Teatro, por Claudia Chaves: “Peça Infantil”, com Chay Suede

Tempo de leitura: 9 min


“Peça Infantil – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay” é mais um trabalho fruto do talentoso trio da cena brasileira: Luque Daltrozo (produtor), Felipe Hirsch (diretor) e Daniela Thomas (cenógrafa). Trata-se de um espetáculo adulto que escolhe a infância como forma narrativa. A estrutura é clássica: doze episódios organizam a trajetória do herói, à maneira dos trabalhos de Hércules. Cada fragmento tem começo, meio e fim, compondo uma biografia que parece épica — e, ao mesmo tempo, uma grande invenção.

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O herói é o Cavalheiro Roobertchay, alter ego de Chay Suede. A peça atravessa episódios improváveis de sua formação, do interior do Espírito Santo ao brilho simbólico do Copacabana Palace, passando pelo circo, pelo mambembe e pela sobrevivência popular. Tudo soa fantasioso demais — e é exatamente nessa zona ambígua entre verdade e invenção que o espetáculo se instala.

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(Flavia Canavarro/Divulgação)

A dramaturgia, assinada por Caetano W. Galindo, com colaboração de Hirsch, dialoga com a tradição de Laurence Sterne e Machado de Assis: narrador digressivo, ironia constante e autobiografia que se sabota. A linguagem é formal, erudita, quase aristocrática, contrastando com as experiências populares narradas. A infância aqui é método: o menino que conta histórias exagera, interrompe, reinventa — como toda criança que transforma a própria vida em teatro.

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(Flavia Canavarro/Divulgação)
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A estética acompanha essa lógica. As incríveis projeções de Daniela Thomas — belas, provocativas, feitas de textos, quadros e objetos — criam um contraste interessante com os elementos de cena, que assumem uma aparência artesanal. Mas é cálculo. O artifício exposto reforça que estamos no território da fabulação.

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(Flavia Canavarro/Divulgação)

Sob direção de Hirsch, Chay se distancia da própria imagem midiática e constrói um narrador ambíguo: herói, anti-herói e meta-herói. A peça fala de fama, autenticidade e mercantilização da imagem, mas, no fundo, trata de formação — de como alguém se inventa para sobreviver.

No fundo, é a história da maioria dos brasileiros. Como diria Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

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Entrevista com Caetano W. Galindo, professor, doutor e pesquisador em Linguística. Além da formalidade criativa da linguagem, foi o corajoso tradutor de “Ulysses” e vencedor do Prêmio Jabuti, o mais relevante do país.

1 – “A Vida e Opiniões de Tristram Shandy” (escrito por Laurence Sterne) é um romance do século XVIII cheio de digressões e interrupções. O que te atraiu nessa obra para levá-la ao palco hoje?

A decisão de incluir Tristram Shandy foi do Felipe, e há várias coisas ali que nos interessam. A ideia de alguém que decide contar a própria vida, mas nunca consegue, porque se perde em digressões, em desvios. Gostamos desse modelo como estrutura macro, para uma peça que nunca vai chegar ao seu destino, e como estrutura micro: uma frase que muda de assunto, que pula de uma coisa para outra. A ideia era o narrador pouco confiável, que mente um pouco e enrola para contar certas histórias, não entende direito os mecanismos de ir direto ao ponto. O Felipe apareceu com essa referência, e nos divertimos com ela.

2 – O personagem vivido por Chay Suede herda algo do espírito provocador e irônico de Tristram? Como você pensou essa construção?

Foi a vida do Chay que ele nos contou em longas sessões — umas oito horas de reunião ouvindo histórias da juventude dele. É uma história de aventuras, de coisas improváveis, de verdades que parecem mentira o tempo todo. Isso já era bastante sedutor para nós. Entrar nessa ideia desse personagem provocador e irônico, essa figura sedutora, ingênua, quase um charlatão, mas ao mesmo tempo encantador, nos seduzia também. O Felipe trabalhou muito para que essa persona aparecesse, para que o personagem ficasse entre o ingênuo e o sedutor, entre o salafrário e o encantador. Encontramos em Tristram essa afinação para o personagem.

3- Você já traduziu obras complexas como “Ulysses” e “O Apanhador no Campo de Centeio”. Essa experiência influenciou sua leitura de Tristram Shandy, considerado um precursor da modernidade?

Eu fui ler o Shandy depois de mais velho. Tive um primeiro contato na universidade e tomei um choque, percebi que não tinha inglês suficiente para ler aquilo. Voltei a ele depois de ter traduzido Joyce e já conhecendo bem a obra do Machado. Cheguei com uma noção muito sólida do que era aquele texto e, mesmo assim, me surpreendi o tempo todo. É um texto que não cansa de surpreender, de inventar, de ser diferente. Foi uma experiência nova entrar em Tristram Shandy para escrever a peça.

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4 – A peça chama atenção pelo uso de um português muito bem construído, com conjugação verbal rigorosa. Foi uma escolha para dialogar com o século XVIII ou criar contraste com o olhar contemporâneo?

Um pouco as duas coisas. Queríamos partir da linguagem do Shandy, mas não queríamos fazer um pastiche do português do século XVIII. O prólogo da peça se abre com Machado, mas também não queríamos imitá-lo. Queríamos esse tempero meio antiquado, misturado com coisas completamente anacrônicas. Citamos, por exemplo, Martinho da Vila em um trecho inspirado no Tristram Shandy, no Marcel Proust ou no Machado. Queríamos essa mistura, esse deslocamento. Não queríamos a imagem do Chay contando a própria vida em uma conversa direta com a plateia. Queríamos criar uma distância, uma opacidade entre a vida do Chay e o personagem Roobertchay. A linguagem foi uma das maneiras mais produtivas de fazer isso. Aquilo ali é a construção de uma retórica, de uma persona, de um personagem.

5 – O humor é central na obra de Laurence Sterne. Como equilibrar ironia, inteligência e comunicação direta com o público de hoje?

Eu acho que sempre foi muito difícil. Nunca se sabe exatamente onde vai acertar. É curioso assistir à peça e ver onde as pessoas vão rir. Momentos que você achava cômicos passam batidos, e outros geram grandes risadas. Isso tem a ver com a comunicação do ator e o trabalho incrível que o Chay fez ao se apropriar totalmente de um texto estranho e difícil, que sai da boca dele como se fosse autêntico. Nesse processo, ele também matizou o texto do jeito dele. A resposta instantânea da plateia é o termômetro para saber se algo chegou bem ou mal. É a nossa verdade disfarçada de mentira. É fazer o nosso melhor trabalho, não tentar enrolar ninguém, expor o que realmente queremos e conseguimos fazer, e torcer para o público certo encontrar essa peça — e para a peça encontrar o seu público. E o Chay é a melhor pessoa possível para isso.

Serviço:

Teatro Casa Grande, Leblon

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Sexta, às 20h30

Sábado, às 18h e às 20h30

Domingo, às 19h30

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-por-claudia-chaves-peca-infantil-com-chay-suede/

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