O adolescente envolvido no caso de estupro coletivo contra uma menina de 17 anos, em Copacabana, é considerado foragido desde ontem. A Vara da Infância e da Juventude da Capital expediu mandado de busca e apreensão contra o menor, apontado pela Polícia Civil como possível mentor do crime por ter atraído a vítima ao apartamento. A determinação da Justiça veio após o Ministério Público do Rio (MPRJ) rever seu posicionamento inicial contra a medida. A polícia iniciou as buscas, mas até a noite de ontem o jovem não havia sido encontrado.
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Os quatro homens presos por participação no crime estão na Cadeia José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte. Foram alocados separados dos demais internos na unidade em celas conhecidas como “seguro”. Dois deles — Mattheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho, ambos de 19 anos — passaram por audiência de custódia ontem e tiveram a prisão mantida pela Justiça. Os outros — Vitor Hugo Oliveira Simonin e Bruno Felipe dos Santos Allegretti, os dois de 18 anos — devem passar pelo mesmo procedimento hoje.
Confira abaixo a linha do tempo com os principais fatos envolvendo a investigação do crime:
O quinto envolvido, o ex-namorado adolescente, apontado como articulador do encontro, ainda não foi internado, já que o Ministério Público do Rio (MPRJ) não pediu a medida provisória à Vara de Infância e Juventude da Capital. Segundo o MPRJ, no caso do adolescente, foi feita uma representação para que ele responda por ato infracional análogo ao crime investigado.
Em nota, o órgão informou ainda que medidas cautelares podem ser requeridas no decorrer da investigação. Indagado sobre o motivo de não representar pela apreensão do menor, o órgão não respondeu.
Apesar da existência de um pedido, feito pela 12ª DP (Copacabana), para a apreensão e internação do adolescente, a lei veda, neste caso, a decretação de ofício pelo juízo competente sem uma representação do Ministério Público.
Na terça-feira, a Justiça do Rio negou habeas corpus a três dos quatro homens suspeitos de participarem do estupro coletivo. O desembargador Luiz Noronha Dantas, da 6ª Câmara Criminal, indeferiu os pedidos das defesas dos réus.
No mesmo dia, dois se apresentaram à polícia. Mattheus Veríssimo Zoel Martins, se apresentou na 12ª DP acompanhado de advogado e teve o mandado de prisão cumprido. No mesmo dia, João Gabriel Xavier Bertho, se entregou na 10ª DP (Botafogo).
Nesta quarta-feira, Vitor Hugo Oliveira Simonin, se apresentou na 12ª DP (Copacabana). Horas antes, o pai dele, José Carlos Simonin — então subsecretário de Governança, Compliance e Gestão da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos — foi exonerado do cargo. A decisão foi publicada no Diário Oficial após pedido da secretária Rosângela Gomes, encaminhado ao secretário da Casa Civil, Nicola Miccione. Segundo a pasta, a medida buscou “resguardar a integridade institucional e assegurar a condução responsável dos fatos noticiados”.
Vitor foi transferido, ainda nesta quarta, para a Casa de Custódia de Benfica. Ao deixar a delegacia escoltado por policiais, ele foi alvo de xingamentos ainda na calçada, antes de ser colocado no carro da polícia. Depois que o suspeito entrou no veículo, um grupo de moradores cercou o automóvel, continuou a gritar ofensas e pediu justiça. Alguns chegaram a bater nas laterais do carro, que arrancou em seguida. Mesmo após a saída, os manifestantes seguiram o veículo aos gritos.
O último a se apresentar foi Bruno Felipe dos Santos Allegretti, que se entregou na 54ª DP (Belford Roxo) no início da tarde desta quarta-feira. Ele é estudante do curso de Bacharelado em Ciências Ambientais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).
Sessenta minutos de violência
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Entre 19h24 e 20h42 do dia 31 de janeiro, câmeras de segurança registraram a entrada e a saída de quatro homens, um adolescente e a vítima em um prédio na Rua Ministro Viveiros de Castro. O que ocorreu no sexto andar foi reconstituído a partir do depoimento da jovem e dos elementos reunidos pela 12ª DP.
Segundo o inquérito, a adolescente foi convidada para o apartamento por um jovem de 17 anos, com quem já havia tido um relacionamento. Ela foi sozinha. No elevador, ouviu dele a sugestão de que fariam “algo diferente”. No imóvel — pertencente à família de Vitor Hugo e alugado por temporada — já estavam os outros integrantes do grupo.
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A jovem relatou que, após ir para um quarto com o adolescente, os demais passaram a invadir o cômodo. Inicialmente, observaram e fizeram comentários. Depois, segundo o depoimento, começaram os toques sem consentimento. Mesmo após protestos, os quatro maiores de idade retornaram ao quarto e, de acordo com o relato, a situação evoluiu para cerca de uma hora de violência sexual e agressões físicas.
