Violência não é só caso de polícia

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Ato contra feminicídio na Avenida Paulista — Foto: Hyndara Freitas/Agência O Globo


A violência no Brasil não é só problema de segurança pública. É sintoma social, sinal visível de fraturas profundas na maneira como nos relacionamos, compreendemos o outro e construímos a vida em comum. Cada estatística esconde uma história interrompida, um vínculo rompido, uma biografia ferida.

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Os números recentes ajudam a dimensionar esse mal-estar coletivo. Em 2025, 3,5 milhões de mulheres relataram ter sofrido algum tipo de agressão. Crianças e adolescentes convivem com cenas de hostilidade em casa. O crescimento dos processos judiciais é só a face institucional de um sofrimento que há tempos circula em lares, escolas, ruas e nas redes sociais.

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O debate público costuma se concentrar, legitimamente, em respostas jurídicas. Medidas como tornozeleiras eletrônicas, endurecimento das penas e ampliação dos dispositivos de proteção representam avanços civilizatórios importantes. Mas nenhuma legislação, por si só, alcança a raiz do problema.

A violência persiste porque está ligada a modos de existir: à forma como lidamos com frustração, desejo, medo, perda de controle e sensação de insignificância. Ela emerge quando o outro deixa de ser percebido como sujeito e passa a ser tratado como objeto. O agressor não tolera limites, não reconhece a alteridade, não suporta a diferença. Em muitos casos, a violência é a linguagem de quem não encontrou outra forma de se afirmar no mundo.

A dignidade humana não nasce do desempenho, da força ou da submissão, mas do simples fato de existir. Quando uma cultura relativiza esse valor, abre espaço a práticas que naturalizam o abuso. A agressão deixa de ser exceção e passa a integrar o cotidiano. Famílias tornam-se territórios de medo; escolas, espaços de tensão; e o convívio social se converte em arena permanente de confronto.

O impacto sobre crianças e adolescentes torna o quadro ainda mais grave. A exposição contínua à violência produz o que especialistas chamam de estresse tóxico, associado a ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem e empobrecimento dos vínculos afetivos. Entre 2013 e 2023, os índices de suicídio entre jovens cresceram mais de 40%. Não são tendências isoladas: violência, sofrimento psíquico e desamparo social pertencem ao mesmo campo de experiência.

A violência também migrou e se expandiu no ambiente digital. Vazamentos de imagens íntimas, humilhações públicas, perseguições virtuais e o uso de inteligência artificial para fabricar cenas ampliam o alcance do dano. O corpo continua sendo o alvo, ainda que mediado por telas. O ataque agora é permanente, replicável e difícil de conter.

Esses fatores exigem uma mudança cultural profunda, que envolva educação emocional, políticas de cuidado e reconstrução dos vínculos comunitários. Prevenir a violência é ensinar a lidar com conflitos sem destruição. É formar pessoas capazes de reconhecer limites, pedir ajuda e assumir responsabilidade por seus atos. É reaprender a conviver.

Que tipo de sociedade produzimos quando o outro é visto como inimigo, e não como semelhante? A resposta passa por uma revisão de como entendemos poder, afeto e convivência. Enquanto tratarmos a violência apenas como caso de polícia, continuaremos cuidando dos sintomas e ignorando a doença. O desafio do nosso tempo é reconstruir uma cultura em que a vida seja protegida não pelo medo da punição, mas pelo reconhecimento da dignidade.

*Daniel Guanaes, ph.D. em teologia pela Universidade de Aberdeen, é pastor presbiteriano, psicólogo clínico e autor do livro “Cuidar de si”



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2026/03/violencia-nao-e-so-caso-de-policia.ghtml

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