Chico Buarque bebeu em Brecht e trouxe a “Ópera dos Três Vinténs” para o Brasil das décadas de 1930 e 1940. Um Rio onde prostitutas, malandros e contrabandistas eram senhores da noite. Um Rio de poder, desejo e corrupção.
Dessa história nasceram canções inesquecíveis. Agora, Jorge Farjalla revolve a obra e acrescenta novas camadas. A primeira aparece logo no início: Tiago Barbosa, meio malandro, meio Seu Sete, canta a canção-título em outro ritmo. As cortinas se abrem e todo o elenco está em cena. Um daqueles coros infalíveis. A orquestra faz o prelúdio, trechos das músicas surgem e até “Vai Malandra” entra, de forma inteligente, no jogo.
A segunda novidade é trazer a obra para o povo da rua: malandros, ciganas e figuras míticas. A macumba carioca ganha corpo na personalidade dos personagens. A brasilidade não está apenas no texto. Está no corpo.
A cenografia de Chris Aizner e os figurinos de Jorge Farjalla e Úga Agú, puxados para o vermelho, criam um universo de cabaré. Há chanchada. Há kitsch. Mas não há qualquer vestígio de comédia fácil.


E há dança. Muita dança. Sob a direção coreográfica de Leilane Teles, o conjunto enfrenta uma dificuldade técnica enorme: dança e sapateia durante praticamente todo o espetáculo, com os sapatos de metal acionados apenas em alguns números. É muito raro ver um grupo tão numeroso dançando e sapateando com tamanha sincronia e precisão. É maestria.
O elenco mantém um enorme equilíbrio. José Loreto dança muito bem e canta com voz afinada no papel de Max. Amaury Lorenzo surge irreconhecível como o delegado Chaves.


Mas Tiago Barbosa merece destaque. Quando assume Max Overseas, cresce, domina o palco. E, quando dança, a vontade é uma só: bater palmas e pedir bis.
Valéria Barcellos faz uma Geni de força impressionante, impotente e poderosa ao mesmo tempo. Canta com uma voz linda e interpreta com a alma.

Há ainda Marya Bravo, que, em um belo dueto, acrescenta outra camada musical à montagem.
No fim, só podemos agradecer. O malandro está na praça outra vez. E melhor.
Conversei com Valéria:
1. Geni é uma personagem que se aproxima da sua própria história?
Essa é uma personagem que se confunde um pouco com a minha história. Há muitas semelhanças e diferenças ao mesmo tempo. É uma mulher que me fez querer entender mais sobre Chico, sobre música e sobre uma realidade que não me é cara. E essa mulher, que também já teve o corpo e a voz de Emiliano Queiroz, é de uma importância infinita e representa uma felicidade para mim. Estou realizando o meu sonho e o sonho de muitas pessoas como eu.
2. Quanto das suas experiências pessoais entrou na construção dessa Geni?
As experiências pessoais atravessam completamente essa personagem, essa criação e a construção da Geni junto com Farjalla. A força vulnerável e a vulnerabilidade da força andam comigo desde que me entendo por gente. Você precisa ter muita doçura e, ao mesmo tempo, muita força, muita dureza. Pensar nessas forças e vulnerabilidades como ferramentas de sobrevivência é muito importante. É uma demarcação de território, de vida e de presença — não de apagamento ou de morte.
3 . O que significa interpretar Geni sendo uma mulher trans, em uma personagem que há décadas provoca discussões sobre preconceito?
Ela tira o verniz da hipocrisia. Expõe, revela o sangue vivo da hipocrisia. Percebemos muitas questões em torno de uma vivência como a de Geni: há quem se incomode por ser uma travesti interpretando a personagem e quem prefira que seja um homem cisgênero, produzindo esse “trans fake”. Nessas nuances, percebemos o que cada pessoa tem enraizado, de maneira preconceituosa, no coração, na vida e no dia a dia. Essa personagem provoca um desvelamento, mas também um incômodo. É uma pessoa que incomoda não por estar, mas por ser.
4. Você fala em legado. É importante construir esse legado para outras pessoas trans?
Eu fiz muitas coisas pela primeira vez, mas outras fizeram coisas pela primeira vez antes de mim. Quando conseguimos ter esse reconhecimento dentro da nossa comunidade, estamos falando de um legado de vida. Quando conseguimos transmitir em vida essas vivências, e não essas “morrências”, tudo faz sentido. Acho muito triste ainda ter que ser a primeira em alguma coisa em 2026. E acho mais triste ainda termos que contar com diretores que nos deem essas primeiras oportunidades.
Serviço:
Teatro Multiplan, no Shopping VillageMall, Barra
Sextas-feiras, às 20h
Sábados, às 16h e às 20h
Domingos, às 15h30 e às 19h30

