Teatro (Claudia Chaves): “Neguinho da Beija-flor”, espetáculo além da lição histórica

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Durante anos, uma das cenas emblemáticas da avenida foi a emoção de ver Vilma dançar. A ela se soma a alegria de ouvir, na voz incomparável de Neguinho, o grito: “Olha a Beija-Flor aí, gente!”

Com texto de Aydano André Motta, baseado na biografia que escreveu sobre o artista, a peça “Neguinho da Beija-flor – o musical” não se limita a contar fatos. O fio condutor são as mudanças e as angústias do personagem, do menino que jogava bola ao maior puxador de samba da história dos desfiles na Sapucaí.

(Nil Caniné/Divulgação)

A mãe de santo, interpretada por Verônica Bonfim, funciona como uma espécie de Merlin: uma mentora que transforma a magia do jogo de búzios em orientação de carreira. Um acerto. Verônica está perfeita no papel: na voz, no gargalhar, no andar e no acolhimento.

A direção de Luiz Antonio Pilar traz para o palco a linguagem do tempo cinematográfico, marcada pelos cronômetros. O primeiro ato remete ao tempo do desfile do Grupo Especial; o segundo, à duração do desfile do Grupo de Acesso. O recurso provoca expectativa, torcida e nó na garganta. Mais do que estabelecer a duração de cada ato, ajuda a entender como é difícil contar histórias com tempo determinado.

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Artistas de rua com roupas coloridas e chapéus, alguns sorrindo, encenam uma peça teatral. Um cartaz branco à esquerda diz ATENÇÃO e outro banner ao fundo exibe MESMO OLH.
(Nil Caniné/Divulgação)
Palco teatral com iluminação azul. Uma mulher de vestido branco e azul está em uma estrutura elevada à esquerda. À direita, um grupo de sete mulheres com roupas coloridas e braços erguidos. Ao fundo, colares grandes pendurados e músicos em um nível inferior.
(Nil Caniné/Divulgação)

Izak Dahora assume o desafio de interpretar uma figura tão conhecida. Leandro Melo também se destaca, e o elenco funciona como as alas de uma escola: cada uma fazendo seu passo, todas compondo um conjunto maravilhoso.

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Os figurinos de Rute Alves vão além da reconstituição histórica. Não revelam apenas a época, mas o estado de alma de cada personagem.

É lindo ver uma peça construída como um desfile de escola de samba: uma ópera viva, interessante e envolvente. Um exemplo da importância do trabalho de Pilar, nosso arqueólogo dos grandes personagens negros da história carioca.

Quatro artistas negros sorrindo e se abraçando no palco. Um homem à esquerda segura um tambor colorido. O homem central veste azul, e a mulher ao lado usa um cocar de penas azuis e amarelas. A mulher à direita veste branco e azul.
(Nil Caniné/Divulgação)
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O espetáculo vai além de uma lição histórica. É uma demonstração do orgulho que devemos ter de nossos talentos. Toda a trilha traz o samba naquilo que ele tem de melhor: enredo, histórias, amor, encontros e desencontros. Conta a estrada de Neguinho, mas também a história de nossa gente, num espetáculo plural em que todos obedecemos ao chamado: “Bota as mãos nas cadeiras, faz favor de mexer.”

Entrevista com Luiz Antonio Pilar:

1 – Como surgiu a ideia do marcador de tempo e o que você queria provocar no espectador?

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O tempo do desfile na avenida é uma das maiores preocupações dos diretores das escolas de samba. Aqueles relógios são um “tormento” para os componentes, com tantos quesitos em disputa. Quis trazer essa tensão para o espectador. Nunca assisti a um espetáculo que contasse — e mostrasse — o próprio tempo. O público de escola de samba se identifica imediatamente. Quando o relógio chega aos 70 minutos, torce para que não ultrapasse os 80, limite do desfile do Grupo Especial. Quem não tem essa vivência se diverte com a ideia. Ninguém até hoje reclamou. O primeiro ato segue o limite do Grupo Especial; o segundo, o do Grupo de Acesso.

2 – Como foi a escolha de Izak Dahora para interpretar Neguinho da Beija-Flor?

Conheço Izak desde criança. Em 2003, na Globo, dirigi o “Sítio do Picapau Amarelo”, em que ele fazia o Saci-Pererê, personagem que marcou a infância de muita gente. Voltamos a trabalhar juntos em “Lima Barreto ao Terceiro Dia”, montagem em que ele tocava rabeca. Desde então, cresceu no teatro e se tornou também um estudioso do samba, com mestrado, doutorado, textos e livro publicados. Além de ator e pesquisador, foi assistente de carnavalescos da Mocidade, como Renato e Livia Lage. Sempre soube que cantava e tocava, e conhecia sua pesquisa sobre a maneira de Neguinho cantar. Por isso, esperava um trabalho cuidadoso e bem pesquisado. Pensei nele desde o início do projeto: era minha primeira opção. Alain Roche também foi cogitado, mas estava impossibilitado por causa de uma novela.

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3 – Você vem levando ao palco personalidades negras fundamentais para a cultura brasileira. Como transforma essas histórias em teatro?

Fiz cinco peças seguidas sobre personalidades que têm um legado importante a ser contado e uma memória a ser resgatada. O desafio é fazer isso sem um tratamento frio ou documental, buscando uma linguagem teatral própria e combinando a vida real com a criação cênica. Um exemplo é o encontro de Neguinho com Elaine, sua atual mulher. Na vida real, eles se conheceram por intermédio de um amigo; na peça, encontram-se depois de um desfile. Quando assistiram ao ensaio, Neguinho disse: “Foi assim mesmo”, e os dois se beijaram. Não aconteceu exatamente daquela forma, mas talvez a cena captasse a essência do primeiro encontro. Às vezes, os fatos se dão de uma maneira, mas os sentimentos e as intenções vão além. Quero revelar algo que ultrapasse o que foi noticiado.

4 – Quais são seus próximos projetos?

Já está contratado um longa-metragem de ficção biográfico sobre a vida e a trajetória da mulher que criou o salão Beleza Natural, que revolucionou, na década de 1990, o tratamento dos cabelos de mulheres pretas. Em seguida, vou para São Paulo dirigir outro musical, sobre Luiz Melodia.

5 – Você também está pesquisando peças não biográficas com atores pretos. O que essa presença pode transformar, mesmo quando a questão racial não é o tema central?

Estou começando a pesquisar outros temas em que possa incluir atores pretos sem que a questão racial seja necessariamente o centro. São três peças em estudo. A presença de um ator preto ou de uma atriz preta muda todo o universo do que está sendo dito e feito. Por exemplo, estou estudando uma adaptação de “Terror e Miséria do Terceiro Reich”, de Brecht, ambientada numa favela onde a Igreja Universal do Reino de Deus é uma grande centralizadora das ações sociopolíticas. Já imaginou o que pode surgir daí? A ideia é sair da biografia e ampliar o campo para além da discussão exclusivamente racial brasileira.

Serviço:

Teatro João Caetano
Quintas e sextas, às 19h
Sábados e domingos, às 17h

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)



Com informações da fonte
https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/teatro-claudia-chaves-neguinho-da-beija-flor-espetaculo-alem-da-licao-historica/

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