“Quando eu vim para esse mundo/ Eu não atinava em nada/ Hoje eu sou Gabriela/ Gabriela, iê/ Meus camarada”, canta Gal Costa aos primeiros acordes de “Modinha para Gabriela”. A composição de Dorival Caymmi foi tema de abertura das duas versões de “Gabriela” para a teledramaturgia — em 1975, com Sonia Braga, e em 2012, com Juliana Paes no papel da protagonista —, ambas inspiradas no livro de Jorge Amado “Gabriela, Cravo e Canela” (1958).
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Mulher de origem humilde e de forte conexão com a natureza, dotada de uma sensualidade quase ingênua e de um espírito livre e impulsivo, avessa ao conservadorismo e cheia da alegria de viver. As características da Gabriela da literatura bem cabem a Gabriela Loran, que também se destaca e faz história numa novela da TV Globo. Por isso, o EXTRA convidou a intérprete da farmacêutica Viviane de “Três Graças” para um ensaio de fotos com referências à sua brejeira e antiga xará da ficção. E o convite foi prontamente aceito pela atriz, com empolgação: “Sim, sim, mil vezes sim!”.
Na entrevista a seguir, a gonçalense de 32 anos celebra a visibilidade e a repercussão de sua personagem no horário nobre; fala sobre a torcida do público pelo casal “ViLeo”, formado com Pedro Novaes na trama escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva; cita preconceitos dos quais já foi e tem sido alvo; remonta situações da infância e a construção de sua identidade como mulher trans; revela desejos pessoais e profissionais a realizar a curto prazo… E vai de encontro à chamada síndrome de Gabriela — da qual sofrem os que resistem a mudanças —, traduzida nos demais versos da já citada “Modinha”: “Eu nasci assim, eu cresci assim/E sou mesmo assim, vou ser sempre assim…”.
— Eu vim para este mundo com a missão de modificar a cabeça das pessoas através da minha vivência. Descobri isso na espiritualidade. Carregar essa bandeira (da transexualidade) é pesado demais, no sentido de que o Brasil é o país que mais comete violência contra pessoas trans. Mas tenho o poder de usar a minha voz para transformar a realidade de muitos. Isso é histórico — enfatiza.
A atriz Gabriela Loran posa como “Gabriela, Cravo e Canela” para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
Qual é a personagem dos seus sonhos?
Ainda quero viver uma protagonista de verdade. Com Viviane, estou tendo a oportunidade de mostrar que sou capaz. Tenho sido abraçada pelo público e consigo entregar nuances dramáticas e de humor. Mas desejo muito poder conduzir uma história inteira até o fim. Se não vier a protagonista, que venha uma vilã. Ou uma personagem sem estereótipos.
Um papel que não tenha a transexualidade como característica central?
É… Viviane está sendo revolucionária. A gente não só está fazendo algo muito novo, como está reescrevendo a história de personagens assim. É a primeira vez que vemos numa novela uma transexual com tanta complexidade, destaque e profundidade. Mas também será revolucionário interpretar uma mulher com outras questões.
Você tem tido retorno positivo dos telespectadores mais conservadores?
Sim! Fui a um shopping de elite aqui no Rio, frequentado por senhoras riquíssimas, e elas me disseram que torcem por Viviane. Assim como, num supermercado megapopular na cidade, gente muito humilde me abordou com elogios. E as crianças? Na praia, um menininho lindo me reconheceu. A mãe dele, evangélica, contou que eles me assistem todo dia. Logo no início das gravações, Chico Accioly (gerente da área de talentos artísticos da TV Globo) ressaltou: “Serão 30 milhões de pessoas te vendo diariamente”. É uma visibilidade impressionante! Hoje, em qualquer lugar que eu chego, me reconhecem de imediato. Posso estar de cabelo preso, de óculos, de touca… Isso reverbera até na minha família. Sabem quem são minha mãe, meu pai…
A atriz Gabriela Loran posa como “Gabriela, Cravo e Canela” para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
Na última quinta-feira, 29, foi comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Você é a trans de maior visibilidade no Brasil atualmente, não?