Ela afirmou ter sido puxada pelos cabelos, agredida com tapas, chutes e socos e impedida de sair quando tentou deixar o local. Disse que continuou sendo violentada mesmo após pedir que parassem.
Ao sair do prédio, por volta das 20h25, enviou um áudio ao irmão dizendo que “achava que tinha sido estuprada”. Em casa, contou o ocorrido à avó, que a levou à delegacia naquela noite.
O exame de corpo de delito apontou múltiplas lesões — equimoses e escoriações no dorso e nas laterais do corpo, marcas na região glútea e sangramento na genitália — compatíveis com violência física recente.
‘Possíveis novas vítimas’
A Polícia Civil do Rio agora apura três casos distintos de violência sexual ligados, ao menos em parte, ao mesmo grupo de jovens da Zona Sul. A revelação da terceira denúncia foi feita pelo delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP (Copacabana). Segundo ele, trata-se de uma vítima menor de idade, aluna do Colégio Pedro II, que relatou ter sido abusada em outubro do ano passado, durante uma festa organizada pela escola.
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— Um dos casos já teve registro de ocorrência, no qual a adolescente relatou ter sido vítima de abuso por três homens. Dois deles eram do grupo identificado no caso de Copacabana. O terceiro suspeito ainda não se sabe se integra esse mesmo grupo. Agora, outra vítima procurou a delegacia para registrar o caso. Evidentemente, a investigação ainda está em estágio inicial, e é preciso cautela. Vamos trabalhar de forma técnica para apurar a conduta de cada um. Portanto, é necessário reunir provas para subsidiar a investigação — pontuou o delegado Angelo Lages, titular da 12ª DP.
A segunda vítima que procurou a polícia relatou ter sofrido o abuso em agosto de 2023. Na época, ela tinha 14 anos. Em depoimento à polícia, a mãe da jovem contou que o crime foi cometido por três homens, sendo dois deles já identificados no caso de Copacabana: o menor de idade que não teve sua identidade revelada e Mattheus Martins, de 19 anos. De acordo com o relato, a menina foi atraída para uma emboscada, assim como a outra vítima. Ela foi convidada para ir até a casa do menor e, ao chegar lá, tinha três pessoas na casa.
— A vítima relata o mesmo modus operandi. Ela já tinha ficado com o menor, confiava nele e ele a atraiu para o imóvel, que era do Mattheus — detalha o delegado.
Em depoimento, ela contou que foi para o quarto com o menor e os outros dois homens ficaram na sala. Enquanto ela estava beijando o adolescente, os outros homens batiam na porta. De acordo com o documento da polícia, o menor perguntou à vítima se os amigos podiam entrar e alegou que um deles pagaria o carro de aplicativo para ela voltar para casa depois, com o objetivo de coagi-la a abrir a porta. Depois disso, o menor teria tirado a roupa da vítima “contra sua vontade” e iniciado o abuso.
O relato da jovem afirma que os demais homens abaixaram a calça e que Matheus teria dado um tapa no rosto da vítima e ordenado que ela fizesse sexo oral. Ela ainda afirmou que integrantes do grupo bateram em seu rosto e deram socos em suas costelas enquanto cometiam o estupro. Ela contou que o episódio durou cerca de 1h30.
No depoimento, ela contou que chorou bastante durante todo o ocorrido e que os três “riam do que faziam”.
Já o terceiro caso envolve outra adolescente, que afirmou ter sido violentada durante uma festa escolar na Zona Sul, em outubro do ano passado. Conforme destacou Lages, a acusação, neste ponto, envolve apenas Vitor Hugo.
A terceira jovem que procurou a polícia foi ouvida pelos agentes na terça-feira. Ela acusou Vitor Hugo Oliveira Simonin de ter abusado sexualmente dela numa festa de alunos do Colégio Pedro II, num salão de festas no Humaitá, em outubro de 2025. O caso é investigado pela Polícia Civil.
O delegado também afirmou que a polícia trabalha com a possibilidade de surgirem outros relatos. As investigações sobre os novos episódios estão em estágio inicial. A polícia afirma que busca individualizar a conduta de cada investigado em cada caso.
“Nesse curto espaço de tempo, já apareceram duas outras vítimas. Há relatos em redes sociais da existência de mais vítimas. A gente conta fortemente com essa possibilidade de que outras meninas que foram vítimas desse grupo, ou de um deles, compareçam à delegacia para trazer o relato do que aconteceu”, disse o delegado, durante o programa Encontro, da TV Globo.

