Annik Salmon está gripada. “Peguei da minha filha”, diz. Em sua mesa no modesto, porém organizado barracão do Arranco, na região da Central, vitamina C e repelente contra mosquitos dividem espaço com papéis, desenhos e outros elementos. A estudante de Belas Artes que começou com um estágio na Unidos do Porto da Pedra e passou por escolas como Unidos da Tijuca (“aprendi muito com Paulo Barros”), Unidos de Vila Isabel e Mangueira, aos 44 anos assina sozinha pelo segundo ano seguido o carnaval da escola do Engenho de Dentro.
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Com as mortes de Rosa Magalhães – que será enredo do Salgueiro, em desfile para o qual Annik foi convidada – e Márcia Lage, a artista da Ilha do Governador é a única mulher entre as 27 agremiações que passarão pela Marquês de Sapucaí em cinco dias de desfile. “Tento tapar o sol com a peneira e fingir que não estou vendo atitudes machistas”, diz ela, que contará a história do palhaço Xamego, na verdade Maria Eliza Alves dos Reis, que por décadas se apresentou no Circo-Teatro Guarany, em São Paulo, escondendo ser mulher.
No meio das dificuldades típicas do grupo de acesso (como a cabeça de palhaço da fotografia, originalmente um orixá, presente da Imperatriz Leopoldinense para a coirmã), o Arranco é a terceira a desfilar no sábado de carnaval, dia 14 de fevereiro, em um grupo cheio de enredos femininos e feministas.
Como está o trabalho no Arranco?
A gente conseguiu dar uma reestruturada no barracão. Vocês vieram num dia com chuva, aí aparecem goteiras, várias partes ficam alagadas. Normal. Estamos conseguindo manter um barracão limpo, sem restos de material no chão. Até pela segurança mesmo, né? Estamos soldando peças, cortando. Uma fagulha que cai num pedacinho de isopor vira um fogo. Aqui a gente ainda tem uma estrutura boazinha. Outros barracões da série Ouro não são como o nosso. Um problema é o pé direito baixo, de apenas quatro metros. Os carros alegóricos acabam sendo menores.
Como você pensou no enredo?
O circo é uma paixão que eu tenho. Tive o prazer de trabalhar no circo-escola Crescer e Viver, como figurinista. Passei a entender a vida dos artistas circenses, do pessoal que estudava o palhaço, o malabarista, o contorcionista, o equilibrista. Fiquei encantada com aquela magia e pensei: “se um dia eu for carnavalesca, vou fazer um enredo sobre o circo”. O tempo foi passando, e quatro anos atrás descobri o documentário “Minha avó era palhaço”, dirigido por Mariana Gabriel (com Ana Minehira), sobre palhaça Xamego, Maria Eliza Alves dos Reis.
Quem foi ela?
Ela veio de uma família circense em São Paulo, no início do século passado. O pai era o dono do circo, e o irmão era o palhaço. Ele teve uma doença degenerativa e teve que parar de atuar. Ela, então, assumiu o papel do irmão, e por 50 anos foi a palhaça do circo, sem revelar a ninguém que era mulher e negra. Seu pai, João, era um negro nascido na época da Lei do Ventre Livre, que resolveu empreender e abriu um circo, o Circo-Teatro Guarany. É um enredo perfeito para mim, que tenho essa paixão pelo Circo e estou sempre falando da questão feminina, exaltando as mulheres do Brasil, com homenagens ou simplesmente contando histórias. Entramos em contato com a família da Maria Eliza, eles ficaram muito emocionados com o enredo, vão desfilar conosco e ainda fazer um documentário sobre o carnaval do Arranco.
Annik Salmon
Ana Branco
Que outros enredos nessa temática você já desenvolveu?
No ano passado, falamos sobre a maternidade, com “Mães que alimentam o sagrado”. O enredo tinha a ver com o Arranco, uma escola totalmente matriarcal, cheia de mulheres no comando, como a presidente Diná Santos, a mestre de bateria Laísa Lima (filha do lendário diretor de carnaval Laíla) e a intérprete Pâmela Falcão. Meus enredos na Mangueira, “As Áfricas que a Bahia canta”, e a homenagem à Alcione, também tiveram essa pegada.
E como você se sente sendo a única mulher carnavalesca na Sapucaí?
Pois é, morreu a Rosa (Magalhães), morreu a Márcia (Lage), morreu a Maria Augusta, eu fiquei sozinha.
O que você acha dos trabalhos delas?