Acho que sim… Estou numa novela das nove, ocupando um lugar de muito destaque. É positivo poder trazer mais humanidade para a nossa classe. Essa humanização dos nossos corpos está chegando agora, com a (deputada federal) Erika Hilton, com a (cantora) Liniker, comigo e várias outras meninas que estão nesse corre. Me emociona ter um Brasil torcendo por essa personagem e por mim.
Ainda assim, o ódio persiste… Como costuma combatê-lo?
Busco manter a alegria, porque a vida é um sopro. Vou fazer 11 anos de carreira e lembro que há pouco tempo estava na faculdade de Artes Cênicas. Tudo passa muito rápido, não quero ficar me importando com bobagens. Para lidar com a transfobia, eu tenho uma rede de apoio incrível, família e amigos maravilhosos. Sei quem eu sou, sei tudo que eu passei para chegar até aqui. Não vai ser um comentário na internet dizendo que eu não sou mulher, que o meu gogó está aparecendo, que meu nariz é assim ou assado que vai me definir. Quando você tem convicção de quem é, essas coisas pequenas não machucam, não abalam. A vida não é fácil, eu tenho meus momentos de baixa vibração também, mas eles logo vão embora.
Entre o racismo e a transfobia, qual é o preconceito mais agressivo contra você?
Eu já perdi personagem por ser negra. Fui convidada para um projeto bem legal, a diretora gostou de mim, criei uma expectativa enorme. Mas me ligaram dizendo que o papel não poderia ser meu porque a família da personagem já tinha sido montada só com pessoas brancas. Então, o racismo bate. Mas a transfobia bate mais forte porque, no meu caso, o gênero se sobressai à raça.
A atriz Gabriela Loran posa como “Gabriela, Cravo e Canela” para a Canal Extra
Vinícius Mochizuki
Gabriela tem cheiro de cravo e cor de canela. Qual é o seu cheiro?
Tenho usado o perfume Gabrielle (da Chanel), que ganhei de presente. E sou adepta de muitos cremes hidratantes, óleos corporais… Levo tudo na bolsa para estar sempre cheirosa. Sou quase uma alquimista (risos).
Por que escolheu o nome Gabriela para o seu registro, após a transição?
Em 2018, fui para o cartório e troquei meu nome no registro, em documento, em tudo. Eu sou muito grata ao Gabriel, porque ele permitiu que a Gabriela desabrochasse. Pra mim, isso (falar no nome morto) não é um tópico sensível, mas para muitas pessoas trans é. Eu gostava do meu nome anterior, tanto que só acrescentei o “a”. Gabriela é tão brasileiro! Traz doçura, força, uma energia gostosa.
E Loran? É uma escolha artística?
Gabriela Loran é um nome composto. Como João Vitor, Ana Clara… Não é sobrenome. Minha mãe escolheu quando nasci, ela adora nomes franceses.
Você tem postado fotos de biquíni, na praia, e nua, na cachoeira… É a sensualidade natural e a conexão com a natureza falando mais alto?
Dizem que eu tenho uma sensualidade sutil. Talvez por eu ser regida por Vênus em dose dupla, taurina com ascendente em Libra. E gosto de pé no chão. Fui criada em São Gonçalo, cresci correndo na rua, brincando no quintal, fazendo bolo de areia. O “barulho ensurdecedor da natureza”, os pássaros, o vento me fazem bem demais. No meu processo de transição de gênero, eu ia muito ao Aterro do Flamengo para botar o pé na grama e na areia e tentar entender por que eu queria fazer um movimento inverso, de dentro para fora. Eu sabia que as respostas para o que eu estava vivendo estavam dentro de mim e na natureza.
Gabriela Loran em foto ao natural
Reprodução de Instagram
“Gabriela” tem uma cena icônica, subindo no telhado para resgatar uma pipa. Era um brinquedo de que você gostava na infância?
Fui uma criança que brincou de tudo. Obviamente, não ganhava bonecas, mas pegava emprestadas as das minhas irmãs e das minhas primas. Nunca tive habilidade para soltar pipa, jogar futebol… A brincadeira que mais me fascinava era a de fazer novela. Sempre tive uma imaginação muito fértil. Essa qualidade, inclusive, me protegeu de muitas violências. E até hoje sou muito fiel à minha criança interior. Faço coisas que não tive oportunidade na infância. Por exemplo: já adulta, comprei minha primeira Barbie, me presenteio com ursinhos, como lanche infantil no fast food pra ganhar o brinquedinho, tomo sorvete na hora que me dá vontade…
Na cena em que Viviane se revela uma mulher transexual a Ferette (Murilo Benício), ela diz que vai adotar filhos com Leonardo (Pedro Novaes), pois não tem útero… Você também tem essa vontade?
