Vivi para contar: ‘O Rio de Janeiro se tornou uma bomba-relógio’, diz médico baleado na Zona Norte em segundo assalto à mão armada este ano

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O médico Harold Benjamin Aranibar passou por uma cirurgia após ter o úmero estraçalhado em uma tentativa de assalto — Foto: Reprodução/drbenjamim.vascular


Uma batida aparentemente sem importância no retrovisor foi o início do segundo assalto à mão armada sofrido pelo cirurgião vascular Harold Benjamin Aranibar, de 43 anos, este ano. Na última quarta-feira (16), depois de um plantão no Hospital Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, ele seguia de carro blindado para casa quando uma moto encostou no veículo, em Vila Isabel. Ao baixar o vidro para reposicionar o espelho, foi surpreendido por dois homens em outra motocicleta, que exigiram celular, carteira e aliança. Ao se abaixar para procurar o telefone que havia deixado cair, acabou baleado. O disparo atravessou seu braço e estraçalhou o úmero. Harold já passou por uma cirurgia de reconstrução e deverá ser submetido a uma segunda intervenção. Diante da violência, agora pensa em deixar o Rio com a esposa, a dermatologista Natália Aranibar, e as duas filhas.

“A violência está tão escancarada aqui no Rio… Não gosto muito de me expor, nem nas minhas redes sociais faço isso. Faço divulgação profissional, mas não apareço. Agora é uma questão em que preciso fazer um alerta: os bandidos saem para matar. Vivi uma cena de filme de terror. O Rio de Janeiro se tornou uma bomba-relógio. Não é normal alguém ter que pensar em usar um carro blindado. É uma situação bizarra.

Tinha acabado de deixar meu plantão em Jacarepaguá e seguia para casa quando fui abordado na Rua Teodoro da Silva, quase na esquina com a Maxwell, em Vila Isabel. Percebi que uma moto bateu levemente no meu retrovisor. Como não foi nada demais, apenas nos acenamos, mas baixei o vidro para reposicionar o espelho. Não percebi nenhuma maldade. Foi nesse momento que outra motocicleta chegou e anunciou o assalto. O homem estava de capacete e colocou a mão no vidro, impedindo qualquer reação minha. Na outra mão, segurava a arma.

Foi logo gritando e pedindo minha aliança e meu celular. Estava muito nervoso naquele momento e, quando fui passar a aliança, ela caiu perto do banco do carro. Ele gritava a todo momento que iria me matar, que ia me dar um tiro. Só passava pela minha cabeça que eu poderia morrer, ao mesmo tempo em que tentava pegar a aliança. Ofereci meu celular, pedindo calma. Mas ele foi ficando mais alterado. Até que, em determinado momento, só escutei o estalo do tiro. Senti uma dor absurda e comecei a gritar, mas ninguém parou para me ajudar. Ele foi embora sem levar nada.

Por conta da minha experiência como cirurgião cardiovascular, tive noção de que meu braço estava com uma fratura exposta. Estava vestido com o jaleco do plantão, aquela roupa que os médicos usam nas salas de cirurgia, apenas com uma jaqueta por cima. Mesmo com o braço pendurado, consegui ligar para meu irmão, John, que é ortopedista. Depois, liguei para outro médico que foi meu chefe e contei para todos o que havia acabado de acontecer. Liguei também para minha esposa, mas ela não atendeu naquele momento. Ela também é médica.

Estava com muita dor, mas, nessa hora, lembrei que passei a vida inteira do outro lado. Também trabalho no Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo. Lá, já realizei diversas cirurgias em pessoas atingidas por disparos de arma de fogo, inclusive em pessoas que participam de crimes. Naquela hora, estava do outro lado. Busquei manter a calma e escolhi ir para o Hospital São Lucas, em Copacabana. Dirigi por 24 minutos, com o braço sangrando, com uma dor insuportável, sozinho. Quando cheguei, já estavam todos me esperando. Fui direto para a sala de cirurgia e realizei todos os exames. Sabia que era uma corrida contra o tempo caso tivesse uma lesão neurológica nos nervos. Isso poderia significar a perda dos movimentos.

Apesar da situação, descartaram lesões graves que poderiam me causar sequelas. Imagine um cirurgião sem os movimentos. Seria o meu fim. Precisaram retificar o osso, que estava estraçalhado, e colocar um pino para mantê-lo no lugar. Agora são quatro meses de recuperação.

Tinha passado por outro assalto quatro meses antes. Estava indo para São Gonçalo quando fui assaltado próximo ao Terminal Gentileza. Depois disso, resolvi comprar um carro blindado. E foi justamente dentro dele que minha vida ficou sob risco.

Neste momento, se tivesse uma oportunidade, deixaria o estado do Rio. Mas nada é tão simples assim. Tenho família, duas filhas pequenas e uma carreira consolidada aqui. Recebi muitas mensagens de apoio, de amigos e até de um desconhecido me convidando para trabalhar no Maranhão. No entanto, nada é simples assim. Não quero essa violência toda para mim, para minhas filhas. Algo precisa mudar urgentemente.”

*Em entrevista ao repórter Rafael Timileyi Lopes



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/rio/bairros/tijuca-e-zona-norte/noticia/2026/09/23/vivi-para-contar-o-rio-de-janeiro-se-tornou-uma-bomba-relogio-diz-medico-baleado-na-zona-norte-em-segundo-assalto-a-mao-armada-este-ano.ghtml

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