A suspeita de que policiais militares tenham confundido colegas de farda com criminosos e disparado contra eles, matando um subtenente do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), levanta questionamentos da família da vítima sobre a atuação dos agentes envolvidos. Ex-mulher de Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, morto no domingo durante uma ocorrência em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio, Aline Viana cobra explicações sobre como os PMs do 18º BPM não teriam identificado os integrantes da tropa de elite. Segundo ela, a presença do Bope na região havia sido comunicada, o que aumenta as dúvidas sobre as circunstâncias do tiroteio.
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— Será que ninguém viu uma farda diferenciada ou não chegou mais próximo a ponto de saber o que era, já que não estava havendo troca de tiro? — questiona Aline, que acompanhou ontem o sepultamento do subtenente no Cemitério Jardim da Saudade, na Zona Oeste.
A ex-mulher afirma que a família recebeu inicialmente a informação de que não havia ocorrido comunicação prévia sobre a presença do Bope na região. Posteriormente, porém, os parentes teriam tomado conhecimento de que o aviso foi feito. Agora, querem saber se a informação chegou aos policiais envolvidos na ocorrência.
— A gente quer entender exatamente o que aconteceu. De primeira mão, foi falado para nós que não houve uma comunicação, e nós já sabemos que foi feita, sim, uma comunicação. Então, a partir de agora, a gente quer entender: quem foi comunicado? Essa pessoa passou a comunicação para todo o batalhão? Se sabiam que estavam naquela área, por que aconteceu isso tudo? — questiona.
Câmeras corporais e armas sob perícia
A ocorrência foi registrada na manhã de domingo, na Rua Guilherme Moreira, na Freguesia. Segundo a Secretaria de Estado de Polícia Militar, agentes do Bope abordavam um veículo quando policiais do 18º BPM (Jacarepaguá) chegaram ao local. A hipótese apresentada pela corporação é de que, devido à baixa luminosidade, os agentes do batalhão de área tenham confundido a abordagem com uma ação criminosa e efetuado disparos contra os colegas.
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Ao todo, seis policiais militares foram baleados: cinco do Bope e um do 18º BPM. Gláucio foi levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas chegou morto à unidade.
A Polícia Civil já ouviu alguns dos policiais envolvidos e solicitou as imagens das câmeras corporais dos agentes para esclarecer a dinâmica do confronto. Armas também foram recolhidas para perícia. A investigação busca determinar como os disparos começaram e se houve falhas na identificação dos integrantes do Bope.
As circunstâncias do episódio são apuradas pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e pela Corregedoria Interna da Polícia Militar, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (2ª DPJM).
Dois irmãos mortos em menos de um ano
A morte de Gláucio representa a segunda perda de um integrante do Bope na mesma família em menos de um ano. Seu irmão, o sargento Heber Carvalho Fonseca, foi um dos cinco policiais mortos na megaoperação realizada em 28 de outubro de 2025, no Complexo da Penha. O sepultamento do subtenente ocorreu a poucos dias do primeiro aniversário da morte de Heber.
Segundo Aline, o irmão mais novo tinha Gláucio como referência e decidiu entrar para a tropa de elite inspirado por ele.
— O Heber tinha o Gláucio como referência. Ele entrou no batalhão por causa do Gláucio. Então, o Gláucio tinha uma responsabilidade enorme sobre ele — conta.
Ontem, parentes, amigos e colegas de farda se reuniram no Cemitério Jardim da Saudade, na Zona Oeste, para a última despedida. Antes do sepultamento, um helicóptero do Bope sobrevoou o local e lançou rosas brancas e vermelhas em homenagem ao policial. Em terra, integrantes da unidade formaram um corredor para a passagem do caixão.
— Ele dizia: “Se um dia eu morrer, eu quero estar fardado” — recordou Aline, durante a cerimônia.
Gláucio tinha dois filhos e completaria 26 anos de serviço na Polícia Militar em dezembro, a maior parte deles dedicada ao Bope. Mesmo após o divórcio, Aline conta que os dois mantinham uma relação próxima e costumavam conversar antes e depois das operações.
Na semana passada, ele havia contado que participaria de uma missão, mas não poderia revelar detalhes. Os dois combinaram de se falar no dia seguinte, como faziam habitualmente. Às 7h de domingo, Aline enviou uma mensagem perguntando como havia sido a operação. Não recebeu resposta.
— Eu mandei mensagem para ele: “Gláucio, como você está? E aí, como foi?”. E eu já não obtive mais resposta nenhuma — relata.
A ex-mulher descreve o subtenente como um policial apaixonado pela profissão e que considerava o Bope parte de sua identidade.
— Ele fazia questão de dizer: “Eu sou caveira. Aquilo ali é a minha família” — lembra.
Para Aline, a ligação de Gláucio com a tropa de elite ajuda a família a encontrar algum conforto em meio à segunda perda em menos de um ano.
— Foi muito doloroso e ainda é. A gente vai se arrastando durante esse período, mas entende que aquilo ali era o amor da vida dele. E isso nos conforta — afirma.
