O caso do cão comunitário Orelha, brutalmente agredido em Florianópolis, não é exceção — é apenas a ponta de um iceberg que cresce silenciosamente nas madrugadas brasileiras. Segundo a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, do Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, em média 30 cães e gatos são torturados e mortos por noite, principalmente filhotes, em transmissões ao vivo no Discord, acompanhadas por plateias de até 600 pessoas. Nem sempre a vítima é um cão de rua, pode ser o animal de estimação do próprio agressor.
A polícia não confirma envolvimento dos adolescentes acusados de matar Orelha com redes de zoosadismo que se espalham pelas plataformas digitais e recrutam crianças, adolescentes e até adultos em troca de “aceitação” e “pertencimento”, mas já apreendeu os celulares dos menores, que serão periciados.
Mais de 2 mil animais salvos de maus-tratos online
A delegada Lisandrea, que há quase dois anos monitora comunidades digitais de ódio, descreve um cenário estarrecedor:
“São, em média, 30 cães e gatos por noite que são torturados e mortos, principalmente filhotes. Usam passarinho, porquinho-da-índia, mas a maioria são cães e gatos. Fazem no call do Discord, ao vivo, no quarto do adolescente.”
Ela alerta que o zoosadismo é parte de um processo de dessensibilização que pode também ter pessoas como alvo:
“Eles passam a induzir crianças e adolescentes à automutilação e ao suicídio.”
Lisandrea lembra que sua equipe já salvou 358 crianças de indução ao suicídio e mais de 2 mil animais de maus-tratos transmitidos online. Mas nem todos os bichos escapam…
Cadela mutilada em Votuporanga
Também em janeiro, uma cadela foi encontrada morta em Votuporanga (SP) com a pata decepada, as glândulas mamárias arrancadas e sinais de espancamento na cabeça. O caso chocou a cidade e reforça que a violência contra animais não é episódica, mas parte de um padrão crescente.
Abacate: mais um capítulo previsível
Poucos dias depois da morte de Orelha, em Toledo (PR), outro cachorro comunitário, o Abacate, foi morto com um tiro que perfurou seu intestino. A polícia confirmou que houve intenção de matar, mas ainda não há culpados. A repetição dos casos mostra que não se trata de episódios isolados, mas de uma prática recorrente.
‘Orelha é só a ponta do iceberg’
O procurador Fábio Costa Pereira, coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul, é direto: “O zoosadismo é um grande marcador da mobilização à violência. O caso do Orelha é só a ponta do iceberg. Há coisas muito mais graves acontecendo.”
Para ele, a crueldade contra animais é apenas o primeiro degrau de uma escada que leva à radicalização de adolescentes em comunidades digitais de ódio, onde a violência é moeda social e a notoriedade é o prêmio.
Juíza diz que lei brasileira prevê penas muito brandas
A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, reforça que o caso Orelha é só a ponta do iceberg:
“O que adolescentes fizeram com o cão Orelha acontece todas as noites em muitas casas do Brasil, ao vivo no Discord. As pessoas estão divorciadas da realidade. Não têm ideia do que está acontecendo.”
E acrescenta:
“Eu teria zero surpresa se, depois da perícia, se concluísse que isso não foi apenas a ação de cinco meninos isolados, mas parte de uma comunidade maior, com liderança, incentivo e busca por status.”
Ela lembra que já julgou diversos adolescentes de classe média envolvidos em “panelas” digitais de tortura animal, hoje privados de liberdade em unidades socioeducativas. Mas reconhece:
“A lei brasileira prevê penas muito brandas. Para adultos, dois a cinco anos, geralmente em regime semiaberto. Para adolescentes, internação de até três anos. Infelizmente, ainda não temos uma lei dura no Brasil contra a tortura de animais.”
* com informações do Estadão e da BBC

