maus-tratos contra Caramelo. Na semana passada, o MP-SC abriu inquérito contra Ulisses para apurar supostas irregularidades em sua atuação no inquérito sobre Orelha.
Procurados, Jorginho e Ulisses não quiseram responder quais foram as provas que os levaram a encampar a versão de ataques aos cães. A Polícia Civil disse, em nota, que entregou no fim de fevereiro “61 diligências complementares” ao MP, acrescentando que os materiais “reforçam e corroboram as conclusões iniciais dos procedimentos policiais”.
A demora em trazer elementos conclusivos, a despeito da alardeada convicção da polícia, aumentou o clamor popular. A comoção levou a um escrutínio sobre as famílias de alta renda envolvidas no caso, na tentativa de achar supostos entraves à investigação. Nas redes sociais, detalhes sobre a identidade e até o endereço de menores envolvidos foram divulgados em profusão, desrespeitando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Um dos jovens tratados como suspeitos foi recebido com protestos na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), no último dia 9, primeiro dia do semestre letivo. Cartazes exibidos pelos colegas pediram a expulsão do aluno, cujo pai foi um dos indiciados por coagir o porteiro.
Enquanto um desfecho não chega, moradores se esforçam para preservar a memória dos bons momentos vividos com Orelha, que era cuidado há cerca de dez anos pela vizinhança. Um abaixo-assinado com quase 3 mil adesões pretende rebatizar aquele trecho da orla como “Praia Orelha”.
Diariamente, moradores e visitantes visitam o memorial montado nas casinhas na Praia Brava. Desfalcadas em janeiro de Orelha e Caramelo, elas ficaram vazias de vez em fevereiro, quando a cadela Pretinha, que tinha um quadro de insuficiência renal, também morreu. “Que o amor de você e o Orelha encontrem a eternidade”, diz um dos últimos bilhetes deixados no local.