A maternidade é um sonho antigo, o maior da minha vida. Determinei que até os meus 35 anos vou ser mãe. Esse menininho atentado que tanto quero ter pode chegar por adoção ou ser gerado… Minha mãe se prontificou (a gerar), mas ela tem 55 anos, é hipertensa, seria uma gravidez de risco. Uma das minhas irmãs quer cumprir essa missão. Se eu pudesse, teria uns cinco filhos. A priori, quero ter um, entender a maternidade e, quem sabe, partir para um segundo.
Pode vir por uma produção independente?
Sim, independentemente se eu estiver com alguém ou não até os 35, quero ser mãe.
Gabriela Loran acompanha Belo em show no Rio
Reprodução/Instagram
Você já conversa sobre isso com seu parceiro?
Quando isso acontecer, essa conversa vai existir, se houver um parceiro.
Continua namorando?
(O assessor interrompe e diz que ela não quer falar sobre o relacionamento amoroso com o ator Ipojucan Icaro). Tenho preferido preservar a minha intimidade, porque acredito muito em energias. Eu expunha muito a minha vida pessoal. Comecei a fechar, deixar só um recorte da Gabriela à mostra. Meu lado profissional eu posto o tempo inteiro.
Gabriela Loran e Ipojucan Icaro
Reprodução de Instagram
Seus vídeos nos bastidores de “Três Graças”, aliás, fazem muito sucesso… E você chegou a 1,3 milhão de seguidores no Instagram!
Sou muito comunicativa, puxo todo mundo da novela para gravar vídeo comigo. E os fã-clubes adoram! É uma forma de retribuir o carinho, a audiência. Porque eu gostava de ver o que acontecia por trás das câmeras quando assistia às novelas, no “Video show”. E eu sou uma criadora de conteúdo, né? Belo me chamou pra cantar o tema de ViLeo (“Perfeito par”) num show com ele e registrei tudo. Imagina: o cara que sempre embalou os churrascos da minha casa me chamar ao palco, me elogiar, eu ser ovacionada pelo público dele… Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar viver isso.
Sua química com Pedro Novaes é evidente. Viviane e Leo já entraram para a lista dos grandes casais da teledramaturgia brasileira?
Não tenho dúvidas! Sou a fã número um de ViLeo. É uma química absurda que surgiu entre a gente desde a preparação para a novela, temos uma troca incrível! Sou apaixonada pelo Pedro, pela história que estamos construindo juntos na trama. Há quem diga que somos os novos Babalu e Raí da televisão (interpretados por Leticia Spiller e Marcello Novaes, pais de Pedro, na novela “Quatro por quatro”, de 1994). O mais legal é ver os comentários da Leticia nas minhas postagens. Ela parabeniza, elogia nossas cenas juntos, incentiva… Que honra!
Leonardo (Pedro Novaes) e Viviane (Gabriela Loran) em “Três Graças”
Reprodução/TV Globo
Créditos
Reportagem Naiara Andrade naiara.andrade@extra.inf.br
Fotos Vinícius Mochizuki @viniciusmochizuki
Produção executiva Gabriela Medeiros gabriela.medeiros@oglobo.com.br
Coordenação Gabriela Germano gabriela.germano@extra.inf.br
Assistência de fotografia Josias Vieira @josiasvieirareal e Rodrigo Rodrigues
Beleza Zuh Ribeiro @zuhribeirobeauty_
Estilo Fernanda Brasil @fernandah_brasil
Agradecimento JO&JOE Rio @joandjoe.rio
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Com informações da fonte
https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/02/sucesso-em-tres-gracas-gabriela-loran-posa-como-gabriela-cravo-e-canela-e-avisa-ainda-quero-viver-uma-protagonista-de-verdade.ghtml
Sucesso em 'Três Graças', Gabriela Loran posa como 'Gabriela, Cravo e Canela' e avisa: 'Ainda quero viver uma protagonista de verdade'

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