“Job” nasce de uma fonte arcaica e incômoda: o Livro de Jó. Não como adaptação, mas como tensão conceitual. Na narrativa bíblica, Jó não é apenas o homem que sofre injustamente; é aquele que se recusa a aceitar o sofrimento como lição moral ou punição pedagógica. Ele argumenta, insiste, questiona a ordem divina. O texto bíblico não resolve o dilema — expõe a falência da lógica que promete sentido, mérito ou recompensa. Permanecer vivo, ali, é sustentar o enigma.
Essa herança atravessa a escrita de Max Wolf Friedlich, autor de “Job”, um dos dramaturgos mais atentos às contradições do presente. A palavra job, em inglês, significa trabalho, função, tarefa a cumprir. A peça se estrutura justamente nesse território instável entre vocação, obrigação e desempenho. Tudo acontece em tempo real, dentro de uma sessão de terapia, em um espaço fechado, controlado, quase asséptico — um lugar onde escuta e julgamento coexistem de forma ambígua.
Em cena estão Lloyd, terapeuta, e Jane, executiva de uma empresa de tecnologia. À primeira vista, ocupam posições opostas. No entanto, ambos exercem essencialmente a mesma função: observar, interpretar, decodificar comportamentos. São profissionais treinados para atribuir sentido ao outro. Mas interpretar nunca é neutro. Toda leitura carrega desvios, lacunas e interesses. É nessa fricção que a dramaturgia se constrói.
A peça desloca continuamente as expectativas. O terapeuta escuta ou projeta? A paciente analisa ou manipula? Um segredo do passado de Lloyd — revelado por Jane — implode a hierarquia da relação e provoca uma troca radical de lugares. Quem deveria manter distância se fragiliza. Quem parecia calculista se envolve. As funções se embaralham. Os papéis deixam de ser seguros. O job já não define quem cada um é.

Os diálogos, rápidos e cortantes, transformam a palavra em arena. O confronto verbal substitui qualquer ação externa. A terapia aparece como símbolo de um trabalho que exige neutralidade emocional, enquanto o mundo corporativo contemporâneo demanda adesão subjetiva total. Trabalhamos porque precisamos — ou porque já não conseguimos nos separar daquilo que fazemos? A encenação sustenta essa pergunta sem jamais fechá-la.
O sucesso da peça em Nova York não é acidental. Depois de temporadas esgotadas no circuito alternativo, Job chegou à Broadway como uma raridade: um drama íntimo, sem concessões, que se impôs em meio ao espetáculo grandioso dos musicais. Seu impacto revela a potência de textos que enfrentam, sem atalhos, as inquietações do nosso tempo.
No Brasil, a produção de Diego Bastos, Edson Fieschi e Luciano Borges — o mesmo trio responsável por Prima Facie — reafirma a aposta em dramaturgias contemporâneas de forte densidade ética e emocional. Obras que não buscam conforto, mas confronto.
A direção de Fernando Philbert opta por precisão e contenção. Luzes de alerta e sons abruptos irrompem em momentos-chave, evocando ambientes industriais e protocolos de risco, como se a cena estivesse sempre à beira de uma falha sistêmica.

O cenário, minimalista, organiza um espaço que deveria ser funcional e impessoal, mas que nunca alcança essa frieza. Objetos cotidianos delimitam uma relação profissional que insiste em se contaminar do que chamamos humanidade. Bianca Bin constrói uma personagem instável e lúcida, capaz de oscilar entre vulnerabilidade e cálculo. Edson Fieschi, por sua vez, encarna a rigidez do discurso da eficiência, reiterando como mantra a frase: “voltamos ao trabalho”.
Assim como o Livro de Jó, Job não oferece respostas. Oferece atrito. E devolve ao espectador uma questão incômoda e atual: quando tudo se transforma em função, meta e performance, em que momento o trabalho deixa de ser tarefa — e passa a colonizar o humano?
Bianca Bin encara a jovem contemporânea com todos os seus conflitos — especialmente aqueles atravessados pelas redes sociais.
Conversamos com a atriz sobre como essas experiências chegam ao palco.
1- O espetáculo expõe o desgaste emocional provocado pelo mundo do trabalho. O que, nesse texto, mais te mobilizou como atriz?
“Job” toca em temas que eu queria muito refletir, debater e investigar. Falar sobre saúde mental hoje é fundamental, porque vivemos em um contexto de pressões constantes, aceleradas e muitas vezes invisíveis. Ansiedade, depressão, burnout e solidão deixaram de ser questões individuais isoladas e se tornaram fenômenos sociais, atravessados por fatores como trabalho, desigualdade, redes sociais, violência e instabilidade econômica. Falar sobre isso ajuda a tirar o sofrimento do campo do silêncio e da culpa, reconhecendo que cuidar da mente é tão essencial quanto cuidar do corpo.
2- Sua personagem vive em permanente estado de tensão. Como foi construir esse equilíbrio entre controle e explosão em cena?
Para mim, o teatro convida sempre à empatia: ao mostrar tanto as vítimas quanto os agressores como sujeitos atravessados por medo, desejo de pertencimento ou poder. Tudo isso foi construído através da direção maravilhosa do Fernando Philbert, que concentrou o espetáculo nos atores. Estamos falando sobre tecnologia, mas o que está em destaque ali é sempre o humano. E tem o fato de estar contracenando com o Edson. Estar com ele é aprender partitura de movimento cênico, disciplina e doçura. É sempre uma troca honesta. Na vida, um encontro feliz. O Edson só me traz alegria. Ele é muito generoso comigo, e espero retribuir como ele merece.
3- A peça se sustenta muito na escuta e nos silêncios. Você acha que a relação com a plateia muda a cada sessão?
Acredito que essa experiência artística funciona como um espelho desconfortável — mas necessário. Ela faz o público repensar muita coisa, principalmente se estamos apenas habitando as redes sociais ou sendo moldados por elas. O público sai com essa reflexão.
4- Que tipo de reflexão o espetáculo provoca no espectador?
As pessoas deixam de enxergar as redes sociais apenas como espaços neutros de entretenimento e passam a percebê-las como ambientes que podem ser tóxicos e perigosos. Isso provoca um olhar mais crítico sobre a própria presença digital. Pelo retorno que tivemos em São Paulo, o impacto não é só reduzir o uso do celular, mas ressignificar para que usamos as plataformas: de forma mais ética, menos automática e mais alinhada aos nossos valores. A violência verbal, o anonimato como escudo e a lógica do linchamento virtual deixam de ser normalizadas e passam a ser questionadas.
5- Novos projetos?
Tenho um projeto de teatro com o Sérgio Guizé e o Elias Andreato para o segundo semestre e também a novela “Dona Beija” (originalmente da Rede Manchete, de 1986) , que já gravei e será lançada agora em fevereiro pela HBO Max.
Serviço:
Teatro Total Energies – Sala Adolpho Bloch (Rua do Russel, 804 – Glória)
Até 22 de fevereiro
Sextas e sábados, às 20h
Domingos, às 18h