Maria Augusta era minha amigona. A gente se falava sempre, ela mandava mensagens, o horóscopo do dia. Foi nos carnavais dela na União da Ilha do Governador que eu comecei a gostar dos desfiles. Sempre morei na Ilha, e a gente ouvia muito os sambas na minha casa. Os que mais marcaram a minha infância foram exatamente os dos carnavais da Maria Augusta. Um pouco antes de ela falecer (em julho de 2025), participamos de uma palestra juntas, e ela falou sobre isso, a luta para fazer carnaval na Ilha nos anos 1970. Ela tinha que fingir que não ouvia os comentários machistas. Dizia: “Eu nunca me casei, não tive filhos e eu não consegui levar minha vida de carnavalesca”. Ela dizia que me admirava por eu ser casada, mãe, e lutar pelo meu espaço no carnaval. Acho que essa estrutura familiar me ajuda muito. Minha filha me energiza.
Como você enfrenta o machismo no ambiente do carnaval?
Cara, a gente, por mais que às vezes se sinta mais respeitada… Depende da situação. Às vezes eu tento tapar o sol com a peneira pra não enxergar que aquilo é uma atitude machista e deixar pra lá. Mas outras vezes, em pequenos detalhes, a gente percebe. No carnaval passado, o Arranco ficou em sétimo lugar, sua melhor colocação desde a volta à Série Ouro, em 2022 (a escola ficou em divisões inferiores por 15 anos). Todo mundo ficou muito feliz, a comunidade, a escola… Começou até uma preocupação da diretoria, certa de que eu receberia um convite de uma escola do Grupo Especial. A presidente dizia: “Ela não pode sair de jeito nenhum!”. Não recebi convite algum. O pessoal do Arranco fez um bolão, apostando nas escolas que me convidariam, e nenhuma me chamou. Os dois carnavalescos que estavam aqui antes de mim, que são maravilhosos, não conseguiram colocações tão boas, e ambos receberam convites (Antônio Gonzaga está na Grande Rio, após passar pela Portela, e Nicolas Gonçalves comanda a Unidos da Ponte, também da Série Ouro, e a Acadêmicos do Tucuruvi, do Acesso 1 de São Paulo). Aí eu me pergunto: “Por que será?”
Annik Salmon
Ana Branco
O que você acha dos trabalhos de Rosa Magalhães e Márcia Lage?
Sempre gostei da Rosa, ela me inspirou muito. No primeiro ano em que assinei o carnaval sozinha no Porto da Pedra, 2020, eu precisava fazer um tigre (animal-símbolo da escola) novo, e a escola não tinha dinheiro. Tínhamos apenas uma cabeça de tigre. Inspirada na Rosa, tive a ideia de trazer o tigre banhado nas águas, já que o samba falava “Meu tigre lava a alma na avenida”. Quanto à Márcia, sempre gostei do que ela fazia com as cores. Ela trabalhava em dupla com Renato Lage, que também é maravilhoso, mas dava para perceber o que era trabalho da Márcia ali. Acho que às vezes ela acabava se apagando e ele levava os louros. Também me inspirei muito nas fantasias de Rosa, roupas inteiras vestindo as pessoas. Era muito bonito. Quando a gente perde essas três mulheres, eu fico: “Caraca, tô sozinha nisso tudo!”
Você vê outras mulheres que podem vir a assinar carnavais em breve?
Sim, há várias em escolas menores, que desfilam na Intendente Magalhães, como a Estter Domingos, que trabalhou comigo na Mangueira e está na Independentes de Olaria, e a Thayssa Menezes, na Acadêmicos da Abolição. Parece que o pessoal tem medo de apostar na mulherada. Você está sempre tendo que se provar.
Como foram os seus dois anos na Mangueira (os carnavais de 2023 e 24, que Annik fez em dupla com Guilherme Estevão)? Havia muita pressão?
Sempre. Uma cobrança enorme. Foi um tempo bom. Claro que a gente nem sempre agrada a todo mundo, e sempre a responsabilidade cai em cima da carnavalesca, mesmo quando a cabeça de uma alegoria cai porque alguém não se lembrou de abaixá-la (viralizou a imagem de um diretor segurando a cabeça de uma boneca que representava Alcione). Mas é isso aí.
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Com informações da fonte
https://extra.globo.com/rio/carnaval/noticia/2026/01/unica-carnavalesca-na-sapucai-em-2026-annik-salmon-conta-sobre-os-desafios-do-cargo-fiquei-sozinha.ghtml
Única carnavalesca na Sapucaí em 2026, Annik Salmon conta sobre os desafios do cargo: 'Fiquei sozinha'

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