Uma operação deflagrada nesta quinta-feira mira uma quadrilha que produz e vende armamentos — principalmente carregadores — impressos em 3D, num esquema interestadual. O bando também divulgava, segundo as investigações, projetos de “armas fantasmas”, que não podem ser rastreadas. A ação, chamada Shadowgun (armas sombrias, em tradução livre), visa a cumprir quatro mandados de prisão de 32 de busca e apreensão o Rio e em outros 10 estados, em endereços ligados aos vendedores e a compradores. Uma pessoa já foi presa.
A investigação sobre a organização criminosa foi feita pela 32ª DP (Taquara). Cinco integrantes do bando foram denunciados pelo Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (CyberGaeco) do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Eles responderão na Justiça pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de arma de fogo.
A 32ª DP começou a investigar a quadrilha após um órgão internacional compartilhar com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) um alerta sobre um usuário de uma rede social suspeito de desenvolver e comercializar armamentos impressos em 3D.
De acordo com as investigações, a quadrilha era chefiada por um engenheiro especializado em controle e automação. Ele usava um nome falso para publicar em redes sociais testes balísticos, atualizações de design e orientações sobre como calibrar e montar armas.
O principal produto distribuído pelo grupo criminoso era uma arma semiautomática. O projeto dela era divulgado com um manual técnico detalhado, produzido pelo engenheiro, com mais de cem páginas. Lá há todas as etapas necessárias para a fabricação da arma, permitindo que qualquer pessoa com conhecimentos intermediários em impressão 3D pudesse produzir o armamento em poucas semanas, utilizando equipamentos de baixo custo. Os bandidos também compartilhavam um “manifesto ideológico” que defende o porte irrestrito de armas.
As investigações indicam ainda que, além de redes sociais, as ofertas das armas era feita em fóruns e na dark web. O grupo, de acordo com a apuração policial, também usava criptomoedas para financiar suas atividades criminosas.
De acordo com a 32ª DP, os três cúmplices do engenheiro eram peças importantes na construção e na difusão dos projetos de arma 3D — eles são os alvos dos mandados de prisão. O trio atuava como idealizador e divulgador de conhecimento prático no campo da impressão 3D e segurança digital. Cada um dos cúmplices tinha uma função específica: o primeiro atuava no fornecimento de suporte técnico direto; o segundo realizava a função de divulgador, analista e articulador filosófico do movimento; e o terceiro assumia a frente da propaganda e da identidade visual.
Facções criminosas abastecidas
As investigações revelaram que a organização criminosa abastecia facções criminosas. Carregadores alongados de pistola de diferentes calibres eram produzidos na impressora 3D instalada na residência do engenheiro e eram comercializados numa plataforma de venda on-line.
O material produzido por ele foi negociado com 79 compradores, entre 2021 e 2022. As investigações identificaram que, nos anos seguintes, o engenheiro passou a negociar com os compradores por meio de outros canais e plataformas. Os compradores estão espalhados por 11 estados brasileiros. A maioria responde criminalmente e possui antecedentes criminais relacionados ao tráfico de drogas e outros delitos graves.
No Rio, os agentes identificam 10 compradores espalhados por todo o estado, em São Francisco de Itabapoana, Araruama, São Pedro da Aldeia, Armação dos Búzios e na capital fluminense. O trabalho investigativo da 32ª DP apura o destino desse material bélico no estado, que teria como fim as mãos do crime organizado, como o tráfico de drogas e a milícia. Um dos compradores atualmente está encarcerado após ter sido capturado em flagrante com grande quantidade de armas e munições.
Os mandados de prisão e de busca e apreensão são cumpridos, além do Rio, no Espírito Santo, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Pará e e na Paraíba, com o auxílio dos Gaecos locais. A ação conta com o apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e da Polícia Civil do Rio. As forças de segurança dos estados de Minas Gerais, Santa Catarina, Goiás, Bahia, e Roraima apoiam o cumprimento de mandados locais.

